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Níquel Náusea: 40 anos do nosso Mickey Mouse BR

O rato mais ácido dos quadrinhos brasileiros completa quatro décadas de serviços prestados ao sarcasmo ganhando uma edição definitiva

Por THIAGO CARDIM

Quatro décadas depois de nascer nos esgotos da Folha de S.Paulo, o rato mais esperto (e sarcástico) dos quadrinhos nacionais finalmente vai ganhar o tratamento editorial que merece. E é também um ótimo pretexto pra lembrar o quanto Fernando Gonsales e seu universo continuam necessários – e geniais.

Há quem diga que o humor envelhece rápido. Níquel Náusea discorda: e faz isso com aquele sorrisinho torto de quem já viu o mundo acabar umas duzentas vezes, mas segue rindo da tragédia. Criado por Fernando Gonsales em 1985, o personagem completa 40 anos de vida com direito a um projeto ambicioso: a coleção da Z Edições, que promete reunir todas as tiras do rato e sua turma em volumes caprichados, financiados por meio de Catarse (link aqui).

Ou melhor, como diz a própria página do projeto… QUASE todas. Perfeccionista, Gonsales fez uma triagem das primeiras 1700 tiras que publicou na década de 80 para o primeiro volume da coleção, que vai trazer 400 tiras cuidadosamente selecionadas. O primeiro volume será em preto e branco e os seguintes terão tiras coloridas. A partir do segundo volume, as tiras serão publicadas integralmente, em ordem cronológica, retrocompatíveis com os livros publicados nos anos 90/00 pela editora Devir, respeitando tamanho e capa, para os fãs de longa data não precisarem comprar novamente o mesmo livro.

De qualquer maneira, uma empreitada à altura do legado. Afinal, Níquel Náusea não é só mais um roedor de laboratório: é um ícone do quadrinho brasileiro, um sobrevivente de um tempo em que tiras de jornal ainda ditavam o ritmo do humor impresso, e o nonsense era quase uma forma de resistência.

Um rato, um criador e um microscópio

Gonsales nasceu em São Paulo, em 1961, e sempre foi um apaixonado por animais. Quando tinha uns 12 anos, criava uma pulga em um vidrinho. Apaixonado por bichos desde muito cedo, na hora de alimentar o inseto, abria o frasco, encostava-o na própria barriga e deixava a pulguinha ali, chupando seu sangue. “Ué, de que outro jeito eu poderia dar comida para ela?”, explica ele, num papo com o jornal Folha de S.Paulo.

Anos mais tarde, se formou em veterinária pela USP e depois em biologia, curso que levou 17 anos para terminar – mas este combo, convenhamos, ajuda a explicar o olhar zoológico (e profundamente humano) que marca suas tiras. Quando era estudante, se limitava a ilustrar jornais do centro acadêmico. Mas começou a desenhar bem cedo, com o irmão, fazendo histórias em dupla e criando monstros. “Era uma grande brincadeira. Sempre gostei de desenhar, mas nunca imaginei que faria isso profissionalmente, nem imaginava que fosse viver dos meus desenhos”. 

O estalo veio em 1985, depois que resolveu abandonar a veterinária (chegou a trabalhar um ano na hidrelétrica de Tucuruí, no Pará), quando ele venceu um concurso promovido pela Folha de S.Paulo. Daí nasceu Níquel Náusea e, junto com ele, um elenco que inclui a barata Fliti, o pombo Falcon, o gato Sampson e uma fauna inteira de piadas existenciais.

O quadrinista explica que, como precisava de uma tira para participar do concurso, idealizou um animal urbano. “O que eu mais gosto nesse personagem é a sua independência. Ele é quase um invasor que as pessoas tentam destruir, mas não conseguem”, conta ele, em entrevista ao site Pedaço da Vila.

Só que, uma vez vencido o concurso, no qual entrou sem “botar muita fé”, precisaria se acostumar à rotina de entregar material inédito todos os dias – e ainda dividindo espaço com monstros sagrados como a trinca Glauco, Laerte e Angeli. “Minhas piadas eram muito fracas no início, quase desisti de tudo. Mas aprendi a não ficar muito severo, senão você perde a espontaneidade e aí já viu…”.

Ele explica que seu processo criativo passa por pensar e refletir sobre algum tema que tem a ver com o universo. “Para criar uma aranha, por exemplo, eu me concentro nela, penso nas suas atividades e crio uma história. Se não vier inspiração, eu desenvolvo outro tema. A biologia me ajudou muito nesse processo”.

Com traço limpo e diálogos que misturam filosofia barata, trocadilhos científicos e desespero urbano, Gonsales criou uma tira que parece simples, mas esconde uma das sátiras sociais mais afiadas do humor gráfico brasileiro. Níquel fala de ecologia, consumismo, solidão e até ética animal, mas sem nunca perder o timing da piada.

“É difícil dizer o porquê de ser tão duradouro, mas tem algum motivo para ele estar vivo até hoje”, confessa. “Talvez seja pelo de fato de as pessoas já estarem familiarizadas e terem criado um vínculo afetivo com o personagem. É como a um colunista que as pessoas se habituam, mas creio que para durar a criação precisa ser interessante”.

“Gosto de tratar o ser humano como animal”

As tiras de Níquel Náusea circularam por décadas em jornais de todo o país, além de ganharem revistas próprias nos anos 1990. E mesmo quando os espaços para o quadrinho nacional foram diminuindo, Gonsales seguiu firme, atualizando o personagem sem jamais domesticá-lo. “No começo era muito o universo do rato. Tanto a barata como o rato foram mudando de personalidade. Não quero que sejam entidades estáticas. Conforme eu fui amadurecendo, as características dos personagens mudaram também. Tudo o que eles fazem passa pelo meu filtro”.

Pra ele, no entanto, o personagem (que outrora era o protagonista onipresente, mas hoje dá espaço para outros bichos) sempre reflete a forma como você é. “No começo, ele era mais irado. Agora, é mais galhofeiro”.

Nesse período, o rato virou até matéria de estudos acadêmicos, usado em aulas de biologia e citado em trabalhos sobre humor e divulgação científica. É a prova de que, por trás da ironia roedora, sempre existiu um autor com olhar clínico sobre o mundo (literalmente clínico, no caso de um veterinário).

E agora, o triunfo do nosso Mickey Mouse

A coleção “Níquel Náusea – 40 Anos”, que está sendo viabilizada pelo Catarse e abre com o volume 1, a “A Origem do Espécime”, vai além da nostalgia: é uma oportunidade de revisitar um tipo de humor que, mesmo nascido em páginas de jornal, continua mais relevante do que muito post nas redes.

Num país onde o quadrinho de humor sempre teve de lutar por espaço entre super-heróis e tiras importadas, Níquel Náusea é prova de que o absurdo também é uma forma de resistência. E que rir do mundo (com o cinismo certo, inclusive adoro) ainda é uma das maneiras mais elegantes de sobreviver a ele.

Quarenta anos depois, o rato de Gonsales segue como começou: rindo da miséria, zombando da esperança, e nos lembrando de que até no esgoto pode brotar filosofia.

Se existe uma “fauna sagrada” dos quadrinhos brasileiros, Níquel Náusea é certamente um de seus deuses menores…desses que habitam o subsolo, mas ouvem tudo o que acontece lá em cima.

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