Rama Duwaji: a arte como arma da primeira-dama de NY
Ela é ilustradora, animadora, cartunista… e também esposa do novo prefeito da Grande Maçã. Mas é a arte que explica melhor quem ela é.
Por GABRIELA FRANCO
Quando a cultura pop encontra política real de transformação, o resultado é obra, é resistência e é representação. A primeira-dama de Nova York, Rama Duwaji, não veio só para fotos protocolares: ela chegou com traço, recorte e uma visão que mistura humor, crítica social e humanidade.
Se você ouve falar de Nova York e pensa apenas em arranha-céus e Wall Street, é hora de ampliar a lente. Rama Duwaji, esposa do ex-deputado estadual e atual prefeito de Nova York, Zohran Mamdani — nome de destaque da nova esquerda progressista norte-americana — é uma animadora, ilustradora e cartunista cuja obra dialoga diretamente com as tensões e esperanças da vida contemporânea. E, claro, com sua trajetória multifacetada como artista e figura pública.
Mas quem é Rama Duwaji?

Rama Duwaji nasceu e cresceu em um ambiente que misturava culturas e olhares: sua formação atravessa experiências diversas e revela cedo uma inclinação para a arte visual. Em suas próprias palavras, sempre foi desenhar mais do que apenas um hobby — era um modo de compreender o mundo e interagir com ele.
Filha de pais muçulmanos sírios da cidade de Damasco, Rama nasceu na cidade de Houston, no Texas, em junho de 1997. Quando tinha nove anos de idade, sua família se mudou pra Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e então ela passou o restante de sua infância morando em diversos países da região do Golfo Pérsico – mas, ao descobri que aqueles muitos rabiscos nos cadernos poderiam significar uma inclinação pela arte, foi cursar artes da comunicação na Escola de Artes da Virginia Commonwealth University. Primeiro no campus satélite da escola em Doha, no Catar, e depois retornando aos EUA, no campus principal da universidade em Richmond, na Virgínia.
Dali, participou de diversas residências artísticas em Beirute (Líbano) e Paris (França), até se mudar de vez pra Nova York, pra estudar ilustração como ensaio visual na Escola de Artes Visuais, onde obteve seu mestrado. E foi na Grande Maçã, mas por meio do aplicativo de namoros Hinge (aquele que promete relacionamentos duradouros), que ela conheceu um político bonitão que era filho de ninguém menos do que a cineasta Mira Nair.
Começaram a namorar, ficaram noivos e se casaram, com cerimônias tanto em NY quanto em Uganda (país natal de Mamdani). Ela ajudou a finalizar a identidade visual da campanha do marido e trabalhou na versão final da iconografia e da fonte, que apresenta uma mistura distinta de cores facilmente identificáveis pelos nova-iorquinos: amarelo-alaranjado do metrô, azul do New York Mets para sombras e fundos, e toques de vermelho dos bombeiros.
Uma vez eleito, ele tornou a esposa não apenas a primeira-dama inaugural da geração Z mas também a primeira muçulmana a assumir o cargo. E o resto é história ainda a ser escrita.
“Rama não é apenas minha esposa, ela é uma artista incrível que merece ser reconhecida por seus próprios méritos”, escreveu o prefeito em suas próprias redes sociais.
A trajetória artística de Rama

O desenho para Rama não foi um acidente: veio como afirmação pessoal e ferramenta de análise crítica. Desde cedo, explorou narrativas visuais que misturam humor, sátira e observações sobre corpo, raça, gênero e poder. Seus primeiros passos profissionais já demonstravam essa fusão entre estética e perspectiva social. Com o tempo, ela começou a expandir seu repertório — colaborando com publicações, participando de projetos coletivos e experimentando formatos que iam da tira ao curta-metragem de animação.
Ao longo dos anos, Rama foi desenvolvendo um corpo de trabalho rico em significado político e emocional, transitando entre a ilustração editorial, quadrinhos independentes, animação e colaborações que exploram a condição humana em sua complexidade. Seus trabalhos frequentemente falam sobre justiça social e, em algum momento, retratam a cultura árabe – quer seja expondo cenas da vida cotidiana nesses países, quer seja discutindo e lutando pelos direitos das mulheres. Como era de se esperar, desde 2023 também aborda de alguma forma o genocídio em Gaza.
Os trabalhos da cartunista foram publicados em jornais americanos como The New York Times e no The Washington Post, bem como em veículos britânicos como a BBC ou sites mais jovens e alternativos como a VICE, além de ter suas ilustrações expostas no museu Tate Modern e utilizadas em parceria com marcas como Spotify e a Apple.
Hoje, sua arte circula não só em galerias e publicações, mas também em espaços políticos e culturais, justamente porque sua visão não separa o pessoal do político: tudo é terreno fértil para criação. “Com tantas pessoas sendo marginalizadas e silenciadas pelo medo, tudo o que posso fazer é usar minha voz para falar sobre o que está acontecendo nos EUA, na Palestina e na Síria o máximo que puder”, afirmou ela, publicamente, em mais de uma ocasião diferente.
Uma curiosidade: embora trabalhe principalmente com mídias digitais, Rama frequentemente faz uma pausa em tudo relacionado à tecnologia para criar cerâmica artesanal. Ela combina sua paixão por ilustração e cerâmica para criar pratos ilustrados feitos à mão e também gosta de compartilhar essas habilidades em oficinas de cerâmica.
Temas recorrentes nas obras da artista
A obra de Rama Duwaji se destaca por alguns pilares criativos e temáticos:
Corpo, identidade e existência
Muito do que ela desenha parte de um olhar atento ao corpo humano — suas formas, imperfeições, desejos, solidões e contradições. O corpo vira território político, emocional e simbólico.
Humor crítico e ironia consciente
Seja numa tira ou numa animação, há sempre uma pitada de humor — aquele que não é apenas engraçado, mas que questiona, provoca e subverte.
Política narrativa e crítica social
Muitos trabalhos dialogam com tensões contemporâneas: injustiça social, desigualdade, experiência migratória, raça, gênero e as complexas relações de poder que atravessam nossas vidas.
Memória e cotidiano
Apesar da força crítica, a obra de Rama também sabe ser gentil, introspectiva e íntima, explorando nuances do cotidiano sem perder profundidade.
Esses temas refletem não apenas um repertório estético, mas também um compromisso com o desenhar como forma de pensamento e ação — algo que a distingue no universo visual contemporâneo.

Pois então…
Além de sugerir que vocês sigam a artista no Instagram, a gente indica dois ótimos trabalhos em animação que ela fez pra BBC. No curta “Virginity Test“, produzido pro projeto BBC 100 Women, ela conta a história de Esra, ex-prisioneira política no Egito que teve experiência com “testes de virgindade” forçados durante o tempo em que esteve na prisão.
Já no documentário “Who killed my grandfather?“, sua animação vira protagonista da história do assassinato não resolvido do ex-ministro das Relações Exteriores do Iêmen, em 1974. Sua neta embarca em uma missão para investigar quem poderia estar por trás desta morte, quase 50 anos atrás.