JAM Project: 25 anos do grito que fez o anime virar arena rock
Com nomes como Kageyama, Okui, Kitadani, Endoh, Fukuyama e o brasileiro Ricardo Cruz, o supergrupo celebra 25 anos levando o espírito dos heróis japoneses pra estádios do mundo todo
Por THIAGO CARDIM
Quando os primeiros acordes de uma abertura de anime arrepiam até quem não fala uma palavra de japonês, há boas chances de o JAM Project estar por trás disso. Fundado em 2000, o grupo nasceu como uma reunião de veteranos das anison – aquelas canções-tema que fazem qualquer otaku erguer o punho e mandar aquele grito de guerra mesmo sem saber direito o que significa.
Um quarto de século depois de nascer como o supergrupo dos temas de anime e tokusatsu, a banda continua gritando alto e levando o nome do Japão (e de um certo brasileiro) para plateias do mundo todo.
O nome vem de Japan Animationsong Makers Project, e a proposta era simples e megalomaníaca ao mesmo tempo: transformar as músicas de anime em um verdadeiro gênero de arena rock. E, de certa forma, conseguiram.
Os heróis originais da voz
O JAM Project foi originalmente fundado por Ichirou Mizuki (a voz por trás da lendária canção de abertura de “Kamen Rider X”, por exemplo), que queria revitalizar o espírito das clássicas canções dos animes. Assim sendo, o chamado Aniking (ou “Imperador das Anime Songs”) recrutaria Hironobu Kageyama (Dragon Ball Z), Masaaki Endoh (The King of Braves GaoGaiGar), Eizo Sakamoto (vocalista do ANTHEM e Animetal) e Rica Matsumoto (Pokémon) para formar este supergrupo.
Mais tarde, Mizuki reduziria sua participação para algo como “part-time”, dando espaço para as entradas de outros nomes como Hiroshi Kitadani (One Piece), Masami Okui (Revolutionary Girl Utena) e Yoshiki Fukuyama (Macross 7).
Pra qualquer fã de tokusatsu e animes, estamos falando de artistas que são quase uma enciclopédia viva do tema. Kageyama, que acabaria meio que se tornando o líder não-oficial da parada, o eterno “príncipe das canções de anime”, é simplesmente a voz das músicas de abertura dos super sentai Changeman e Maskman, além de também ser responsáveis por “Soldier Dream”, canção da trilha sonora dos Cavaleiros do Zodíaco.
“Adoro rock dos anos 1970”, confessa Kageyama, em entrevista ao site Anime News Network. “Das bandas britânicas, adoro Deep Purple e Led Zeppelin; das americanas, adoro Aerosmith; e foi por causa dessas influências que estreei com uma banda chamada Lazy, então canto profissionalmente há 40 anos. Com o JAM Project, acho que meu amor por esse tipo de música está na base das canções que crio para animes”.
Com o passar dos anos, a formação mudou, mas a essência continuou intacta: vozes potentes, letras épicas e guitarras que parecem empurrar robôs gigantes pra batalha. Atualmente, o grupo é formado por Kageyama, Masami Okui, Hiroshi Kitadani, Masaki Endoh, Yoshiki Fukuyama e Ricardo Cruz, o brasileiro que virou parte oficial dessa constelação.

Um brasileiro no time dos heróis
Se tem um nome que faz o coração dos fãs brasileiros bater mais rápido, é o de Ricardo Cruz. Aos 17 anos, fascinado pela cultura japonesa, Ricardo partiu para a Terra do Sol Nascente em um intercâmbio, com o objetivo de aprender japonês. Logo descobriria o quão grande é por lá o mercado fonográfico para canções de animes e tokusatsu.
Quando voltou, aproveitou a fluência em inglês e japonês e foi trabalhar como tradutor, como jornalista da revista Herói e até ajudou a plantar as sementes do primeiro Anime Friends, em 2003. Foi lá que conheceu ninguém menos do que Hironobu Kageyama. Não demoraria até que Cruz mandasse suas fitas-demo pra Kageyama, gravadas meio que em tom de brincadeira, os dois começassem a conversar e, ka-boom!, surgisse o convite para integrar a banda, ainda que de maneira semi-integral (já que o Ricardo agora aqui no Brasil).
Desde então, Ricardo tem participado de turnês, gravações e até letras, se tornando uma das vozes mais queridas do grupo. É também uma espécie de embaixador cultural: o cara que mostra pro Japão que o Brasil também tem uma legião de fãs apaixonados por anison.
“Toda vez que fecha pra fazer alguma abertura de série, música incidental, música de games, existe uma audição entre os cantores do grupo pra criarem a música. Na maioria das vezes eles me chamam, aí eu mando a minha versão do que eu acho que é a música ideal pro que eles tão querendo no momento”, explica Ricardo, em entrevista a este que vos fala.
Discografia de explosões e emoção
Em 25 anos de estrada, o JAM Project já lançou dezenas de singles e álbuns que viraram trilhas sonoras oficiais de animes e séries tokusatsu. Entre os maiores destaques estão:
– “GONG” – abertura de “Dai 3-ji Super Robot Taisen α Shuuen no Ginga”, provavelmente a música mais emblemática do grupo;
– “SKILL” – o hino absoluto das apresentações ao vivo, que até hoje encerra shows com um coro ensurdecedor (de “Dai 2-ji Super Robot Taisen α”);
– “THE HERO!!” – tema de abertura de “One Punch Man”, que apresentou o JAM a uma nova geração de fãs no mundo todo;
– “MAXON”, “VICTORY”, “Break Out” – uma coleção de canções que misturam power metal, pop japonês e pura adrenalina.
O JAM Project nunca teve medo de soar grandioso — e isso é o que faz deles uma das bandas mais únicas do planeta. Eles são a trilha sonora de heróis que sangram, mas não desistem.
Mais que uma banda, um movimento
Ao longo desses 25 anos, o JAM Project construiu algo que vai além da música: um culto à emoção pura, àquele sentimento de arrepiar a espinha quando o refrão explode e parece que o mundo vai acabar — mas você ainda tem tempo pra lutar.
Se o anime song é o hino da fantasia japonesa moderna, o JAM Project é seu coral celestial. Misturando teatralidade, técnica e carisma, o grupo redefiniu o que significa cantar para heróis.
“Nos filmes americanos, e até mesmo em filmes japoneses como Space Battleship Yamato, existem esses heróis que se sacrificam por algo importante”, opina Okui. “Eles fazem sacrifícios para salvar alguém. O objetivo deles não é se tornarem famosos ou algo do tipo, o que eles fazem pode até passar despercebido por alguém, mas ainda assim eles realizam um ato heroico sem reconhecimento, seja por alguém ou até mesmo pela Terra, por exemplo. Acredito que existam muitos heróis assim que não conhecemos ou sobre os quais não ouvimos falar, como alguém que tenta salvar o meio ambiente ou que luta ou defende alguém sem que ninguém saiba. Essa é a minha definição de um verdadeiro herói”.
E o legado continua
Hoje, com um quarto de século de estrada, o JAM Project segue ativo — gravando, se apresentando e inspirando uma nova geração de artistas a abraçar o exagero épico sem medo. E mesmo que o mundo mude, há algo de eterno nas vozes de Kageyama e companhia: aquele grito que diz “não acabou ainda!”.
Porque, pra quem cresceu ouvindo SKILL no fone de ouvido e sonhando em pilotar um mecha, o JAM Project não é só uma banda. É o som da esperança em alto volume.
“Somos um grupo de vocalistas um tanto peculiar, e achamos bastante raro conseguirmos nos manter juntos por tanto tempo”, diz Kageyama, ao site JRock News. Gostaríamos que todos no mundo soubessem que continuamos firmes e fortes, como nos anos anteriores”.