Todo o poder colorido do Boy Magya
Criação do trio Chris Gonzatti, Guilherme Smee e Danverdura, o super-herói brasileiro LGBTQIAPN+ enfrenta uma ameaça extremamente real no seu segundo volume – mas também encara adversidades fora das páginas
Por THIAGO CARDIM
“Um gato todo trabalhado no estilo e bem perfumado, que tenha um sorriso lindo”. Uma boa definição do que é um boy magia vem diretamente da canção de mesmo nome da cantora Valesca Popozuda, de 2016, que ainda completa na letra: “Que entenda do babado / Bem-dotado de ousadia / Que seja bem carinhoso / Mas também tenha pegada / Que saiba fazer gostoso / Que tope qualquer parada”. Mas quando a gente acrescenta um Y na expressão, aí o que era um jeito de definir um pedaço de mau caminho – essa sim, uma expressão que entrega a idade do autor do texto – se torna um alter ego.
Alter ego, no caso, de um doutorando em arqueologia na UFPE chamado Mario – que ganha superpoderes ao encontrar o cristal mágico da Deusa Íris. Eis que então, numa divina mistura de Sailor Moon, Shazam e Lanterna Verde, ele ganha os poderes de materializar qualquer coisa que imaginar. Só que tem um detalhe: para utilizá-los, o Mario precisa estar de bem com a vida, genuinamente feliz e soltando a franga geral (se ele rebolar a raba, o resultado costuma ser ainda melhor). Essa é a divertida ideia por trás do Boy Magya, herói brasileiro criado por Chris Gonzatti (do Diversidade Nerd), Guilherme Smee e pelo desenhista Danverdura.
O Boy Magya surgiu originalmente no gibi independente “Contra o Monstro do Armário”, primeiro volume lançado em 2023 no qual o personagem (que, diferente dos poucos exemplares gays nos quadrinhos de heróis, é um homem afeminado e sem vergonha de dar pinta) não apenas descobria a extensão de suas recém-adquiridas habilidades, mas também combatia o fascismo materializado nos movimentos políticos de apoio ao ex-presidente do país, General Ostra (na brincadeira com o nome do coronel e torturador Brilha Ustra, claramente uma alusão a Bolsonaro, seu principal fã).
O ex-ditador não se conformava com a eleição democrática da presidente do Brasil no universo de Boy Magya, Erika Hilton (sim, ela mesma!) e recorreu ao último monstro do seu armário das trevas para tentar voltar ao poder, uma violenta e gigantesca criatura chamada Gatilho. Mas Mario foi uma criança fanática por cultura pop e, portanto, repleta de referências sobre os mais diferentes tipos de heróis e heroínas – e então, usando seus poderes em uma história que mistura um quê de vigilantes uniformizados Marvel/DC, personagens de anime e uma bela pitadinha de tokusatsu, consegue livrar o mundo das forças retrógradas… por enquanto.
“A HQ é um projeto que visa divertir, ser representativa e, ao mesmo tempo, servir como reflexão sobre a política e a diversidade no contexto brasileiro. É um projeto idealizado por pessoas LGBTQIA+ e 100% desenvolvido por profissionais LGBTQIA+”, explicou, à época, o roteirista e criador, Chris Gonzatti.
Vale lembrar que este primeiro volume esteve entre as dicas de melhores gibis de 2023, aqui mesmo, no Gibizilla.

Uma nova ameaça… muitíssimo real
Agora entendendo que seus poderes podem ser potencializados não apenas pela música pop que coloca o seu astral lá em cima, mas também pela presença carinhosa e empática de seus amigos da Q.U.I.O.S.Q.U.E. (tal qual acontece com a SHIELD, é um acrônimo para Quiosque Utópico de Interesse de Operações para Seres Queer Unidos em Prol do Entendimento), Boy Magya voltou em 2025, em um segundo volume, agora chamado de “Eva Angélico”.
Nesta nova história, Ostra se une a um aliado bastante poderoso e influente, o líder religioso Edi Macêto (espero que você tenha entendido a referência nada sutil), que direciona todo o seu poderio midiático para criar um verdadeiro exército de fundamentalistas religiosos, um tal Exército de Bem, que pretende capturar e curar todos aqueles que eles consideram desviados da religião cristã.
Não te parece familiar?
Te trago uma pequena lembrança: o instituto de pesquisa norte-americano Barna Group, fundado por cristãos, fez um levantamento com jovens de 16 a 29 anos que não frequentam igreja. A pergunta era: qual é a primeira palavra que vem à mente sobre as igrejas evangélicas? “Antigay” foi a resposta de 91% deles. A porcentagem não foi muito diferente entre jovens crentes: 80% responderam o mesmo.
¯\_(ツ)_/¯
O título da nova HQ, que obviamente faz referência não só aos evangélicos mas também a Evangelion (e que pode ser visualmente interpretado também nos robôs de inspiração nipônica que auxiliam os fundamentalistas, os insetoides Louva-a-Deus), fala sobre Eva, uma travesti icônica e importantíssima para a comunidade LGBTQIA+ que, misteriosamente, se anuncia “curada” de sua sexualidade e volta a “ser homem”, assumindo o nome de Angélico e se tornando a face pública do grupo religioso. Mas tem algo por trás desta “mudança”…
A ideia do tal Exército do Bem, no fim, é sacrificar gays, lésbicas e demais integrantes da sigla para trazer ao mundo uma divindade ancestral encerrada há muito tempo no Armário do Ódio. E para enfrentar isso, ao lado das chamadas Forças Amadas (coalizão de LGBTs para distribuir amor, acolhimento e aceitação), o Boy Magya inclusive assume uma nova forma, um Robocop Gay – ao som da canção dos Mamonas Assassinas, uma das muitas faixas da playlist que os autores montaram para que você acompanhe a trama com a trilha sonora adequada.

Mas a luta do Boy Magya também é FORA das HQs
Buscando uma amplificação do personagem, Chris Gonzatti negociou com a editora brasileira IndieVisível Press não apenas para o lançamento do volume 2, mas também para o relançamento do primeiro volume 1, com nova capa e tudo mais. Considerando que estamos falando da editora que tinha acabado de começar a lançar as HQs dos Power Rangers no Brasil e também estava buscando investir ainda mais em quadrinhos nacionais, não poderia ser uma parceria melhor, certo?
Infelizmente, errado. 🙁
Nos últimos meses, a editora se encontra no epicentro de uma crise que parece não ter data para acabar, que começou pelos leitores reclamando de problemas no recebimento de pedidos feitos pelo site da editora ou por meio de campanhas no Catarse (uma busca simples no Reclame Aqui mostra o tamanho do buraco). Logo depois, seria a vez dos quadrinistas nacionais com obras lançadas por eles virem a público em reclamações massivas, falando de atrasos nas entregas e pagamentos, além de diversos problemas de comunicação com a empresa.
E por mais que, em comunicado enviado aos nossos colegas do Fora do Plástico, a empresa tenha afirmado que “está trabalhando para resolver as queixas de artistas e apoiadores da forma mais rápida, eficiente e transparente possível”, isso claramente não aconteceu, à medida que as reclamações se avolumaram.
Com Boy Magya, não foi diferente.
Chris veio à tona nas últimas semanas, em diversos vídeos publicados em suas redes, contando detalhes sobre a luta para que os apoiadores de “Eva Angélico” recebam seus volumes, buscando informações sobre as entregas da HQ e suas vendas, mas encontrando apenas o silêncio da editora. Com a ajuda do advogado Douglas Freitas (ex-sócio da Skript e atualmente à frente da Tábula Editora), entrou na Justiça e conseguiu recuperar os direitos do personagem, para fazer com que ele possa voltar a ser publicado de maneira independente, agora com o selo do projeto Diversidade Nerd (e justamente por isso, os links de compra deste texto não são direcionados para a Amazon, mas sim para o site dele).
Mas as informações seguem, infelizmente, desencontradas – o próprio Chris contou que, durante a sua participação na Poc Con 2025, há alguns meses, muitos apoiadores do gibi via financiamento coletivo vieram pessoalmente revelar não ter recebido o quadrinho ou então recebido pacotes incompletos, sem as recompensas prometidas para apoios maiores. O nosso exemplar, aqui do Gibizilla, nós tivemos a chance de comprar do próprio Chris, como parte de um pacote limitado de HQs enviado pela editora para que ele pudesse estar no evento, depois de muita briga, cobrança e discussão.
Enquanto isso, a IndieVisível Press estava ali, a alguns metros do próprio Chris e de outros autores prejudicados por ela, com um estande na Poc Con, vendendo seus gibis alegre e tranquilamente, como se nada estivesse acontecendo…
Aqui, abaixo, a gente coloca um vídeo feito pelo autor, no qual ele dá mais detalhes a respeito da lamentável situação. Conte com o nosso apoio para continuar trazendo Magya aos gibis! 😀