Jornalismo de cultura pop com um jeitinho brasileiro.

The Mighty Nein é sessão de RPG pra grupo mais maduro

Nova produção inspirada nas obras RPGísticas da turma do Critical Role difere de Vox Machina por se focar na magia e abordar um lado mais sombrio e até mais triste de seus personagens

Por THIAGO CARDIM

Quando você, que é um jogador de RPG das antigas, alguém já acostumado à dinâmica de jogos de tabuleiro de um Dungeons & Dragons da vida, tem a chance de ver a série A Lenda de Vox Machina, saca de imediato que aquilo é o mais puro suco do role-playing game transformado em animação. A turma do Critical Role foi mais do que certeira ao transformar aquelas muitas horas de aventura em uma narrativa que fizesse sentido para o público final mas que, nas entrelinhas, conversasse com qualquer grupo de RPG do mundo, que veria ali as pequenas idiossincrasias de suas próprias sessões de jogo acontecendo.

São os personagens clássicos, daquele tipo que se encontra numa taverna da vida e acabam sendo reunidos meio que à força num grupo disfuncional para uma série de missões de resultado inesperado. Tem a ranger, a clériga, o ladino, o bardo, a druida, o bárbaro… Tem aventuras de tons épicos, tem violência e sanguinolência pra dar e vender… E tem muito, mas muito humor tipicamente quinta série, com piadocas infames e uma cacetada de insinuações sexuais entregues especialmente pelo favorito dos fãs, o lascivo gnomo Scanlan. <3

Mas aí o Critical Role resolveu TAMBÉM adaptar a sua outra campanha, The Mighty Nein, ambientada no mesmo universo dos caras, de Exandria, cerca de 20 anos depois dos eventos de Vox Machina – e o que não faltou foi gente dizendo que o que viria a seguir seria puramente uma cópia do que já foi apresentado antes. Pois ledo engano. The Mighty Nein tem a delicadeza de construir personagens que não apenas são completamente diferentes de seus “irmãos”, mas também trazem um tipo de profundidade absolutamente inesperada.

The Mighty Nein tem ares de uma nova campanha de RPG que um grupo que joga junto há muito tempo resolve arriscar jogar, agora apostando numa história mais madura, mais pessoal, em alguns momentos até mais introspectiva, cuja trajetória pessoal de cada personagem lhes força um tipo de interpretação com um toque ainda maior de tristeza e tragédia.

Mais drama, episódios mais longos… e MUITO mais magia

Sim, sim, é claro que The Mighty Nein tem humor. Impossível não sorrir com as inúmeras tentativas da tiefling Jester Lavorre em se conectar com uma entidade obscura de nome Viajante – ou mesmo com a goblin Nott the Brave (uma das melhores personagens da série) e suas muitas artimanhas para roubar a próxima garrafa de bebida. Mas quando descobrimos, por exemplo, alguns dos motivos que envolvem o seu alcoolismo, como isso afeta seus sentimentos ou a sua relação com os botões se aprofunda, os sorrisos se tornam de fato amargos.

A série, com episódios que têm o dobro de duração dos de Vox Machina, é muito mais um drama do que qualquer outra coisa. É uma história basicamente focada na magia. Em meio a um conflito por um importante artefato entre o Império Dwendalian, dominado por arquimagos, e a Dinastia Kryn, que abriga criaturas consideradas monstruosas como os drow (os elfos de pele escura), os aspectos mágicos vão sendo apresentados.

A magia sendo – belamente, leia-se – usada como instrumento de combate. A magia sendo buscada como uma forma de poder – poder crescer, poder mudar de vida, poder dominar quem está ao seu redor, poder enganar a morte. Magia como amor, magia como flerte, magia como ambição, magia como corrupção. E é nestes diversos olhares sobre a magia, inclusive de quem tem medo dela, que reside o grande colorido de The Mighty Nein.

“É uma perspectiva completamente diferente do mundo. É a diferença entre assistir a uma história sobre heróis do reino que estão acima da política e de todas as maquinações do mundo, e agora estamos no nível mais baixo da sociedade, com pessoas que são realmente influenciadas e afetadas pelo mundo, mas que não têm nenhum controle sobre ele”, explica Taliesin Jaffe, que interpreta o tiefling blood hunter Mollymauk Tealeaf, a respeito das diferenças entre Vox Machina e Nein, em entrevista ao site Mama’s Geek.

Já Marisha Ray, que vive a monge humana Beauregard “Beau” Lionett, tem uma descrição ainda melhor: “Se Vox Machina foi O Hobbit, então isto é O Senhor dos Anéis“. E Sam Riegel, que dá voz à Nott, completa: “Se Vox Machina é um grupo de aspirantes a heróis, acho que Mighty Nein são só aspirantes a serem um grupo. Eles só querem ficar juntos e evitar a morte”.

A showrunner Tasha Huo, em um papo com o The Nerdist, chama a história de “montanha-russa”, o que faz um sentido brutal para o espectador. “Então, vocês vão vivenciar momentos realmente profundos, sombrios e tristes enquanto conhecemos esses personagens e seus traumas. Mas, ao mesmo tempo, eles são hilários juntos. E esse é o tema central da série: comunidade, amizade, união e encontrar pessoas em quem você realmente pode confiar te tiram dessa escuridão. Estamos cientes desse tema, e a jornada que vocês farão refletirá essa ideia”.

E isso acontece DE VERDADE.

O grupo vai sendo apresentado aos poucos, se formando devagar, ainda com desconfiança, com sutilezas (tanto é que a bárbara aasimar Yasha só se junta a eles no ÚLTIMO episódio da temporada inicial). Os motivos deles estarem conectados, enquanto os laços de amizade vão se formando, não parecem muito claros a princípio, ainda mais porque cada um tem seu objetivo, suas ambições, seus anseios e receios. Tudo tem mais nuances e muito mais tons de cinza, inclusive moralmente falando – e um personagem que você adora pode se tornar alguém que você ODEIA no episódio seguinte.

Vejamos o mago Caleb Widogast: ele parece apenas um mendigo malcheiroso, um coadjuvante meio sem graça em sua relação com Nott. Mas quando descobrimos suas habilidades e sua conexão com os Dwendalian, tudo muda. Quando se descortina o fato de que ele fazia parte de um trisal com outros dois colegas, você pensa “epa, peraí que aqui tem mais coisa do que eu imaginava”.

E no episódio em que a sua história é contada do início ao fim, muito mais do que apenas as saudades de um gato, além dele ser alavancado ao posto de protagonista, temos um dos episódios mais dramáticos, dolorosos e poderosos do ano… e este foi um ano em que tivemos Pluribus, hein?

A escolha final de Caleb. As cicatrizes que ela deixou em sua vida. Ali, enfim, The Mighty Nein nos arrepia e mostra de fato COMO pretende contar uma história bem diferente de Vox Machina. E uma história que vale demais ser assistida, goste você ou não da série original ou não, conheça você o Critical Role ou não. Tanto faz.

É tanto ABSOLUTE RPG quanto ABSOLUTE CINEMA.

Só vai.

Os oito episódios da primeira temporada de The Mighty Nein já estão disponíveis no Prime Video.