Silas Chosen e os seus top filmes de 2025
Ele está de volta, com a sua listona só de filés que se tornou tradição aqui no Gibizilla e também virou um dos textos mais aguardados do ano no site
Por SILAS CHOSEN (é óbvio!)
Chegou mais um dezembro, e vamos mergulhar novamente no que a sétima arte lançou nos últimos doze meses.
E este foi um ano PODEROSO. Talvez inspirados por uma vitória brasileira no Oscar, os espíritos do Cinema nos assombraram com tantas pedradas que talvez este seja o melhor ano da década até agora!
Vou comentar alguns itens especiais antes de entrar no TOP 15 FILMES de fato, então aperte os cintos, vem comigo, um Feliz Natal e um Ótimo Ano Novo.
(Lembrando sempre, todas as imagens são agressiva e meramente ilustrativas).
(Nota do Editor: na verdade, as imagens têm TUDO a ver com os filmes, basta você prestar atenção, rs)
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FILMES QUE EU NÃO ASSISTI AINDA MAS QUE A BOCA PEQUENA TÁ ENCHENDO A BOCA PRA FALAR
I’M SORRY BABY – VALOR SENTIMENTAL – PREDADOR BADLANDS – O ÚLTIMO AZUL – FOI APENAS UM ACIDENTE – HAMNET – NOUVELLE VAGUE
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MENÇÕES HONROSAS
O BRASIL GANHOU UM OSCAR
Preciso comentar aquele que foi o melhor filme de 2024 trazendo o primeiro Oscar oficial para o Brasil?
Naturalmente, aquele seu amigo que tem uma tatuagem do Béla Tarr na nádega esquerda vai dizer que o Oscar não importa. Deve ser uma pessoa que vive de fotossíntese em seu apartamento chão-de-taco e não tem amigos.
O Oscar importa, importa muito (infelizmente), e esse é o jogo que todos jogamos quando engajamos com o cinema mundial, que é arte e indústria na mesma proporção que chuva é água e molhada. E nesse modelo, o nosso país emplacou um filme sobre memória e aqueles que querem apagá-la (mais sobre isso abaixo). A nossa memória, da nossa gente brasileira. AINDA ESTOU AQUI de Walter Salles, assim como Rubens Paiva, jamais serão esquecidos.
Fernanda Torres rainha, Fernanda Montenegro deusa.

O CINEMA DE TERROR NO BRASIL CONTINUA FORTE
O curioso é que eu fiz o que as crianças bacanas chamam de double feature com ENTERRE SEUS MORTOS de Marco Dutra e A PRÓPRIA CARNE de Ian SBF. Não poderiam ser filmes mais distintos, tanto na proposta, no escopo e nos objetivos (e… no resultado final?).
Mesmo sendo filmes pequenos, são mais duas entradas no já celebrado cânone de Terror Brasileiro. Enterre Seus Mortos com uma proposta Lynchiana, quase refilmando partes de POSSESSÃO (Andrzej Żuławski, 1981), e A Própria Carne admitindo seu DNA de filme B com orgulho e molecagem.
Mesmo que A Própria Carne tenha problemas na aterrissagem (poderia ter sido feito por fãs de John Carpenter, mas, infelizmente, foi feito por fãs de Quentin Tarantino), o “filme do Jovem Nerd” é sim diversão e tensão garantida, do jeitinho que nosso pai Mojica ensinou.
Brasil é só orgulho!

EU FUI VER CLÁSSICOS ABSOLUTOS NA TELA GRANDE
Só pra dizer mesmo que tive a oportunidade de assistir a uma projeção cristalina, linda, da versão da Criterion de OS SETE SAMURAIS (Akira Kurosawa, 1954) e, num outro dia, a uma de ENCOURAÇADO POTEMKIN (Sergei Eisenstein, 1925), ambas no escurinho do cinema, em tela grande.
Um abraço pro meu amigo Elias, que me acompanhou nas duas aventuras.
Cinema é bom demais, meus compadres.

AQUELA CENA EM QUARTETO FANTÁSTICO
É, o filme do Quarteto se perdeu na mesma fórmula que acabou com quase todos os últimos filmes de super heróis. Os atores são muito bons, a trama é muito ruim, a diversão, o ritmo e o Cinema se perdem no que percebemos ser, tarde demais, uma peça de propaganda para o próximo filme. Conseguiram fazer desaparecer os gloriosos benefícios de uma das melhores decisões de casting dos últimos anos, chamar o Ralph Ineson para interpretar Galactus, o devorador de mundos.
Só que ali no meio do filme tem a sequência em que o Cabeça de Balde é apresentado. E todo fã de quadrinhos, todo fã de Jack Kirby, estremeceu naquele instante. A sequência, do segundo em que os heróis entram na nave gulosa até a cena de perseguição e o nascimento de Franklin Richards, não tem falhas.
O filme vai trabalhar com vigor para arruinar todo o medo cósmico que sentimos de Galactus neste momento, mas enquanto ele não acaba, o Quarteto Fantástico se tornou a coisa mais fabulosa que a Marvel botou no cinema.

AQUELA CENA EM PECADORES
É surrealismo, subjetivismo, espiritualidade, poesia, música, cinema, Cinema, história, política, sociedade, bruxaria, amor e dor.
Se você viu Pecadores, você sabe do que eu estou falando.
O Ryan Coogler já pode ser chamado de feiticeiro.

AQUELA CENA EM O AGENTE SECRETO
Eu estou lendo aqui nas minhas anotações, e acho que eu escrevi alguma coisa errada.
“No meio de uma orgia a céu aberto, uma perna zumbi começa a espalhar terror, não perdoando ninguém com chutes assassinos e pontapés mortais.”.
Mas isso não faz sentido nenhum. Que raio de filme é esse?

SE FOR PRA ADAPTAR VIDEO GAMES DESSE JEITO, DEIXA ELES LÁ
Dois filmes muito ruins de 2025 me convenceram que, talvez, desejar a união entre minha paixão por games e meu amor por cinema seja uma má ideia.
UNTIL DAWN – NOITE DE TERROR é só um filme ruim. Tem uma ideia espirituosa de fazer o que poucas adaptações de games tentaram: focar numa mecânica de jogo, no que faz do video game um game, ao invés de adaptar uma história que muitas vezes está lá só pra preencher espaço. E eu até acho que os criativos envolvidos merecem um cafézinho iniciativa. Poderiam ter escolhido uma mecânica que de fato existe no jogo em que estão adaptando? Poderiam, mas uma coisa de cada vez.
Mas UM FILME MINECRAfT é uma peça de marketing profundamente cínica e sem carisma. Será lembrado na eternidade como “o filme que mostrou que até o Jack Black tem limites”. “Mas é filme pra criança”, diz o incauto.
TOY STORY 3 É UM FILME PRA CRIANÇA. E.T. O EXTRATERRESTRE É FILME PRA CRIANÇA. GIGANTE DE FERRO É FILME PRA CRIANÇA.
O próximo que tentar perdoar filme tosco com a ideia de que “criança é burra e é isso aí” vai ser obrigado a assistir 72 horas de um filme aí sobre Cavalos Escuros em loop.
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AGORA, DE FATO, OS 15 MELHORES FILMES DE 2025
15 – EDDINGTON

Olha o Ari Aster aí, fazendo das suas.
EDDINGTON é um exercício interessante e muito bem montado de “caos progressivo”. O filme mais “abertamente político” de Aster joga fora as premissas de horror dos dois sucessos que abriram sua carreira, e também joga fora o que quer que BEAU TEM MEDO tenha sido. Mas mantém a atmosfera de amargura, uma coceira que vai incomodando mais e mais até que se transforma num incêndio florestal.
Não é exatamente um “gol de placa”, porque o diretor não consegue escolher sobre o que quer falar – logo, fala sobre tudo. E existe uma diferença grande entre “caos” e “confusão” quando estamos na sala de cinema.
Mas a ironia funciona de maneira inspirada. Joaquin Phoenix desconstrói o xerife herói conservador estadunidense abrindo o coração, e mostrando que sempre foi vazio lá dentro.
Ari Aster primeiro atacou a família, e agora atacou a nação. Qual será o próximo alvo?
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14 – GUERREIRAS DO K-POP

O FILME FENÔMENO do ano, GUERREIRAS DO K-POP pode ser somente uma desculpa para tornar a pandemia da música sul-coreana global e vitoriosa sobre a humanidade. Mas se eles venceram, venceram com uma animação charmosa, com muito mais personalidade do que Certas Figurinhas Carimbadas do Mercado (RIPixar), levando a revolução iniciada por Miles Morales e seu Aranhaverso para lugares e públicos novos.
E fazer isso com música pop irresistível e coreografia é o toque de mestre. Re-lançar o filme nos cinemas com sing along é quase maldade.
Dá pra perceber o exato momento em que os roteiristas desistiram do filme? Dá. Isso piora o filme? Olha… Piora sim. Sem uma certa “virada que não é virada” no final, este poderia ser um clássico imenso. Mas não apaga, de modo algum, as outras conquistas do filme.
As Guerreiras vieram e guerrearam. Invadiram. Nós perdemos. No bom sentido.
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13 – CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ

Alguém ousou dar para o Liam Neeson… Alguma coisa pra fazer.
Com a mesma verve que levou o mundo a conhecer o gênio cômico que foi Leslie Nielsen – escalar para comédia um ator seríssimo, e mantê-lo seríssimo durante o filme – para o papel do filho do personagem de Nielsen, chamam a coisa mais séria que a Irlanda produziu depois do dia de São Patrício.
Neeson está incontestável na pele de Frank Drebin Jr, um policial durão, sem medo de quebrar algumas leis na busca pela justiça, mesmo que sejam leis da física. O ator parece estar tão à vontade e se divertindo tanto que podemos ler esse filme como uma redenção depois de anos em filmes de ação de pedigree negativo. Une-se a ele a sensação adolescente dos anos 90, Pamela Anderson, em sintonia máxima com o material.
Akiva Schaffer dirige o filme com a mesma energia nonsense dos clássicos estrelados por Nielsen e liderados pelos irmãos Zucker. Mas o ritmo é um pouco acelerado, aplicando talvez uma influência mais “Brooksiana” com a experiência de Schaffer nos bastidores do grupo The Lonely Island.
A quantidade de piadas por minuto é insana. E se uma piada surrealista à lá Looney Tunes não funciona, aguarde um pouco, lá vem uma excelente tirada de linguagem, uma gag visual, uma referência pop, um efeito especial tosco que está lá só por uma piada ruim ou até aquele olhar maroto para a câmera que acerta a gente no estômago.
O que não funciona é esquecido porque a próxima piada te derruba.
Abracemos mais comédias assim, sem medo nenhum de ser estúpidas.
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12 – TRAGA ELA DE VOLTA

Os irmãos Michael e Danny Philippou, criadores do sensacional FALE COMIGO, retornam ao mundo da necromancia para perturbar profundamente os fãs de gente voltando de onde ninguém devia voltar.
Mesmo com cenas inesquecíveis pelos piores motivos (você vai passar muito longe de qualquer faca depois desse filme), quem vem pelo terror fica pelo abismo emocional que a perda de alguém causa nos personagens, e em como eles tentam encontrar uns nos outros uma maneira de lidar com o luto.
Sally Hawkins tem um trabalho revelador aqui, como uma mãe que perdeu a filha e precisa desesperadamente da ajuda de forças das trevas para… bem, trazer ela de volta. O buraco em forma de gente amada pode gerar loucura, e o filme quer dialogar sobre isso. E sobre feitiços, família e sobrevivência.
Os Philippou não estão se estabelecendo como garotos-maravilha do gênero só pela maneira como aplicam temáticas muito humanas ao horror (filme de fantasma sobre luto é até bem comum, não é?), mas a inventividade deles não só para “mecânicas da maldade” só se compara com a horripilância da qual são capazes. E da “sorte” que tem com seu casting.
E pensar que os dois diretores estavam prestes a filmar… Street Fighter.
Deu até um medinho.
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11 – LUTA DE CLASSES

É um título BR terrível, daqueles que o senhor lord sobre este webdomínio, Thiago Cardim, jamais teria feito em sua carreira de “inventor de títulos BR para filmes internacionais”.
CÉU E INFERNO, filme de Akira Kurosawa de 1963, é um filme policial sobre um empresário de sucesso que, no meio de uma artimanha financeira de alto risco, precisa resolver um caso de sequestro dentro do seio familiar. É brilhante, poderoso, meticuloso e inesquecível. Ou seja, é um filme do Akira Kurosawa.
HIGHEST 2 LOWEST é Spike Lee pegando a mesma premissa e transportando para a Nova York dos dias de hoje. E no lugar do Toshiro Mifune ele coloca quem? O Denzel.
O filme agora nos coloca no meio do mercado fonográfico, onde um midas, que cresceu do zero e criou lendas da música negra americana tem o seu filho sequestrado bem na hora em que juntou todos os ovos numa cesta só, para dar aquele golpe de mestre financeiro na concorrência. Mas vem um twist – quem foi raptado não era seu filho, era o filho do seu motorista (um Jeffrey Wright excelente). Denzel Washington então navega na investigação, no vai e vem moral e nas consequências de uma decisão que pode ser fatal.
Spike Lee é, desde o começo de sua carreira, um dos diretores que mais tem a dizer, tanto no verbo quanto no Cinema de sua obra. Amontoa decisões fotográficas díspares, deixa o público na corda bamba, e faz isso parecer fácil. Ele acerta sempre? Não, nem sempre.
A trilha sonora original do filme, a que acompanha as idas e vindas dos personagens, é… Esquisita demais. Um filme do Spike Lee que fala tanto não só sobre música, mas como ela é uma peça importante na cultura afro-estadunidense tem… Essa trilha? É um mistério que nunca deixa de incomodar o filme todo. Talvez por isso, este seja um Spike Lee Menor.
Só que até um Spike Lee menor é gigante perto de uma galera aí, viu. Lee faz um filme longo parecer um thriller veloz e o faz usando vários dos truques em sua caixinha de surpresas, especialmente nos fazendo apaixonar por praticamente todo mundo em tela. É claro, o foco está em seu muso.
O que o Denzel Washington faz nesse filme não é normal. Discutivelmente, uma das melhores atuações de um dos titãs da categoria, num papel que não tem momento fácil. Não é que as escolhas do roteiro sejam as mais surpreendentes, mas como Denzel viaja por elas é cativante além do necessário. O David King de Washington é gigante, obrigando a gente a prestar atenção nele com força e fúria.
Em algum lugar, o Kurosawa está contente.
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10 – A VIDA DE CHUCK

Há quem diga que o Mike Flanagan se sai muito melhor nas séries do que nos filmes.
Claro que quando um cara entrega uma série como MISSA DA MEIA NOITE ou A MALDIÇÃO NA RESIDÊNCIA HILL, fica até chato comparar. O cara já se provou. Merece os louros.
E aí ele vai até o rei (o Stephen) pedir a bênção pra fazer mais uma das centenas de adaptações de suas obras. E escolhe… A Vida de Chuck?
Até o velho King estranhou.
O Stephen King escreve da maneira mais descabelada possível (Leia o brilhante Sobre Escrita para entender mais). Isso o levou a fazer muitos livros bons, e muitos livros ruins, e no meio do caminho, um monte de coisa experimental.
A VIDA DE CHUCK é um filme que não só mistura gêneros, linhas narrativas, estruturas de realidade, como é um filme que não liga de sapatear por cima das fronteiras entre estes elementos. Demora um pouco para você entender o que realmente está acontecendo, e dá para entender quem fica um pouco decepcionado por que a premissa da história não é exatamente aquela da sinopse.
Mas ali no meio da confusão, encontramos Tom Hiddleston também dançando. E ele está dançando porque está vivo. O filme repete isso de maneiras variadas, com um elenco lindo cheio de colaboradores queridos de Flanagan (Mark Hamill, Kate Siegel) e também de pequenas participações surpreendentes de gente nova no time (David Dastmalchian, Matthew Lillard).
E pode parecer pouco. É um filme compacto, pequeno. Mas é uma pequeneza do tamanho da galáxia. Do tamanho do espírito humano. Do tamanho da saudade, e das luzes que somos capazes de ser uns para os outros.
Talvez seja o “filme abraço” do ano.
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9 – UMA BATALHA APÓS A OUTRA

Eis um fenômeno interessante. O do “melhor filme do ano que não é o melhor filme do ano”.
Foi impossível assistir UMA BATALHA APÓS A OUTRA se esquivando das críticas homéricas de como a nova produção do gênio Paul Thomas Anderson é “uma obra praticamente perfeita”, “um épico moderno maravilhoso e” etc, “o melhor filme estadunidense lançado no século”.
Há uma possibilidade não igual à zero de que isso tenha afetado a experiência de ver o filme. Porque um cidadão normal, que paga seus impostos, que vai ao cinema com qualquer módico de expectativa, começa a assistir o filme “na expectativa daquela hora em que o filme se transforma no”… Sei lá. Novo MAD MAX ESTRADA DA FÚRIA.
E esse momento… Não chega…?
PTA está em uma chave semelhante à de Ari Aster em Eddington. “Há algo de errado com os Estados Unidos, e eu vou investigar isso”. Mas, com todo respeito, Ari Aster ainda precisa comer muito feijão com arroz. PTA joga com revolucionários, seitas secretas neonazistas, explosões, militares com “alguma coisa entalada onde o sol não pega”, humor e ação para, no final, contar uma história onde o épico está no amor entre um pai e uma filha.
Sobra espaço para tiroteios e muita comédia. Leonardo DiCaprio é um ex-revolucionário que, anos depois de ver seu grupo de guerrilheiros urbanos ser dizimado após uma traição, se encontra numa busca desenfreada pela filha perdida.
É um filme onde a trama, o ritmo (é talvez a melhor montagem técnica do ano), a trilha, tudo numa pegada bem Irmãos Cohen, prende você do começo ao fim. Cada passo que a saga dá é um passo profundamente esquisito, mas que de alguma forma funciona. Continua nos engajando.
Sem falar de que num filme onde DiCaprio brilha, ele é o que menos brilha. Sean Penn está quase irreconhecível como um personagem de Wes Anderson que odeia gente marrom. Um militar que está cometendo uns doze crimes diferentes só para consertar um “errinho do passado” – o melhor vilão do ano. A novata Chase Infinity aqui é a filha do DiCaprio, e consegue engolir o veterano em todas as cenas que compartilham. E o MVP é o Benício Del Toro, como o sensei/herói mais tranquilo do cinema moderno.
E mesmo com tantos louros, com tanta pompa, com, de fato, a melhor cena de perseguição em anos… É um filme que não tem realmente a intenção de ir tão longe quanto os seus amantes esperam. Não é que o filme perde fôlego, é que… Talvez, ele não tenha respirado fundo o bastante.
Vai ser o mais badalado da temporada de prêmios, com certeza. Mas tem alguma coisa nesse angu.
É um filme que se coloca, de forma direta, honesta e enfática contra os horrores que a extrema direita tem entregue ao mundo nas últimas décadas. Mas é um “Anarquismo de Sessão da Tarde”. E, posso estar bem errado, mas talvez esse aspecto de UMA BATALHA tenha sido suficiente (ou até exatamente o que estavam esperando) para capturar os corações de grande parte da crítica, especialmente a estadunidense, desesperada por um espelho que mostre algo digno, depois de anos e anos só de desgosto. Eu recomendo terapia.
Mas ainda é um filme de uma das mentes criativas, propulsivas e humanas que mais enche seus personagens de complicações psicológicas interessantes. Ainda é dirigido por um dos caras que mais entende o que agarra a gente pelo coração.
Ainda é um dos melhores filmes num ano poderoso.
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8 – OESTE OUTRA VEZ

Intrigante e revelador que todas as desconstruções de Faroeste deste ano (e muitos de outros anos) são tanto sobre desconstruir o gênero como desconstruir o GÊNERO. Masculino, especificamente.
Tanto Eddington como Uma Batalha Após a Outra lida com “homens sofrendo demais porque querem ser ‘homens’. O encontro entre a masculinidade esperada e a falcatrua performática do que é “ser muito homem”.
OESTE OUTRA VEZ coloca em rota de colisão gente normal, gente simples, mas gente “homão da ´prra”. E as catástrofes naturais que seguem.
É parte road movie a cavalo, parte épico intimista. Explora o orgulho dos “cabra macho” e, com uma ironia até melancólica, mostra que tamanho é documento quando é o tamanho do caráter e da soberba. Do “não pode mexer no meu”.
Sintomático, singelo, e com três atuações centrais arrebatadoras. Ó aí o Brasil na lista! (continua abaixo)
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7 – FRANKENSTEIN

Guillermo del Toro ganhou passe-livre para seguir seus sonhos. Se o cara que fez O LABIRINTO DO FAUNO não pode filmar o que raios ele quiser, pra que que serve o cinema?
Ele então escreve uma carta de amor às telenovelas, ao horror gótico-barroco e (mais uma vez) aos conflitos entre pais quebrados e filhos quebradiços com sua interpretação católica-redentora de FRANKENSTEIN.
Chegando a incomodar de tão bonito, o filme resume a saga do cientista Victor, vivido pela versão hair metal do Oscar Isaac, ao criar um filho com partes de cadáveres (o surpreendente Jacob Elordi, calando a boca de todo mundo que ficou decepcionado com a saída de Andrew Garfield do projeto (a minha inclusive!)) e se arrepender bastante logo depois.
Porém, enquanto no livro o cientista se horroriza, Von Frankenstein Von Del Toro se entedia. O drama da paternidade aqui é obra da frustração e da expectativa de… Convenhamos, o Dr. Frankenstein mais babaca de todos.
O filme emociona, entretém e enche os olhos. Tel Toro de fato sabe o que faz. Porém… Algumas limitações no roteiro acendem um alerta.
Não dá para saber se é um alerta de que Del Toro começou a consumir a si mesmo como origem de suas ideias (por exemplo, quando saiu do conforto para fazer O BECO DO PESADELO e PINÓQUIO, foi ótimo). Ou se é um alerta de que a Netflix estar mantendo-o amarrado num porão pode não ser a melhor das coisas que aconteceu com nosso mexicano favorito.
GDT prometeu fazer um filme pequeno e intimista da próxima vez. Estaremos de olho.
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6 – SUPERMAN

E a gente nem esperava que o James Gunn tinha dentro dele um Superman Punk.
O melhor filme de herói em anos, quiçá o único excelente que vemos em muito tempo, SUPERMAN se equilibra no carisma e nas covinhas de David Corenswet para contar uma história digna da era de prata dos quadrinhos.
Há momentos em que parece um trem desgovernado por conta das inúmeras coisas voando que Gunn se recusa a deixar cair. Tem Guy Gardner. Tem Kaiju. Tem Sociedade da Justiça. Tem Sr. Fantástico. Tem Mulher Gavião. Tem portas dimensionais. Tem Krypto, o super-cão. Tem participações especiais.
Mas se não tivesse a humanidade do Clark Kent ali, brigando com todo mundo – com o Lex Luthor, com a Lois Lane, consigo mesmo – porque talvez ele seja o único que vê o bem dentro das pessoas, não tinha nem trailer.
Gunn ousa ao recontextualizar um Superman a quem não é mais permitido sentir orgulho das próprias origens. Corta na raiz toda a ideia – conservadora pacas – de “herança divina”, transformando o Cristo do Zack Snyder no Jesus do Padre Lancelotti. Alguém que vê nas pessoas um pouco de anjo, um pouco de demônio, e a necessidade de abraçar, não importa quem esteja no controle.
Um começo sensacional para o novo Universo DC.
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5 – PECADORES

O Ryan Coogler ganhou a carta branca dele com PANTERA NEGRA. Botou gente preta no foco e a África na cabeça das pessoas. Ainda coçou o perigo de leve apresentando um personagem afro-anarquista que fez o resto do filme diminuir, e muita gente até torcer pelo vilão.
E infelizmente o câncer levou Chadwick Boseman para longe da gente. Naturalmente, PANTERA NEGRA – WAKANDA PARA SEMPRE sofreu muito com isso. Mas sofreu mais ainda com algumas decisões bem esquisitas, especialmente sobre a direção da moral histórica do filme.
Coogler então decidiu gastar sua carta branca com ousadia. Um musical de horror, blockbuster, sobre cultura negra, legado e herança. Com o ator principal num papel duplo. Abordando temas como imigração, passabilidade racial, a eternização dos princípios racistas no espírito estadunidense. Muito Sexo. Vampiros. Mágica. Apropriação cultural – a verdadeira. Espíritos. Evangélicos estridentes.
Pecadores não cabe em categoria mercadológica nenhuma. É um filme de ambições gigantes e uma realização impecável na técnica, na ginga e na malandragem. É um filme sobrenatural com sugadores de sangue que em parte é um musical espiritual.
A gente vai analisar cada pedacinho desse filme por décadas. E nem estou falando somente da cena em que Ryan Coogler e seu compositor Ludwig Göransson usam o novato Miles Caton para catalisar o feitiço e nos tragar para uma festa incendiária. Mas é a Wunmi Mosaku sendo uma Vênus. É a Hailee Steinfeld numa crise pessoal e racial. Os vampiros. Os caçadores de vampiros. O choro engolido do Delroy Lindo. Cada momento em que o Michael B. Jordan interage com o Michael B. Jordan. A participação desnecessariamente épica de Buddy Guy.
Escreve aí: não vai ter outro filme assim por uns bons anos.
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4 – A HORA DO MAL

Outra tradução infeliz de título, WEAPONS mostra que NOITES BRUTAIS, o primeiro filme de Zack Cregger, não foi sorte. Cregger aqui dobra a aposta e entrega o filme de horror mais memorável do ano, cheio de detalhes aterrorizantes e reviravoltas sobrenaturais.
E mesmo que seja um filme sobre… Sobre o que ele é, no final ele está falando de uns bagulhos ainda mais sinistros. E mesmo tocando em temas extremamente delicados, Cregger o faz se divertindo aos montes.
WEAPONS é um filme violentíssimo, tanto no tema quanto graficamente, e congela os ossos com seus sustos, suas ideias e sua narrativa, mas ainda é um filme hilário. As desventuras do policial interpretado por Alden Ehrenreich dão um tom tão bizarro para o filme, aliado à personalidade gentil e caótica da protagonista, papel de Julia Garner. Até mesmo Josh Brolin, interpretando aqui um personagem no qual deve estar totalmente confortável (um paizão protetor durão), mostra nuances de fragilidade que são engraçadas ao mesmo tempo que tocantes. Tudo isso num filme que transforma numa sátira – ou numa poesia sinistra – a ideia de que existe quem queira transformar crianças em armas.
Quanto menos você souber sobre o filme, melhor. Mas é preciso dizer que o que Cregger e a atriz Amy Madigan conjuraram é algo que nasceu clássico. A primeira aparição dela no filme e… Como ela se desenvolve na trama… É a criação de uma lenda.
Cregger vai comandar a nova tentativa de revitalizar RESIDENT EVIL no cinema. E não poderia estar em melhores mãos.
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3 – VIVO OU MORTO

Vamos lá, todo mundo junto:
“O Rian Johnson não errou, não erra e não errará em nenhum dos projetos onde colocar os seus tentáculos.”
Não há nenhum canto da sua obra onde não exista maestria técnica, humor, coração e uma convicção moral firme contra aquelas coisas terríveis de sempre. Depois de ser rechaçado por uma minoria barulhenta ao entregar o melhor filme de STAR WARS, tendo dirigido os episódios mais memoráveis de BREAKING BAD, ele transformou o Daniel Craig no Sherlock Holmes pós-moderno, Benoit Blanc, e só podemos agradecer.
O terceiro ENTRE FACAS E SEGREDOS diminui o escopo e a loucura do segundo, GLASS ONION, e cria aqui um mistério mais pessoal, mais inteligente, mais sábio, porém mantém a diversão no topo.
O James Bond Meia Idade agora chega numa cidadezinha onde um padre mais temido do que amado (Josh Brolin solto no meio do pasto) é assassinado. O principal suspeito é seu padre assistente, um jovem cheio do Espírito Santo e de arrependimentos (Josh O’Connor), mas Benoit Blanc não está convencido de sua culpa.
Seguem as clássicas cenas de recomposição, flashbacks, investigação, pistas, alarmes falsos, arenques vermelhos, porém com um degrau novo em termos temáticos.
Se no primeiro filme Johnson estava pisando no pé da família tradicional estadunidense MAGA, os racistinhas herdeiros engomados, e no segundo ele queria cutucar a classe de techbros burros demais para ter tanto dinheiro e poder, agora ele quer aprontar na direção da religião.
Mas ao invés de remover as máscaras das instituições e apontar dedos (o que já era antiquado nos anos 80 – 1780), ele quer fazer uma discussão sobre fé e as funções dela e da religião como elementos que fazem parte do ser humano, queiramos ou não. Quando os caras do Monty Python começaram a escrever seu célebre A VIDA DE BRIAN, chegaram mais ou menos na mesma conclusão: “Jesus era um cara legal, é que os seguidores dEle são meio tapados”.
Benoit Blanc é, naturalmente, “alguém que adora perante o altar da razão”, e ao entrar em combate cosmológico com o padre sincero e amoroso de Josh O’Connor, aparece uma amizade genuína, onde um quer ajudar o outro com o que melhor podem fazer.
Josh O’Connor é o protagonista real da história, como Janelle Monáe e Ana de Armas foram nos primeiros filmes. E ele entrega um personagem talvez mais cativante do que precisava ser. Seu Padre Jud é um rato perante o leão que é Josh Brolin, mas é por ele que nos apaixonamos. É de O’Connor que vem a maior parte do humor do filme, especialmente quando o clérigo titubeia na entrada da cova que não sabe estar se metendo.
Dessa vez, nem todo mundo neste elenco inacreditável tem espaço para brilhar. Andrew Scott infelizmente não tem muito para fazer aqui, assim como Cailee Spaeny. Mas outros, com bem pouco fazem milagre, como Thomas Hayden Church e seu humilde zelador. Glenn Close mostra porque é a Glenn Close, com um papel de mais destaque. E no meio de tudo tem o Daniel Craig, pegando o dinheiro da Netflix e saindo correndo como se tivesse roubado nossas carteiras.
E o filme ainda comete a sacanagem de explicar Graça de uma maneira que até aquele pastor bolsonarista vai entender. Um triunfo.
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2 – SEM OUTRA ESCOLHA

É meio cômico que os grandes filmes coreanos recentes estejam batendo tanto no capitalismo.
O mais notável filme sul-coreano a chegar no ocidente depois que o Bong Joon-Ho passou o rodo no Oscar com o excelente PARASITA é daquele outro diretor sul-coreano que fez o mundo todo olhar para este lado do mundo.
Park Chan-Wook, diretor do clássico OLDBOY, criou muita coisa nesse meio tempo, como séries e experimentos. Ele até mesmo dirigiu filmes melhores (como DECISÃO DE PARTIR e o espetacular A CRIADA). E agora quer brincar com uma fábula hitchcockiana sobre a psicopatia da geração LinkedIn.
Lee Byung-hun (do inigualável EU VI O DIABO e ROUND 6) interpreta um pai de família, orgulhoso da posição empresarial que alcançou, de como comprou uma casa, um carro, e tem dinheiro para cada capricho dos filhos ou da esposa (Son Ye-Jin, sensacional aqui). E aí descobre que vão “cortar sua cabeça” – gíria para demissão sumária.
Instala-se uma crise que destrói seu senso de valor próprio. Sua solução? Descobrir quem são os candidatos para uma vaga semelhante e assassinar cada um deles.
O filme quase, quaaaase faz a gente ter empatia pelo protagonista, especialmente por conta do carisma natural de Byung-hun. Mesmo em Eu Vi o Diabo, a união de vulnerabilidade e frieza compunham um personagem intrigante. Aqui, substituímos o olhar congelante com as melhores cenas de trapalhadas violentas. Seu personagem não é um assassino perfeccionista enfrentando uma enrascada mortal, é um faria-limer tosco que está com medo de ter que tirar a filha das aulas de violoncelo e cancelar o Amazon Prime.
A pequenez de seu caráter que transforma ele num personagem patético, mas sua inteligência e o humor de suas situações nos deixam aprisionados no filme, até o desfecho espiritualmente sádico. O mundo de Park Chan-Wook é um mundo de lobos, e todos eles estão com fome ao mesmo tempo.
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1 – O AGENTE SECRETO

O C.S. Lewis diz um negócio muito interessante em seu Cartas de um Diabo a seu Aprendiz. Ele deixa claro, num diálogo especulativo entre demônios, que o diabo não coloca coisa na cabeça das pessoas. O mochila de criança trabalha fazendo as pessoas esquecerem.
Só que 2025 vai ser inesquecível para o cinéfilo brasileiro.
No começo do ano, no nosso ombro sentou-se um anjinho com a cara do Walter Salles. Nos trouxe o Oscar com AINDA ESTOU AQUI, uma análise sobre o caso do desaparecimento de Rubens Paiva nas mãos da ditadura empresarial-militar brasileira. Um filme necessário, de emoção avassaladora, com a Fernanda Torres sendo gigante.
Agora então é a hora de sentar no outro ombro o Kléber Mendonça Filho vestido de capeta safado.
KMF encavala, logo depois de RETRATOS FANTASMAS e BACURAU, um outro poema esquisito sobre Brasil, Nordeste, com pinceladas de violência.
O tesouro nacional Wagner Moura faz um cara que está fugindo de alguma coisa quando chega em Recife, nos anos 70, para se refugiar com um bando de indesejados. Bem aos poucos, quase a conta-gotas, vamos aprendendo os porquês de sua história, sua situação e seus objetivos.
É um filme muito mais sobre “a época da ditadura” do que sobre exatamente a ditadura. O sentimento nacional de paranóia, de sentir-se perseguido por todos os lados, e a noção de que a qualquer momento você ou algum ente querido pode virar estatística por motivo nenhum. Isso está impresso em cada canto do filme, que no meio de um carnaval transforma a Recife dos anos 70 num palco de intrigas cheias de pirraça.
E uma das surpresas do filme é que ele também é um filme sobre memória.
Mas ele é a resposta trágica para o final “feliz” de Ainda Estou Aqui. A cena final do filme de Walter Salles usa os olhos de Fernanda Montenegro para completar o ciclo do filme: ela lembra. A vitória é da memória. Nunca esqueceremos. Rubens Paiva é quem está dizendo “ainda estou aqui”, lá, nas fotos, nas lembranças. A grande máquina de moer gente que comandou o Brasil perdeu porque nós lembramos. O diabo foi derrotado pela memória. Pela Comissão da Verdade. Pelos arquivos. Pela saudade.
E O Agente Secreto responde à Ainda Estou Aqui em nome dos que perderam. A puxada de tapete no final do filme, que ainda está doendo aqui, é um golpe cognitivo no sentido de que “a ditadura venceu”. “Esta pessoa nós apagamos”. Conseguiram não só eliminar a memória, mas o desejo por memória. Transformaram pessoas em “lágrimas na chuva”.
E tem a Dona Sebastiana, tem a cena da perna cabeluda, tem o “raparigou ou não raparigou”, tem o casting de valor incalculável, tem a participação rápida mas magnética de Alice Carvalho, tem os valores de produção e a direção de arte, tem o amor pelo cinema, tem Carpenter, tem Spielberg, tem coisa pra falar desse filme por horas.
O Agente Secreto é um filme único. A cereja no topo de um ano forte.
2026 começa já. Aí vamos nós!