Ed Mort: o detetive mais azarado (e brasileiro) dos gibis
Nova campanha da Cyberpulp Comix reúne pela primeira vez toda a produção em quadrinhos do personagem criado por Luis Fernando Verissimo e Miguel Paiva, um clássico que transformou o noir americano numa das sátiras mais inteligentes da cultura pop nacional.
Por THIAGO CARDIM
Durante décadas, bastava alguém aparecer usando um sobretudo amarrotado, um chapéu gasto e uma expressão de quem já desistiu da humanidade para o leitor brasileiro reconhecer imediatamente a referência. Era impossível não pensar em Ed Mort.
Muito antes de a cultura pop descobrir que podia brincar com o noir em produções como Uma Cilada para Roger Rabbit, Sin City ou mesmo nas inúmeras sátiras policiais que inundaram cinema e televisão nas últimas décadas, Luis Fernando Verissimo já havia encontrado um caminho genuinamente brasileiro para desconstruir o detetive particular americano.

Agora, um dos personagens mais queridos do humor nacional ganha nova oportunidade de encontrar leitores.
A editora Cyberpulp Comix acaba de lançar, no Catarse, a campanha Ed Mort Integral, edição em capa dura que reúne, pela primeira vez, os cinco álbuns originais produzidos pela dupla formada por Luis Fernando Verissimo e Miguel Paiva, além de tiras restauradas, páginas inéditas e material extra em 352 páginas.
É uma iniciativa que chega em um momento simbólico porque, além de marcar os 90 anos que Verissimo completaria em 2026, ajuda a recolocar em circulação um personagem que ocupa um espaço curioso na cultura brasileira: extremamente influente, mas cada vez menos conhecido pelas novas gerações.
O anti-herói do noir tropical
Pra começar a explicar: Ed Mort é um detetive particular. Ou melhor… tenta ser. Seu escritório vive vazio, o dinheiro nunca aparece, os clientes quase sempre escondem alguma informação importante e as investigações normalmente caminham para o caos absoluto.
Seu sobrenome — Mort — já entrega boa parte da brincadeira. Assim como Sam Spade, Philip Marlowe ou Mike Hammer, ele pertence ao universo dos investigadores particulares das histórias noir americanas. Mas existe uma diferença fundamental.
Enquanto aqueles personagens atravessavam becos esfumaçados de Los Angeles ou Nova York, Ed Mort enfrenta repartições públicas, cobradores, baratas, vizinhos inconvenientes, malandros de quinta categoria e uma sucessão de pequenos desastres que fazem muito mais sentido no Brasil do que em qualquer metrópole americana.
É Bogart preso numa fila de banco. É Raymond Chandler escrito por alguém que conhece perfeitamente o humor de Stanislaw Ponte Preta. Afinal, aqui a graça nunca esteve apenas na investigação, mas sempre no contraste.
Como Verissimo inventou um detetive brasileiro
Ed Mort nasceu em 1979 (no mesmo ano que este que vos escreve, diga-se_, inicialmente em textos escritos por Luis Fernando Verissimo. Naquele momento, Verissimo já começava a despontar como um dos grandes cronistas do país, utilizando humor refinado para comentar política, comportamento e cotidiano.
Filho de Erico Verissimo, poderia facilmente ter seguido um caminho mais solene na literatura, mas preferiu rir… e fazer os leitores rirem junto. Apaixonado pela literatura policial americana, especialmente autores como Raymond Chandler e Dashiell Hammett, Verissimo resolveu brincar com todos aqueles clichês que conhecia tão bem. O resultado não foi uma simples paródia, mas uma belíssima tradução cultural.

Ed Mort mantém a estrutura clássica das histórias policiais, mas substitui o glamour decadente do noir por um Brasil onde quase tudo funciona de maneira improvisada. É detetive de filme americano tendo que lidar com o jeitinho brasileiro.
Em 1984, Ed Mort ganhou sua forma definitiva, quando Miguel Paiva passou a desenhar as aventuras do personagem para O Globo, transformando a parceria numa das mais felizes dos quadrinhos nacionais. Lembremos que Paiva já era um dos cartunistas mais importantes do país. Tinha passagem por O Pasquim, trabalhava com publicidade e construiria posteriormente outros sucessos como Radical Chic e Gatão de Meia-Idade.
Seu desenho parecia feito sob medida para Ed Mort. As figuras tinham um exagero quase cartunesco, mas preservavam toda a atmosfera noir necessária para que a sátira funcionasse. A partir dali personagem e desenhista tornaram-se praticamente inseparáveis.
Cinco álbuns que marcaram uma geração
Entre 1985 e 1990, Ed Mort estrelou cinco livros publicados pela L&PM. São eles: Procurando o Silva (1985), Disneyworld Blues (1987), Com a Mão no Milhão (1988), Conexão Nazista (1989) e O Sequestro do Zagueiro Central (1990). Cada volume expandia um pouco mais aquele universo absurdo onde conspirações internacionais conviviam naturalmente com o cotidiano brasileiro.
As histórias brincavam com espionagem, futebol, nazistas fugitivos, milionários excêntricos e femme fatales, sempre filtrando tudo pelo humor característico de Verissimo. Mais do que parodiar romances policiais, Ed Mort acabava satirizando o próprio Brasil.

O sucesso inevitavelmente levou o personagem para além dos quadrinhos. Primeiro, o sujeito migrou para a TV na década de 1980 dentro do humorístico Viva o Gordo, interpretado por Anselmo Vasconcelos. Em 1997, Ed Mort chegou aos cinemas em Ed Mort, dirigido por um Alain Fresnot tentando fazer cinema mais pop e longe do “gueto” dos chamados “filmes de arte”. O protagonista foi interpretado por Paulo Betti, acompanhado por um elenco que incluía Irene Ravache, Cláudia Abreu, Otávio Müller, Maria Alice Vergueiro e Paulo Goulart.
O filme preservava boa parte do espírito nonsense dos quadrinhos, embora buscasse uma narrativa mais convencional.
“Comprei os direitos de adaptação em 1991, depois de ler um álbum em quadrinhos do personagem”, explicou o cineasta, em entrevista na época para a Folha de S. Paulo. “Nas tiras, a estrutura narrativa era de apenas três quadrinhos. A cada 30 ou 40 tiras, a mesma estrutura tende a se repetir, ciclicamente. Achei que cinematograficamente isso não funcionaria de jeito nenhum. Poderia dar um tipo de humor frenético, na linha de Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu, no sentido de uma metralhadora de gags. Não era o que eu queria”.
Ainda demonstrando que seu humor sobrevivia muito bem fora das páginas impressas, Mort teve, antes disso, uma versão em um especial da Rede Globo chamado “Nunca Houve Uma Mulher Como Gilda”, no qual o detetive aqui vivido por Luiz Fernando Guimarães recebe a visita da atriz Gilda Cardoso (Claudia Raia), a protagonista da novela fictícia “A Outra”, e recebe o desafio de descobrir quem é Hilda (também interpretada por Claudia Raia), dublê de Gilda em uma série do mesmo nome da novela, porém de filmes pornôs.
Na mesma época, teve lá sua versão nos palcos, com Nizo Neto vivendo Ed Mort numa peça de teatro. Em 2011, no entanto, o detetive ganhou uma nova chance na TV, numa série de 13 episódios escrita e protagonizada por Fernando Caruso – que gostava de imitar o estilo de Veríssimo, amigo de seus pais, nas redações da escola.
Tudo isso mostra, claro, que Ed Mort nunca dependeu apenas dos desenhos. Dependia da combinação entre texto afiado, timing cômico e personagens absolutamente improváveis.
O que traz a edição da Cyberpulp
A proposta da Cyberpulp Comix vai além de simplesmente reimprimir os cinco livros. A edição reúne os álbuns restaurados, incorpora tiras que haviam ficado de fora das publicações originais, apresenta nova diagramação e acrescenta material inédito, incluindo um prefácio de Miguel Paiva. O volume terá 352 páginas, capa dura e formato ampliado.
Mais do que uma edição comemorativa, trata-se de um trabalho de preservação histórica. Durante muito tempo, parte desse material permaneceu difícil de encontrar, circulando apenas em sebos ou coleções particulares.
Embora jovem, a Cyberpulp Comix vem construindo uma identidade editorial bastante clara. Seu foco está no resgate de obras clássicas, raras ou pouco acessíveis da cultura pop, sempre apostando em acabamento gráfico de qualidade e edições voltadas ao colecionador.

Entre os títulos publicados pela editora estão obras ligadas a Cowboy Bebop, Blues Brothers, além de livros dedicados a Alfred Hitchcock e outros ícones da cultura pop. Ed Mort representa, curiosamente, o primeiro quadrinho nacional da editora. E dificilmente haveria escolha melhor.
Um personagem que continua atual
Reler Ed Mort em 2026 é perceber como certas coisas mudaram pouco. Continuamos cercados por burocracias absurdas, convivendo com pequenas tragédias cotidianas tratadas com humor para que se tornem suportáveis.
Ainda rimos de figuras que tentam parecer muito mais competentes do que realmente são. E talvez por isso Ed Mort continue funcionando tão bem.
Porque era também uma investigação permanente sobre o Brasil. E poucas pistas envelhecem tão pouco quanto essa.
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Cyberpulp Comix
Obrigado pelo post!
Alessio Esteves
Só discordo em um ponto: o detetive mais azarado do Brasil é o Diomedes.