Braia faz viagem às Minas Gerais através da viola caipira
Projeto paralelo do músico Bruno Maia, do Tuatha de Danann, abre uma espécie de portal musical entre a mitologia celta e o rock rural do interior do nosso Brasilzão
Por THIAGO CARDIM
Foram muitas as vezes em que tive a chance de entrevistar o multi-instrumentista Bruno Maia, mineiro egresso de Varginha e principal mente criativa por trás do Tuatha de Danann (em tempo, uma das minhas bandas nacionais favoritas) – primeiro lá no JUDÃO.com.br, depois aqui mesmo no Gibizilla e até lá no nosso podcast musical, o Imagina Se Pega no Ouvido. Em todas elas, uma coisa ficou muita clara pra mim: o amor que ele sente pela música brasileira.
E não, não estamos falando dos igualmente mineiros do Sepultura. 😉
Veja, se você prestar bastante atenção no Tuatha, vai perceber que o folk metal da banda é carregado não apenas das sonoridades étnicas da mitologia celta e de um bocado da lisergia do rock progressivo, mas também de Clube da Esquina. Sim, sim, tem um bocado de MPB entre os duendes e as fadas, o que dá justamente o tempero mais especial e único ao DNA do grupo. E esta MPB começou a ganhar ainda mais corpo e querer se tornar protagonista conforme começou a correr nas veias do Braia, projeto paralelo de Bruno, surgido originalmente em 2014.
O primeiro disco, “…E o Mundo de Lá”, soa como uma espécie de “o que aconteceria se o Tuatha de Danann resolvesse tomar um pouco menos de hidromel e um pouco mais de cachaça?”. Já em 2021, em plena pandemia, o músico voltou ao estúdio e o resultado foi uma outra face do projeto, “…E o Mundo de Cá”, no qual os duendes pegam um trem direto e reto pro interior do Brasil. Pois agora em 2025, o portal se abre de vez a viagem mitológica do Tuatha se transforma numa pintura musical das histórias e paisagens de Minas Gerais, com o lançamento do delicioso “Vertentes de Lá e Cá”.
O fio condutor da obra? Ninguém menos do que a viola caipira.

Esse disco é trem bão demais!
“Eu sou um apaixonado por Minas Gerais, sua história e seu povo. Tentei pagar um tributo a esta instância mágica que são as Minas em forma de música e imagem”, diz o autor, em comunicado oficial. “Tem um pouco de tudo, acredito: música raiz, rock rural, um dedo de progressivo e tudo isso tendo a viola caipira como protagonista”.
Não precisa ir muito longe pra entender a proposta: quando o primeiro dedilhar da viola começa com “Emboabas”, a faixa de abertura, fica claro que estamos diante de uma típica canção sertaneja – mas leia-se este adjetivo com foco, de fato, na música que se toca nos profundos rincões do nosso sertão. É música pra ouvir se sentindo numa cabana no meio do mato, com um cachorro vira-latas do lado.
Ao longo da canção, Bruno pinta um pouco da história do confronto travado, entre os anos de 1707 e 1709, pelo direito de exploração das recém-descobertas jazidas de ouro na Capitania de São Vicente, região do atual estado de Minas Gerais – contrapondo os desbravadores locais e forasteiros como os bandeirantes paulistas (liderados por Borba Gato, sim, AQUELE) e os portugueses.
Sim, a canção inicial é quase uma poesia cantada – mas esta verdadeira aula de história vai ganhando cores mesmo nas músicas 100% instrumentais, ao contar e cantar a trajetória de Hipólita Jacinta, primeira mulher a fazer parte do Panteão da Inconfidência em Ouro Preto; ao dar luz sobre a resistência do Quilombo do Ambrósio, capital da confederação Quilombo do Campo Grande, composta por 27 quilombos, alguns deles no Triângulo Mineiro; ao evocar a importância da Revolta de Carrancas, rebelião de escravos que aconteceu em maio de 1833, ao sul da província de Minas Gerais; e ao nos surpreender com a grandiosidade da fogueira de Ingaí, patrimônio dos festejos juninos, que com seus mais de 30 metros, marca uma tradição quase centenária surgida como promessa após um raio destruir uma antiga igreja da cidade.
Diga aí se isso não é Brasil até dizer chega? 😀
Se “O Cururu do Ingaí” chega a flertar com um forró pé de serra dos bons, entre sons indígenas e portugueses, e “Serra das Letras” viaja num colorido prog bem Marillion, a excelente “Pagode Mouro” (última canção gravada pelo finado tecladista do Tuatha, Edgard Brito), uma das minhas prediletas do disco, é carregada de uma tensão musical crescente, quase como uma canção épica que serviria de trilha sonora para uma boa produção nacional de época.
Já “Carrancas” bota o pé no acelerador (com direito até a uma bateria quase punk) e revela que, por trás de um bom violeiro do nosso interior, pode sim se esconder um músico virtuoso capaz de rivalizar com qualquer guitar hero gringo em termos de intrínseca velocidade e complexidade.
Na bela, emocional e quase épica “Ventura”, que carrega um tempero quase flamenco, temos direito a teclados e arranjos orquestras de Fábio Laguna (Angra, Edu Falaschi e Hangar). E se você sentir um pingo de saudades do Tuatha, tudo bem, não precisa ir muito longe – em “Princesa do Sul”, os elementos folk vêm dançar junto com a viola, e flauta, violino e bouzouki se tornam devotos desta homenagem mística à cidade de Varginha, terra-natal do líder do projeto.
Tá tudo aí. É só escolher.
Mais do que um disco, é bom que se diga
Bom lembrar ainda que “Vertentes de Lá e Cá” foi pensado como uma experiência audiovisual: cada música traz consigo uma ilustração original do artista Thiago Brito (acompanhado das artes gráficas de Rodrigo Barbieri) e um vídeo que amplia o sentido das composições. Os vídeos (publicados no YouTube) contam com legendas e tradução em Libras, reafirmando o compromisso do projeto com a acessibilidade e a circulação livre da arte.
“Este material pode servir até como material paradidático em aulas, oficinas… Ficou bem interessante e, pelo burburinho, tem muita gente já dizendo que quer conhecer alguns locais das músicas ou mesmo estudar mais sobre Minas Gerais”, diz ele.
Além de estar disponível nas principais plataformas de áudio, “Vertentes de Lá e Cá” também pode ser baixado gratuitamente, como um pacote completo de mídia com encarte e tudo mais, no site oficial do projeto.
Boa audição e boa viagem, uai. 😉