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Cover: HQ, música, perrengues e requeijão

Batemos um papo com o Mauro de Abreu, roteirista deste divertido gibi baseado em histórias reais sobre as desventuras de uma banda de moleques a caminho de seu primeiro show

Por THIAGO CARDIM

Eu sou daquele tipo de escritor/redator/jornalista que tem zero vergonha de abrir aspas para si mesmo, quando acha que faz sentido. E aqui faz um bocado: “Apesar de ser um apaixonado por música desde que me entendo por gente, eu nunca tive talento para tocar nada. Pra não mentir, além de uma participação especial cantando quatro músicas no show de uma ex-namorada, tive uma banda de covers que durou exatos dois ensaios. Paciência”. Este é o início do prólogo que tive a honra de escrever para a HQ Cover, lançamento dos trutas da Kaiju Editora que é uma mistura das duas artes que mais amo na vida: gibis e música.

“Mas, durante toda a minha vida, sempre estive (e, de certa forma, ainda estou) neste rolê musical ao lado de uma dezena de amigos que tiveram bandas – de hardcore, heavy metal, pop, pagode. Já fui roadie, fotógrafo, relações públicas, empresário (naquelas…). E já estive em tudo que é perrengue junto com as bandas. Porque ter banda é passar por perrengue. Sempre. Justamente por isso, me senti absolutamente em casa lendo Cover. Não só por ser uma história ambientada na minha Baixada Santista. Mas sim por ser um pouco do que vi e vivi com alguns dos meus melhores amigos”, completo eu mesmo.

Batendo um papo com o roteirista Mauro de Abreu a respeito da obra sobre um bando de moleques nos anos 1990 tentando chegar a tempo da primeira apresentação da banda, ele conta que esta história – desenhada por Clayton Inlôco e com tons de cinza e letras de Silas Chosen (sim, ele mesmo, que já escreveu algumas vezes aqui no Gibizilla) – é baseada em uma série de desventuras vividas por ele mesmo e seus amigos da época da adolescência.

“Foi inspirada na minha época de banda” explica ele. “A história da HQ não é uma história que aconteceu linearmente. Tem vários elementos de histórias que aconteceram com a gente. Mas a trama central, de uma banda de adolescentes que precisam chegar no seu primeiro show no Lions Club de Cidade Ocian [bairro da cidade de Praia Grande], isso é verdade”.

Mauro conta que era o baixista da banda batizada de Dungeons e seu irmão era o tecladista – ele tinha 14 anos, seu irmão tinha 12. “Foi um show engraçado, porque a gente foi obrigado a tocar de roupa social, aquela coisa. Era uma coisa de debutante, era muito importante pra menina. É real que a banda do pai dela tocou antes, tiozão de churrascaria, tocava uns rock meio errado”, diz. “A gente era uma galera muito grande nessas histórias, era uma turma, não eram só os cinco, mas também os agregados, os amigos, o roadie… O personagem do [roadie] Xaiminho, ele existiu mesmo, mas representa uns quatro ou cinco amigos meus na história”.

O autor explica que o que tem de mais de diferente entre a HQ e a vida real é, sem dar muitos spoilers, o momento do assalto, quando o grupo fica na pior sem a maior parte dos instrumentos. “Porque eu precisava de algo que fosse um obstáculo muito grande nessa história”. Além disso, tem a questão do guitarrista. Porque Mauro, o irmão, o baterista Leandro e o vocalista Alê existiram. Mas Vitor foi criado especialmente para o gibi. “Eu queria um personagem pra fazer a história andar e, além disso, não estava confortável em ficar de protagonista na história, apesar do Vitão ter um pouco de mim também”. Na banda Dungeons original, passaram pelo menos dois guitarristas – que saíram depois de desavenças e com os quais, no fim, eles nem têm mais contato. Então, digamos que nem foi tão difícil assim. 😉


A banda, no entanto, já não existe faz tempo: na verdade, durou de 1993 até 1998. “Nunca mais tocamos juntos. Mas a amizade persistiu com a maioria. Eu tenho contato com todo mundo, sou amigo-irmão de alguns até hoje, outros a gente não se vê tanto, mas nos damos muito bem. A gente ainda é muito uma turma. A maioria ainda tá por aqui, na Praia Grande ou no ABC, a gente tá sempre se vendo”. E pelo menos dois integrantes – o Leandro batera e o Toni, que foi o segundo vocalista – são músicos profissionais, tocando na noite.

“Quem leu, adorou. Tem coisa ali que eu só transcrevi das minhas memórias. A conversa do requeijão, por exemplo, era real”. Sim, acredite, este é um momento recorrente da história que CLARAMENTE poderia acontecer com qualquer grupo de amigos próximos. “Tudo de verdade. Muitas piadinhas que a gente fazia, estes amigos das antigas bateram o olho e começaram a dar gargalhada”.

No fim, o Mauro diz algo com o qual todo trintão ou quarentão com certeza vai ser identificar: “nós éramos muito bobos”, diverte-se ele. “A gente não era uma galera de fazer coisa errada, mas estávamos sempre metidos em presepada, em encrenca. Era uma válvula de escape pra gente. A gente tocou muito pela Baixada, em Santos, São Vicente, Guarujá, Bertioga…”.

Da vida real pras páginas dos gibis

Mauro explica que, até essa história ser de fato uma HQ, todo o processo demorou bastante. “Eu sempre fui um apaixonado por quadrinhos, minha vida sempre girou em torno disso, mas quando eu saí da faculdade, depois que fiz o Onigomanjhas [Nota do Editor: animação que eu vi nascer, hahaha], acabei montando uma pequena produtora, e trabalhei no audiovisual por 20 anos. E em algum ponto aí, eu fui estudar roteiro”. Ele sempre curtiu cinema e tinha muita vontade de fazer curtas-metragens – e começou a pensar num curta que era esta ideia da banda. “Porque sempre fui fascinado por filmes que se passam num curto espaço de tempo. Não necessariamente em tempo real. Tem um senso de urgência na trama, sempre achei isso muito legal”.

Quando fez o curso de roteiro, um dos objetivos era escrever um longa, e, portanto, ele começou a escrever sério o “Cover” em forma de longa-metragem. “Escrevi assim ¾ do filme, só nunca terminei ele, mas sabia qual era o final. Virou projeto engavetado, ficou, sei lá, uns 10 anos, mexi um pouco”. Mas aí ele já não tinha mais produtora e acabou se voltando novamente pra área de quadrinhos, tendo claramente em mente que esta história podia virar gibi. “Faltava só a oportunidade. E foi quando surgiu o edital Paulo Gustavo, aquela coisa da pandemia, eu comecei a meter mais as caras, decidido a fazer quadrinhos. E acabou desembocando na Kaiju”.

Mauro conta ainda que sempre soube que transpor música pra quadrinho é um negócio complicado. Tanto é que, na ideia original, tinha muito mais música na história, com citações mais diretas a letras, capas de CDs, pôsteres. “Mas conforme fui estudando, acabei percebendo que algumas questões de direitos autorais podem dar problema. A produção da HQ foi muito corrida, mas iam ter páginas decoradas, pra tentar passar a sensação de uma trilha sonora”.

Mas uma conexão que ele enxerga claramente entre quadrinhos e música é que quase todo mundo que ele conhece e faz quadrinhos acaba fazendo isso movido à música. “É engraçado porque meio que cada um tem o seu ritmo, mas a música faz a gente entrar no transe da HQ, porque é um tipo de produção bem solitária. Você precisa da música pra desconectar do mundo e entrar na produção criativa. Sempre vi uma ligação”.

Só que, para além da questão criativa, dá pra dizer claramente que os perrengues de ambas as áreas são muito parecidos. “Tanto com música quanto com quadrinhos, você carrega muito peso, trabalha por pouco dinheiro, as pessoas não te levam a sério”, gargalha o roteirista. “Hoje, na Kaiju, não só como autor, eu vivo um ritmo maluco, de músico, trabalhando final de semana, dormindo mal, cada hora numa cidade. E durante a semana você tá fora dos horários de todo mundo e tem que ficar produzindo enquanto seu corpo se recupera”.

Mas, mesmo assim, assim que terminou de escrever “Cover”, Mauro admite que deu uma vontade louca de continuar contando estas histórias. “Já tenho até o show pra servir de trama”, revela.

Enquanto a continuação não sai, faça o favor de comprar o seu exemplar da HQ lá na lojinha da Kaiju. Porque, como eu mesmo disse no prólogo: se você não tem um amigo que se parece com pelo menos um dos personagens de “Cover”, provavelmente VOCÊ é esse amigo.

Ah, sim, importante. E faça isso ao som das playlists que o Mauro criou. A primeira, com as seis músicas que eles tocaram nesta festa inaugural, reunindo Pearl Jam, Red Hot Chilli Peppers, Alice in Chains, Metallica, Nirvana e Ugly Kid Joe. E a segunda, que segue abaixo, com músicas que embalaram a vida desta molecada na época.

Vale tanto o play quanto a leitura. 😉

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