Piratas, cangaceiros… e bichinhos nada fofos
O segundo volume da ótima obra do brasileiro Al Stefano já está no forno, desta vez contando a história de Biu Marrento
Por THIAGO CARDIM
No clássico da nossa literatura Os Sertões, de Euclides da Cunha, o líder de Canudos, Antônio Conselheiro, diz uma frase que se tornou parte da nossa cultura popular: “O Sertão vai virar mar”. Pois no universo distópico de Piratas do Cangaço, quadrinho nacional de Al Stefano que chega à sua segunda edição pelo selo de HQs independentes Zapata Edições, o sertão REALMENTE virou mar. E os cangaceiros se tornaram piratas.
O gibi está na reta final de apoio via financiamento coletivo lá no Catarse – então você já sabe bem que pode apoiar AQUI.
O primeiro volume da série ambientada em um universo alternativo foi lançado em 2022, com inspiração direta de OUTRA obra do mesmo autor: Salseirada, HQ cuja trama mostra como o rabequeiro Salú encontrou a “rabeca do tempo”, instrumento mágico que controla o clima, e percorre o sertão nordestino levando música e chuva para aliviar o sofrimento de pequenos lavradores assolados pela seca e pela fome.
“Depois que eu lancei Salseirada, continuei na vontade de retratar histórias sobre o Nordeste brasileiro”, conta o veterano quadrinista, atuando há 30 anos para as principais editoras e agências de publicidade do país, em entrevista exclusiva pro Gibizilla. “O cangaço sempre me fascinou e pensei em desenvolver um grupo de cangaceiros para protagonizar essas histórias. Porém, não queria histórias sanguinárias e sim usar essa temática para explorar o aspecto cultural de toda a região. A ideia de transformar o sertão em mar foi para sair do cenário convencional e tornar mais ficcional e dar liberdade para enredos soltos e com pique de aventura”.
Este segundo volume traz a história de Biu Marrento, um pirata cangaceiro peculiar (pra dizer o mínimo, hahahaha), que está em busca de um tesouro e vingança contra o assassino de sua família.

Mas tem um porém nesta conversa…
…e sim, você deve ter percebido ao olhar as imagens que ilustram este texto: estamos falando de uma trama com personagens antropomórficos. Ou seja, são animais com características humanoides, tal qual um Mickey Mouse ou Pernalonga. “Inicialmente seriam humanos e cheguei até a desenvolver concepts dos personagens dessa forma”, conta o autor. “Mas não queria que ficasse similar ao Salseirada e sempre achei divertido a antropomorfização de personagens. Foi uma forma de incluir a fauna da caatinga para enriquecer esse universo distópico”.
Ele conta que, para escrever Salseirada, mergulhou em bastante pesquisa e muitos ganchos foram aparecendo para desenvolver este universo. “Além de coletar várias histórias dos familiares de minha esposa (que é nordestina) e que tinham parentes que foram cangaceiros”, explica. No fim, ele acabou ampliando a biblioteca e foi adquirindo livros sobre o cangaço justamente para montar os perfis dos personagens.
Agora… e esta conexão entre as figuras do cangaceiro e do pirata? “Bom, claramente estamos falando de dois movimentos fora-da-lei. O desafio, a independência e seus códigos de éticas e condutas muito peculiares conseguem se entrelaçar bem”, opina. Ele recorda que ambos foram (e são) reais e mesmo assim permeiam o imaginário popular. “O público simpatiza com o lado folclórico tanto dos piratas quanto dos cangaceiros, por isso achei um ‘casamento’ perfeito”
Os próximos passos deste universo
Al conta que esta é uma ambientação em constante desenvolvimento. “Sempre surgem personagens novos nas minhas anotações”, revela. Neste volume 2, ele nos apresenta o Biu Marrento, um capitão solitário representado por um mão-pelada (uma espécie de guaxinim da caatinga) que convoca o capitão Vela-Seca (o bode) para tomar o ouro de um “coroné” nas ilhas do Cajueiro.
Mas o fato é que esta continuação veio praticamente três anos depois do primeiro. Dá pra cravar, portanto, que vem um volume 3 em algum momento e, mais do que isso, QUANDO ele chega? “Realmente o volume dois demorou muito além do que gostaria, mas os compromissos com outros projetos me obrigaram a protelar”, confessa o autor.
Ele diz que a ideia, desde sempre, é lançar um volume por ano. “Para 2026, quero começar a desenvolver o volume 3 bem mais cedo. Mas tenha certeza, que o dia em que Piratas do Cangaço for o principal responsável por pagar minhas contas, ele será prioridade nos meus cronogramas”, diverte-se ele, mas obviamente falando sério.
Pois simbora ajudar estes piratas cangaceiros apoiando AQUI – e, se você vem do futuro e não chegou a tempo, fica de olho no site da Zapata Edições pra adquirir a sua cópia assim que sair. 😉
