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Finalmente, o Quarteto tem a chance de ser Fantástico

Primeiros Passos, a incursão inicial da família dentro do MCU, apresenta os personagens com brilho e doçura – e o que é melhor: contando a sua história sem precisar da muleta da construção de um universo expandido

Por THIAGO CARDIM

O ano era 2004. Assim que a animação longa-metragem dos Incríveis, da Pixar, chegou aos cinemas, os fãs de gibis imediatamente gritaram aos quatro cantos: “putz, pra fazer um bom filme do Quarteto Fantástico, bastava apenas seguir ESSA fórmula”. Pois no ano seguinte, em 2005, quando Tim Story chegou com o seu Quarteto live-action, ficou claro que ele não tinha aprendido nada com o colega de profissão Brad Bird. Sobrou tiozão do Zap zé graça e faltou… FAMÍLIA.

Pois vieram então o Quarteto de 2007 com o Surfista Prateado, o Quarteto de 2015 em sua versão sombria Nolan-style e com o Coisa pelado (cruzes!)… e até então, Os Incríveis permanecia sendo a versão quintessencial do Quarteto Fantástico nos cinemas.

Até agora.

Porque, enfim, alguém conseguiu entender que, para termos um bom filme do Quarteto Fantástico, não é preciso soar moderninho, descolado, pretensamente dinâmico. Basta contar uma história de família. Daquele tipo bem clássico. Feita com o coração. E isso é algo que Quarteto Fantástico: Primeiros Passos entrega com primor.

Com amor, de Jack para Vanessa

Quarteto Fantástico: Primeiros Passos bebe descarada e abertamente da melhor fonte possível neste momento de nova introdução: os quadrinhos de Stan Lee e de Jack Kirby. Aliás, um parêntese importante aqui: fazia MUITO tempo, talvez desde o subestimado filme dos Eternos, que uma produção do MCU não mergulhava tão profundamente de cabeça na estética kirbyana – em especial, quando os quatro fantásticos viajam ao espaço, adentrando a nave colossal de Galactus (Ralph Ineson), que tem um imponente e sombrio visual mecânico, quase como uma versão de um mito ancestral de Lovecraft infectado por um vírus tecnorgânico do Giger.

Faz sentido? Bom, pra mim fez.

A fuga da espaçonave e a perseguição pela Surfista Prateada (Julie Garner, com sua expressão claramente alienígena já naturalmente, simplesmente sensacional) também é Kirby puro, com as constelações ao redor e uma espécie de buraco negro com um looping temporal ao redor. Dá pra imaginar nitidamente uma página dupla com a Shalla-Bal circundando a nave Excelsior.

E que bom que, no fim, este filme acabou sendo uma produção de Kirby pra Kirby.

Eu explico.

Sim, o Tocha Humana de Joseph Quinn ficou um querido – ao mesmo tempo em que carrega a febre do flerte típica do hetero top dos gibis, ele não chega a ser um completo arrombado (adorável, diga-se) como a versão do Chris Evans. É alguém que se preocupa com a família e que se mostra inteligente o suficiente para integrar ESTE time em específico. Já o Coisa do excelente Ebon Moss-Bachrach tem não apenas o visual perfeito, enfim um acerto no equilíbrio entre o ameaçador e o acolhedor, mas também aquele olhar de bondade, que obviamente todo Tio Ben carrega consigo (roubei descaradamente a frase de Peter Parker, certeza que ele me perdoaria).

No entanto, é preciso confessar que a trama gira essencialmente em torno da dupla Reed Richards e Sue Storm-Richards. É uma história cujo objetivo é justapor os dois líderes da equipe – a mente científica mais brilhante do planeta, que em sua visão estritamente analítica acaba sendo socialmente inepto (exatamente como nos gibis, fica a dúvida: de quem foi a ideia de jerico de colocar o Reed como porta-voz?), tentando se encontrar no papel de pai; e a matriarca do time que é pura emoção, que se coloca não apenas diante do marido mas também perante todo o planeta para proteger a criança em seu ventre.

E, sem entregar muito da trama, depois do jeito desleixado que os imensos poderes da Feiticeira Escarlate acabaram sendo tratados nos cinemas, chega a ser um prazer ver as habilidades da Mulher-Invisível (que vão MUITO além de apenas ficar invisível, é bom que se diga) sendo utilizadas pra valer, em toda a sua glória – e quando ela precisa defender o filhote Franklin, no entanto, o caldo engrossa legal. Era de se esperar.

Superman é um filme sobre um homem que se encontra como filho; Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é sobre as escolhas de um pai e uma mãe. No fim, dá pra dizer até que, narrativamente, ambos meio que se complementam.

Aliás… entre os Fantásticos e os Super

Um acerto inominável, que eu já tinha louvado assim que foi anunciado, é o fato do Quarteto estar numa Terra alternativa, longe de tudo que acontece no MCU (pelo menos por enquanto). Desta forma, fugindo da armadilha do filme de origem – o que é outro bingo importantíssimo – o diretor Matt Shakman pôde não apenas escapar das inevitáveis perguntas como “onde eles estavam quando o Thanos estavam ameaçando o planeta?”, mas também se dedicar a contar a história DO Quarteto. E só deles.

Uma história deste grupo em específico, com começo, meio e fim. E chega. Sem a necessidade de ser MAIS um capítulo do universo expandido do estúdio, sem precisar se preocupar em construir o que vai acontecer lá pra frente, sem ter uma dezena de participações especiais que tiram o foco da história.

Além disso, o cineasta teve a chance também de trabalhar uma Terra que é, de alguma forma (e com todo o cuidado que a comparação demanda) quase como aquela trabalhada por Alan Moore em Watchmen. Um mundo diferente do nosso, que foi de fato impactado pela presença dos heróis – e, em especial, daquele que é o homem mais inteligente do planeta, vamos lembrar – em sua essência, um mundo retrofuturista que lembra os nossos anos 1960 mas que tem supercomputadores e carros voadores.

Uma Terra, inclusive, que carrega em si uma inocência (sem maiores spoilers aqui) que só um gibi de super-herói colorido e sem o cinismo snyderiano teria. E nisso, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos e Superman também se parecem e complementam um bocado: tamos falando de histórias que não têm qualquer vergonha de assumir o seu lado galhofeiro e abraçar o material original. São produções sem medo de soar pura e simplesmente quadrinho de hominho, com aquela pseudociência sem muita necessidade de maiores explicações cabeçudas. Só aceita aquele aparelho de teleporte e tá tudo bem com isso.

Abra as páginas do seu gibi em formato de telona e divirta-se. Porque tem até o Toupeira, minha gente!

E o futuro?

A presença do Franklin Richards, o jovem menino que todo leitor recorrente de quadrinhos da Marvel SABE BEM o que pode fazer, tem potencial para ser o elemento cósmico fundamental que o Doutor Destino precisa pós-Doomsday para criar o seu próprio Mundo Bélico, tal qual nos gibis de Jonathan Hickman – e sem precisar enfiar um tal de Beyonder no meio.

E AQUELA cena pós-créditos. Aquela dirigida pelos Irmãos Russo. Ainda vou falar um pouco sobre ela, depois que passar o período regulamentar.

Mas, cá entre nós… que se danem todas estas teorias. Sério.

Porque, como eu disse, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos se dá ao luxo de pensar em si mesmo. E só. No presente. E que o futuro fique pra depois.

Filme: Quarteto Fantástico (2005)

Série: Os Quatro Fantásticos (Série Animada) 

Gibi: Quarteto Fantástico – Edição Definitiva – Vol. 1

Podcast: Quarteto Fantástico – 60 Anos (Fala, Animal)

Texto: Seria o Coisa um… Golem? 



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