Três fragmentos de Brasil em forma de série
Uma milionária em coma com a herança em disputa, um histórico acidente radioativo e uma das mais celebradas (e controversas) bandas de rock dos anos 1990: isso tudo é Brasil pra caralho… pro bem e pro mal
Por THIAGO CARDIM
Se tem algo que é a real cara oficial do Brasil, para além do chão de caquinhos, do filtro de barro, da garrafa de plástico em forma de abacaxi, do cachorro caramelo e do cobogó (se você não sabe do que se trata, joga no Google), é de fato uma boa história pra contar. Aquela que surge na mesa da cozinha, quentinha, junto com um cafézinho passado na hora e um belo bolo de cenoura com cobertura de chocolate quente (um beijo pra quem pegou a referência diretamente da fazenda do Júlio e sua gaita).
Brasileiros são, antes de tudo, ótimos contadores de histórias – e o que mais são filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto do que duas grandes histórias sendo contadas nas telonas, por exemplo? Histórias de gente, gente como a gente, gente como eu e você. Portanto, é muito legal que, neste momento de cada vez mais séries sendo consumidas e maratonadas loucamente nos serviços de streaming, tenhamos não apenas uma bela variedade de produções nacionais, mas também produções nacionais dispostas a contar as NOSSAS histórias, ao invés de replicar o genérico papo tipicamente estadunidense que nos é apresentado a vida inteira como um grande mousse.
Nas últimas semanas, a gente viu três exemplares de séries que, de alguma forma, são o mais puro Brasil em seu estado bruto. Goste você do resultado final ou não.
Resolvemos falar aqui um tantinho sobre elas – e fica a seu critério dar o play ou não. Mas apesar de não conversarem entre elas, essa trinca, com seus respectivos recortes de tema e tempo, mostra um pouco de algo (ou “algos”, no plural) tipicamente brasileiro.

O Testamento: O Segredo de Anita Harley (Globoplay)
Assim, talvez você não saiba quem diabos é a Anita Harley. Mas, definitivamente, ela tem um nível de importância na sua vida, ainda que indireta, que você sequer pode imaginar.Estamos falando de uma empresária que é simplesmente herdeira das Casas Pernambucanas (gigante do varejo brasileiro) – e que está em coma desde 2016, portanto há exatamente uma década.
O que faz desta peculiar história – ainda desconhecida por muita gente – algo de ser digno de ser contado numa minissérie em cinco capítulos do Globoplay? Toda a novela que gira em torno dela.
Sim, sim, é de fato uma novela, por mais que seja uma série documental. Porque tem a namorada (uns confirmam, outros negam). Tem a assistente que também se diz namorada (também tem quem duvide). Tem o filho que se torna oficial. Tem uma filha não-oficial. Tem a irmã. Tem a amiga famosa. Tem o amigo gay. Tem as primas fofoqueiras. E tem, claro, os advogados de todos os lados – incluindo um com pinta de popstar e aspirante a influencer, que chegou até a assumir o papel de CEO da empresa durante um tempo.
Todo mundo disposto a tirar uma casquinha da pobre (?) senhora, seja pela fama, seja por um micro percentual de sua fortuna, poder e influência. Não dá, de fato, pra torcer por ninguém – e nem acho que essa seja a intenção da diretora Camila Appel, que inclusive aparece em tela quase como uma personagem narradora dentro da própria trama, nos dando inclusive um temperinho de como estes bastidores foram complexos de serem amarrados numa narrativa coerente. Mas todos os personagens, sem exceção, são saborosíssimos como um sanduíche de presunto da venda da esquina, exagerados e repletos de peculiaridades.
Quase a reunião de diferentes núcleos de um novelão do Aguinaldo Silva, portanto.
Pra quem se divertiu com Vale o Escrito, sobre os bastidores e os muitos envolvidos na disputa de territórios do jogo do bicho no Rio de Janeiro, isso aqui é um prato cheio.

Emergência Radioativa (Netflix)
Vamos, antes de qualquer coisa, tirar o elefante branco da sala: esta série ficcional do Netflix inspirada numa história real tá longe de ser qualquer coisa considerada “boa”. A produção em si (cenários, direção de arte) é meio chinfrim, as atuações são um tanto caricatas e pouco inspiradas, a trama carrega nas tintas emocionais pra um lado de dramalhão exageradíssimo…
Nem a presença de veteranos globais como Paulo Gorgulho, Tuca Andrada e Leandra Leal ajuda no resultado final.
Concordo. Mas, mesmo assim, não deixa de ser interessante acompanhar um pouco mais dos bastidores do incidente radioativo envolvendo o Césio-137 em Goiânia, nos anos de 1980, que até hoje deixa marcas na região e também, de alguma forma, no Brasil com um todo.
Porque, sim, é uma série de ficção, não um documentário, e, portanto, alguns personagens são apenas inspirados em pessoas reais enquanto outros são a junção de dois ou três indivíduos que de alguma forma estiveram envolvidos com a história real. Mas é uma trama que tenta recontar o acontecido sem descaracterizar ao máximo a espinha dorsal e cronológica dos acontecimentos, muitas vezes pouco lembrados ou desconhecidos pela população.
Como o desconhecimento levou um isótopo radioativo a “passear” pela cidade e se tornar inclusive item de orgulho dentro da casa de alguns cidadãos? De onde veio o césio e por qual razão ele foi “largado” dentro de uma área urbana densamente populada, com total despreparo da parte de alguns empresários sem escrúpulos? Como as autoridades tentaram manipular as informações de maneira a evitar o pânico? De que maneira as pessoas de áreas mais humildes reagem à perda do pouco que elas tinham? Como o medo irracional de algo desconhecido pode transformar as pessoas?
E, principalmente… o quanto o Brasil estava absolutamente despreparado, em todas as esferas públicas, para lidar com uma situação assim atípica?
No mínimo, no mínimo mesmo, é uma série para fazer refletir e buscar mais informações sobre vítimas até hoje esquecidas desta tragédia.

Andar na Pedra: A História do Raimundos (Globoplay)
Pô, aqui não tem segredo, bicho. Eu, que sou fanático pelos bastidores do mundo da música desde sempre, adoro documentários musicais – e este é uma pérola que ninguém tava esperando que pudesse acontecer tão cedo. Uma pérola que, aliás, é BOA. Pra cacete. Um documentário em cinco episódios que retrata não apenas a história de uma banda, mas também todo o cenário social que permitiu o surgimento e a explosão de popularidade desta banda em particular.
Era a mesma Brasília do Capital Inicial e da Legião Urbana, só que quase uma década depois. O pós-ditadura. A censura indo de vez pra casa do caralho. A vontade de falar qualquer bosta que viesse na cabeça. A irreverência caminhando de mãos dadas com o punk e com um tempero que só o brasileiro conseguiria
É um documentário que, apesar de uns e outros (cof cof) terem se achado injustiçados, não aponta dedos e não resolve rotular ninguém como mocinho ou bandido. Rodolfo, Digão, Fred e o finado/saudoso Canisso falam sem papas na língua, cada um dando a sua versão, fazendo elogios e críticas quando pertinente… e os quatro sem terem qualquer pano devidamente passado pelo próprio documentário (isso inclui, obviamente, as merdas que o atual único integrante remanescente andou falando nos últimos anos).
Aliás, confesso que muitas vezes, o papo é tão franco e aberto que, por vezes, sinto que estamos assistindo algo que não necessariamente deveria estar tão escancarado pra quem não faz parte do grupo.
Claro, há quem enxergue em Rodolfo um óbvio protagonista, mas era natural que a sua história, por se tratar da mais peculiar, ganhasse um tantinho mais de destaque. O cara saiu da banda no auge, deixando o rock de lado pra se dedicar à sua religião (e aqui, no caso, uma que tem sido responsável por muitas questões arrombadas nos últimos anos, importante frisar). E, ainda assim, ainda que eu não pudesse estar mais distante da imagem de Deus que ele carrega em seu coração, é impossível não emocionar em certo ponto com a história do sujeito… e sorrir cada vez que a gente percebe o quanto ele está, afinal de contas, feliz consigo mesmo.
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E aí, que outras séries sobre o Brasil você andou assistindo?
Deixa a dica aí nos comentários!