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Não é magia, é ácido hialurônico!

Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor não é nenhum Truffaut, nem precisa ser. O incômodo está no que ele sugere nas entrelinhas: que a idade e a independência ainda são obstáculos para a felicidade das mulheres.


Por GABRIELA FRANCO


Estreou nos cinemas brasileiros em 10 de setembro, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor, continuação do clássico de 1998, com direção da dinamarquesa Susanne Bier. Sandra Bullock e Nicole Kidman voltam como as irmãs Sally e Gillian Owens, juntamente com Dianne Wiest e Stockard Channing como as charmosas tias Jet e Frances. 

O resumo da história é o seguinte: vinte e cinco anos depois do primeiro filme, a maldição das Owens continua firme e forte. Todo homem que se apaixona por uma mulher da linhagem simplesmente morre. Sally (Sandra Bullock), que se casou com Gary Hallet, o investigador vivido por Aidan Quinn no filme original, vive isso na pele e fica viúva pela segunda vez. Cansada de enterrar maridos, ela desiste do amor e, por não saber como quebrar a maldição e não querer que as filhas tenham o mesmo destino infeliz, enfeitiça Kylie e Antonia (Joey King e Maisie Williams) para que se esqueçam de que são bruxas.

Adivinhem? De nada adianta.

Kylie se apaixona loucamente por Gideon (Xolo Maridueña), e logo o rapaz sofre um acidente e fica entre a vida e a morte, o que faz com que ela vá tirar essa história de maldição e bruxaria a limpo de uma vez por todas.

Logo, ela pressiona a mãe, que confirma que ela vem de uma longa linhagem de bruxas e que a maldição é real. Kyle então encontra um grimório de uma ancestral Owens que a leva a Londres e a meios de, talvez, quebrar a maldição e salvar o namorado.

Completando o elenco, o ator Lee Pace é Ian Wright, professor inglês especializado no estudo da magia e do sobrenatural, enquanto Solly McLeod faz Tom Lockland, um bruxo sombrio que usa os poderes de Kylie.


Um filme que nasceu nas redes sociais

Por que diabos resolveram fazer uma continuação, afinal? A pergunta é justa porque ninguém em sã consciência, lá nas terras de Hollywood, apostaria nela. O original teve críticas bem chochas e capengas e decepcionou bastante nas bilheterias, com 46,7 milhões de dólares arrecadados para um orçamento de 75 milhões.

Mas vamos dizer que a grande culpada por trazer esse filme de volta e transformá-lo em cult foi a internet.

Através de cortes nas redes sociais, ele começou a chamar a atenção de millennials e da geração Z, sobretudo mulheres que hoje estão bem mais envolvidas com paganismo e bruxaria. Elas re-assistiram ao primeiro filme e começaram um movimento enorme pedindo uma continuação. Portanto, ele seria hoje uma relíquia esquecida do kitsch dos anos 1990 se não fossem os perfis de Instagram dedicados à decoração e a mania millennial de romantizar seus filmes de infância. 

Some-se a isso a moda da bruxaria comercial na internet. Nas redes, a estética “witchy” e “whimsy” virou tendência. O filme resgata justamente todo esse universo de casas antigas, velas, roupas esvoaçantes, livros e uma magia aconchegante, justamente quando esse visual voltou a despertar interesse. Para a geração Z, é um jeito de descobrir referências de uma época que ela não viveu. É como se a internet tivesse transformado memórias da cultura pop em uma nova tendência. Não é feitiçaria, é a pressão das redes sociais!

No final das contas, o filme é uma continuação divertida na medida certa, porém mais preocupada em agradar a esses fãs das redes do que em trazer alguma novidade. A diretora Susanne Bier (de A Caixa de Pássaros, também com Sandra Bullock) parece ter entendido que sua principal tarefa ali era não atrapalhar as duas estrelas principais. Então deixa Bullock e Kidman retomarem a velha dinâmica de irmãs que vivem se alfinetando com carinho, e isso ainda funciona.

O jeito inconsequente de Gillian (Kidman) continua sendo um contraponto divertido para a paranoia de Sally (Bullock). As tias, fofíssimas e donas dos melhores figurinos do filme. entregam os momentos mais emocionantes da trama, mas aparecem bem menos do que mereciam. E duas horas e dez minutos é tempo demais para uma trama que meio que se arrasta e começa a se enrolar nas próprias subtramas.

Achei que a introdução à trama principal demorou a engatar. No fim, o que sustenta tudo é o carisma das duas protagonistas, as queridinhas da América. O resumo do Rotten Tomatoes indica bem: “o filme é nostálgico e sem vida, tem charme graças à química entre Bullock e Kidman, mas a trama confusa dá mais trabalho de entender do que compensa assistir”.

É bem por aí.


Face lifting das bruxas

O que mais me incomodou, porém, foi algo de que pouca gente falou: Nicole Kidman e Sandra Bullock aparecem com o rosto completamente repuxado. Numa tela de cinema, onde cada detalhe é ampliado, isso chama a atenção o tempo todo e causa um mal-estar difícil de ignorar. A questão não é apenas estética, é de coerência. Sally e Gillian deveriam ser mulheres de 50 e poucos anos, mãe e tia de moças já adultas. Na tela, porém, parecem ter a mesma idade das filhas e da sobrinha, e o efeito acaba sendo meio patético.

O problema também aparece nas filhas. Joey King e Maisie Williams são atrizes perto dos 30 anos e, mesmo assim, interpretam jovens recém-saídas da faculdade. Ou seja, as mães parecem mais novas do que são e as filhas, mais velhas do que deveriam ser, e as duas gerações se encontram numa espécie de idade neutra artificial.

No fundo, tudo nasce da mesma escolha: o filme se recusa a admitir quanto tempo passou desde o original. E aí mora a maior ironia. Uma história que pretende falar sobre a força de várias gerações de mulheres não permite que suas protagonistas envelheçam.


O que esse bofe está fazendo aqui? (aqui pode haver SPOILERS!)

Outra crítica que tenho é em relação à participação de Lee Pace. Ele interpreta um galã tatuado que estuda a história da bruxaria e cruza o caminho das Owens por causa das suas pesquisas. Ele está lindíssimo, vejam bem, isso ninguém discute, e o filme usa justamente esse trunfo: sua participação se resume à objetificação, ele está ali para ser bonito e fazer suspirar.

O problema é que seu papel faz parte da virada mais importante da trajetória de Sally. É ele quem desperta de novo os poderes da personagem de Sandra Bullock, e isso não faz sentido algum. Numa história em que a magia passa de mãe para filha há séculos, e em que tudo gira em torno da herança feminina das Owens, quem devolve a Sally a sua força é justamente um homem, de fora da família, que conhece bruxaria pelos livros? O que deveria ser um reencontro dela consigo mesma e com a sua linhagem vira um favor masculino, e isso soa como um retrocesso.

Como se não bastasse, Ian ainda vira seu par romântico e esse romance é descabido ali. Sally passou a vida enterrando os homens que amou e abriu mão do amor para proteger as filhas. Quando finalmente tem a chance de se reconciliar com quem é, o filme lhe arruma mais um macho, como se a sua história só pudesse terminar bem com um homem ao lado. Totalmente desnecessário. E bem anos 1990, no caso.

Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor não é nenhum Truffaut, e nem precisa ser. É filme de Sessão da Tarde, feito para ser visto com pipoca e sem grandes expectativas, e tudo bem. O problema é que ele poderia ter sido mais do que isso.

Nasceu da paixão de uma geração que redescobriu nas redes o charme das bruxas dos anos 1990, e tinha nas mãos uma chance rara: mostrar mulheres maduras, poderosas e donas da própria magia. Em vez disso, preferiu congelar o rosto das protagonistas, entregar a virada decisiva a um bonitão e fechar a história com mais um casamento, como se o tempo, a idade e a independência feminina fossem assuntos incômodos demais para um filme leve.

Não enfeitiça ninguém por décadas, como o original acabou fazendo, mas cumpre o que promete: duas horas de nostalgia, magia e ótimos figurinos. Só fica a vontade de que as Owens tenham coragem de envelhecer e de terminar o filme sem precisar de ninguém além delas mesmas.

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