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Pluribus: porque nem tudo precisa ser sempre O MELHOR

A gente embarcou na onda da série queridinha da vez. A gente foi lá e maratonou. Mas não, a gente não elegeu como sendo uma das melhores do ano. Paciência. Faz parte.

Por THIAGO CARDIM

O ano era 2014. E eis que a atriz e diretora Olivia Wilde me solta esta, no Twitter: “Nunca vi Breaking Bad (pausa para o susto coletivo). Me sinto como se todos tivessem ido para Woodstock e eu tivesse ficado trancada na droga do carro”. E na época, sim, eu era como ela e também não tinha tido a chance de ver nada de Breaking Bad, para indignação de todos meus amiguinhos. Aí, pois, graças a um evento que fizemos pro JUDÃO, a série completa caiu na minha mão e eu maratonei tudo que pude (portanto, NÃO, não vi a série inteira), parindo este texto aqui.

Agora, vamos lá… pra ser honesto, se não fosse o fato de que a distribuidora nos convidou para apresentar este evento com exclusividade no Brasil, tendo a crer que eu teria demorado um pouco mais pra entrar no trem do hype de Breaking Bad. Dependendo do que me chegasse antes, talvez até nem tivesse embarcado. Porque, como eu já disse aqui neste desabafo, continuo achando que a pressão pra consumir cultura pop só porque as pessoas ACHAM que você deveria transforma o que deveria ser um prazer num inferno.

Vi Lost com algum atraso, quando a parada já era assunto de tudo que era mesa de boteco dos meus amigos do mundinho nerd, pré redes sociais… e AMEI, maratonei, virou série da vida.

Fui ver algo de Game of Thrones bem depois, quando a parada já era assunto de tudo que era mesa de boteco dos meus amigos do mundinho nerd, incluindo nas redes sociais… e ACHEI CHATO PRA CARALHO, nunca cheguei a terminar, abandonei.

Faz parte do jogo, minha gente.

Porque, no fim do dia, sempre achei que o hype exagerado que virou padrão neste novo mundo do streaming acaba criando TAMBÉM uma pressão não apenas para que você assista, mas para que você GOSTE. Se tá todo mundo pirado com o filme/série/gibi/disco do momento, você também PRECISA pirar. É impossível não gostar de Stranger Things, La Casa de Papel, Round 6. É mais do que gostar. É virar fanático. É embarcar no trem OBRIGATÓRIO do hype.

E pra mim, pelo menos, pô, não é assim não. Eu vejo no meu tempo, quando e SE estiver com vontade… e se gostar, gostei. Mas se não gostar, não importa se eu for a exceção da grande regra, tá tudo bem. Até porque também não me importo de gostar de algo que basicamente só eu do meu círculo curto (oi, Legends of Tomorrow). E por vezes, eu posso gostar… mas não me tornar total, completa e absolutamente apaixonado pela coisa. Veio, dei play, foi e seguimos a vida.

Feita esta introdução, que vai te ajudar a entender o meu ponto, simbora falar de Pluribus, do mesmo criador de Breaking Bad, a série que está despontando na ponta das listas de “melhores do ano”, que no fim acabamos maratonando tem alguns dias… e que, não, não vai entrar na nossa listinha de melhores do ano.

Inteligência coletiva ou artificial?

Antes de qualquer coisa, vamos lá, é preciso dizer que o conceito por trás da nova criação de Vince Gilligan é incrível: uma mensagem enviada por uma raça alienígena que acaba sendo decodificada na Terra como um código de DNA e então é replicada aqui. Nasce um vírus. Que acaba infectando as pessoas mais rápido do que se imaginava. E eis que praticamente toda a população da Terra acaba se tornando uma única inteligência coletiva. À exceção de alguns poucos (mas poucos MESMO) seres humanos que, por alguma razão desconhecida, parecem ser imunes à infecção. E mantém sua consciência e livre arbítrio numa situação completamente surreal.

A ideia é, de fato, brilhante. E emula, por exemplo, o momento em que vivemos com as inteligências artificiais, que carregam consigo todas as respostas do mundo para que sejam devidamente cruzadas e entrelaçadas, mas, em seu viés de confirmação, estão dispostas a apenas e tão somente nos agradar, a nos dar as respostas que ESPERAMOS ouvir.

E também é uma reflexão importante sobre como lidamos com a felicidade asséptica das redes sociais, em que todos parecem sorrir em suas existências perfeitas, menos nós, com nossos problemas, frustrações, dívidas. A excelente Rhea Seehorn, que encarna brilhantemente a protagonista Carol Sturka, vai entrando numa espiral de sentimentos depois de perder a esposa. Ela tem vontade de chorar, de gritar, de gargalhar, de discutir, de questionar. E tem inclusive que encarar a culpa por não se sentir feliz em um mundo que não tem mais lutas, crimes, guerras, violência. Não tem mais propriedade privada. Não tem mais dinheiro. Não tem mais capitalismo. Só existe uma forma unificada de pensamento.

O quanto isso é bom ou ruim? Fica a discussão.

(Já vi diferentes análises de diferentes espectros políticos – um lado detonando o capitalismo e outro justamente dizendo “olha aí, é esse o socialismo totalitário que vocês querem?”)

Pluribus é uma ótima série, no frigir dos ovos. Desdobramentos espertos do conceito principal, um bom equilíbrio entre humor e drama, um elenco afiado… Só não é, pra mim, BRILHANTE. Aquele tipo de produção que explode a sua mente, que te vira do avesso, que muda a sua vida. E isso não deveria ser um problema. Porque nem tudo precisa ser assim. Nem toda série precisa ser A MELHOR DE TODAS sempre.

Aliás, pode ser pra VOCÊ e não pra mim. E não significa que eu não entendi a série, é bom que se diga, e que você faz parte de uma pequena leva de iluminados que tiveram a visão verdadeira sobre Pluribus. Diferente do que aconteceu com muita gente, eu não fui ATROPELADO a cada episódio por uma surpresa que me deixou babando de curiosidade pelo próximo. Não. Pra mim, Pluribus foi bem constante, consistente, coerente. Mas só. Boa, né? Não é legal?

E já tá bom. Não entra na minha lista de melhores, no meu top 10. Mas é um tipo de atração que, de qualquer forma, eu indicaria pra qualquer um.

A gente precisa REALMENTE ressignificar esta nossa relação com o hype da cultura pop em que tudo é emergencial e tudo é ÉPICO. Porque quando tudo vira épico, acaba que nada é mesmo. ¯\_(ツ)_/¯

Todos os 9 episódios da temporada inicial de Pluribus estão disponíveis na Apple TV.

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