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Que Angra parou e qual Angra vai voltar?

Na última semana, a seminal banda brasileira de heavy metal iniciou o seu hiato por tempo indeterminado – e fica a dúvida mais sobre o COMO do que sobre o QUANDO se dará este retorno

Por THIAGO CARDIM

As duas maiores bandas do heavy metal brasileiro estão desligando os motores – mas em situações que, de alguma forma, diferem tanto quanto a própria sonoridade de ambas. Enquanto o Sepultura entra na reta final do que deve ser uma derradeira turnê, para o encerramento definitivo das atividades, o Angra realizou neste último final de semana (3 de agosto), em São Paulo, aquele que é o seu último show antes de um já anunciado hiato por tempo ainda indeterminado.

“Isso não é um Adeus, é um ATÉ BREVE”, diz o quinteto, em comunicado oficial. “Esperamos que essa pausa não seja longa e que voltemos em breve. Não queremos colocar datas, mas que seja quando tenha que ser”.

Num papo conduzido pelo querido Igor Miranda pra revista Rolling Stone Brasil, o guitarrista Rafael Bittencourt, atualmente o único integrante remanescente da formação original, contou que já vinha falando que queria um tempo para reorganizar internamente. “Estamos vindo de uma corrida muito forte, emendando um álbum no outro, uma turnê na outra”, diz. “Todos estavam desgastados, a ponto de eu farejar que aquilo poderia gerar problema, de acabar minando — com o excesso de trabalho — e pessoas quererem sair da banda. Senti um ar que não era só meu, um certo descontentamento com o desgaste, ainda que não com o Angra em si”.

Seu parceiro desde o começo da segunda fase do grupo, o baixista Felipe Andreoli completa: “Acho que não é uma pausa triste, de uma banda que está em crise e precisa parar porque não está rolando. Acho que o que nos dá a possibilidade de fazer essa pausa é o bom momento em que a gente se encontra. Tomamos essa decisão; não fomos forçados a parar. Tenho certeza de que a volta vai ser muito boa. Vai melhorar o que já está bom. Fazer ajustes e fazer ser mais legal”.

Depois de tantas mudanças de formação, saídas e chegadas, polêmicas e trocas de farpas publicamente e nos bastidores, entre tretas e trutas, a banda que é o epicentro do chamado Angraverso sai de cena. Aparentemente, em paz. Mas é óbvio que já dá pra começar a discutir o possível retorno, desde já repleto de teorias e desejos de sua base de fãs.

Que Angra sai dos palcos… e qual é o Angra que vai voltar?

Apesar de ser fã declarado do maestro Andre Matos e ouvinte devotado do clássico Holy Land, eu nunca cheguei a ver a formação clássica do Angra ao vivo.

Mas boa parte dos anos iniciais de minha carreira como jornalista musical esteve intrinsecamente ligada à segunda formação do Angra, com as chegadas de Andreoli, do vocalista Edu Falaschi e do baterista Aquiles Priester. Estive lá na coletiva de imprensa do anúncio dos novos músicos, entrevistei todos eles uma pancada de vezes, vi uma dezena de shows (tanto da turnê de “Rebirth” quanto do “Temple of Shadows”), estive em estúdio com os caras e até meu nome foi parar nos créditos do ToS.

Além, é claro, de eu ter arrumado uma “briga” um tanto esquisita com o Edu por conta de uma coluna espinhosa que escrevi pra finada AOL Brasil. Mas isso é assunto pra outro dia. 😉

E veja, isso falando apenas do próprio Angra – porque, se a gente fosse considerar o Angraverso em seus muitos desdobramentos, imagina a quantidade de vezes que eu vi o Shaman, então? Shows solo, em festival, abrindo pra outras bandas… Passei quase a me sentir parte integrante do grupo (o fato de que uma pessoa que trabalhava comigo era casada com um integrante da produção deles também ajudava um bocado, rs).

Portanto, como bom fiel seguidor do power metal, o popular metal espadinha, sou igualmente fã do Angra. Ponto.

Mas… pois é, agora vem ele, o fatídico MAS.

“Desde o começo, nunca foi tão agradável estar na banda, tão gostoso trabalhar junto. Isso foi muito difícil de se conquistar e muito importante”, afirmou Rafael, em discurso ao longo do show final pré-hiato. E sim, está claríssimo que esta formação, com ele, Andreoli e a trinca Marcelo Barbosa (guitarrista), Bruno Valverde (baterista) e Fabio Lione (vocalista), está de fato bem integrada, azeitada não apenas musicalmente, mas também do ponto de vista pessoal, o que é fundamental para uma banda funcionar.

Só que este Angra em sua terceira era, e que agora se cala temporariamente, conseguiu de fato encontrar a sua identidade e ser, como eu mesmo disse na resenha do recente disco “Cycles of Pain”, o Angra que PODERIA ser?

Uma frase definidora da minha opinião sobre o álbum – o que faltou aqui, no fim, foi algo do tipo: “somos músicos sensacionais e parece que enfim encontramos a paz. Mas agora, de verdade, para onde vamos? Qual é o próximo passo da nossa evolução conjunta, enquanto BANDA?”.

Uma frase que pode ser aplicada para esta fase 3 do Angra como um todo.

Era muito claro o quanto soavam diferentes as formações do grupo com Andre e Edu como seus respectivos frontman. Apesar de ter uma espinha dorsal claramente Angra, sim, cada uma ganhou uma personalidade própria bastante visível e audível. Com Lione, no entanto, este novo Angra começou a se desenhar nos discos (eu, particularmente, gosto MUITO da urgência quase melodramática de “Secret Garden”), mas jamais conseguiu ganhar corpo nos palcos, ao vivo. E é ali que o negócio faz sentido.

Tá, eu explico.

O que o Angra Nova Era com Edu Falaschi à frente mais fez foi criar sua própria expressão artística, tocando “Rebirth”, “Temple of Shadows”, “Aurora Consurgens”, “Aqua” e por aí vai, por mais controversos que tenham sido os resultados finais – e o restante do repertório era de algumas poucas e inevitáveis interpretações de clássicos da fase Andre Matos. Tá bom.

Mas o Angra da fase Fabio Lione vive muito mais de olho no passado do que, de fato, em seu futuro. O novo material lançado era e continuou sendo absolutamente eclipsado por “Carry On”, “Nova Era” e congêneres. No repertório, as novidades eram a exceção, enquanto a maior parte das faixas era do cantor italiano tentando adaptar os seus vocais às realidades de Matos e Falaschi, geralmente com resultados questionáveis, o que é bastante injusto com alguém que canta tão bem quanto Lione já provou que faz à frente do Rhapsody e afins.

Não bastasse ter que interpretar “Carry On”, Lione tinha que cantar como Andre Matos cantava – e não adaptando a realidade da canção para a sua voz. Não é nem questão de mais ou menos agudo, mas sim cantar DIFERENTES. O estranhamento de boa parte dos fãs, que jamais compraram este “novo Angra”, era nítido e se mantinha (ou mantém?) a cada show.

A culpa é do público, cada vez mais nostálgico e buscando uma banda que foca seus esforços apenas nos êxitos do passado? Olha, em parte é sim. Mas não só. No fim, caberia TAMBÉM à banda a missão de catequizar os seus ouvintes fiéis e provocar a sua audiência.

Quer outro exemplo? A exagerada predileção por turnês comemorativas, sempre com foco em discos clássicos.

Em 2014, foram os 20 anos de “Angels Cry”. Em 2016, foram os 20 anos de “Holy Land”. Em 2022, os 20 anos de “Rebirth”. Entre 2024 e 2025, os 20 anos de “Temple of Shadows”. E, enquanto isso, tivemos o Andre fazendo as suas turnês de “Angels Cry” e “Holy Land” ao mesmo tempo que a antiga banda – e, anos depois, lá estava o próprio Edu competindo com o Angra em suas turnês de “Rebirth”, “Temple of Shadows” e demais clássicos.

No fim, senti falta de ver mais, bem mais, o Angra na pegada que vi ali, no palco do Summer Breeze 2024. Um Angra focado em “Cycles of Pain”. Seu novo disco.

O ponto central: o Angraverso acabou se canibalizando.
E o próprio Angra sofreu um bocado com isso.

De Matos para Falaschi, o Angra renasceu.
De Falaschi pra Lione, o Angra sobreviveu.
O que é algo MUITO diferente.

“O ponto é que vejo que para mudar de patamar — e eu gostaria que o Angra mudasse de patamar, pois a gente tem muito prestígio e respeito de muitas camadas dentro da música, de jornalistas e outros músicos —, acho que precisamos dar uma parada para nos fortalecer. Pensar numa estratégia e se fortalecer ainda mais”, disse o Rafael.

Que patamar é este? Uma banda que brilhe para muito além do nicho metálico brasileiro? Uma banda que chame tanta atenção na Europa e no Japão, por exemplo, como em outros carnavais?

Para mudar de patamar, o Angra precisa soar ANGRA. Um Angra de hoje. E aí…

Quem vem? Quem vai? Quem volta?

O grupo garante que o retorno do hiato, quando quer que se dê, será com a mesma formação atual. Enquanto isso, todos aproveitariam para desenvolver seus próprios projetos – o que, artisticamente, é sempre muito saudável.

Rafael tem não apenas o podcast Amplifica, mas também o seu Bittencourt Project e algumas ideias de um projeto com canções pouco conhecidas de Raul Seixas. Felipe quer lançar um novo disco solo e ainda integra o Matanza Ritual, em plena e efervescente atividade. Marcelo dá aulas e pensa até em retomar o combo de metal progressivo Khallice. Bruno toca no projeto Smith/Kotzen e também no supergrupo Whom Gods Destroy (formado por Ron “Bumblefoot” Thal, Derek Sherinian, Dino Jelusick e Yas Nomura). E Fabio tem se envolvido em projetos revisitando sua carreira com o Rhapsody – ano que vem, já tem turnê tocando o maravilhoso “Dawn of Victory” na íntegra.

O ponto são as muitas teorias da conspiração e pedidos dos fãs. Muita gente aposta, por exemplo, que Kiko Loureiro vai voltar, numa formação com três guitarristas tipo Iron Maiden – coisa que ele mesmo já negou enfaticamente, em diferentes entrevistas recentes, inclusive numa concedida a este que vos escreve para o UOL.

Outra teoria bastante corrente diz respeito a um eventual retorno de Edu Falaschi ao posto do vocalista, agora que finalmente se resolveram (aparentemente) as questões pessoais e também aquelas envolvendo o Angra e seus direitos autorais musicais – numa formação que talvez lembre aquela atual do Helloween, com dois vocalistas (três, no caso, incluindo Kai, sendo que o Rafa supriria bem este papel também).

Se alguém perguntasse PRA MIM, enquanto jornalista musical, mas também enquanto fã da banda, eu de fato preferiria que não, que deixassem de lado este papo de remendar formação. Mas, sinceramente, pouco importa. E não apenas porque não sou eu quem toma qualquer decisão a respeito do Angra, mas também porque é meio óbvio e ululante que o Angra que vai voltar deste hiato precisa mudar o pensamento. Mudar o espírito. Mudar a postura.

Traz Kiko, traz Edu, e continua vivendo de “tempos de ouro”, no fim, de nada vai ajudar. Uma hora passa. Acabam os aniversários de grandes discos. E vai ser necessária muito mais criatividade pra fazer acontecer.

O passado é incrível, mas a gente celebra e não vive apenas dele.

O legado é monumental, mas ele só cresce se a gente continuar construindo e não pendurado nos tijolos já ancorados.

É uma decisão mais sobre o COMO e menos sobre o QUANDO ou mesmo sobre QUEM. E aí… COMO vai ser, Angra?

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