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Dormindo Entre Cadáveres escancara os bastidores de uma tragédia

Escrita pelo médico Luís Moreira Gonçalves, HQ é um retrato duro e cru de uma cicatriz que permanece até hoje aberta: a pandemia

Por THIAGO CARDIM

Quando o querido Charlinho Xavier – tradutor, fanático por gibis e personalidade humorística do BlueSky – disse que a editora Comix Zone estava prestes a lançar um gibi que tinha potencial de se tornar um “Maus brasileiro”, muita gente achou a comparação com o clássico de Art Spiegelman um exagero. Mas se você mora no Brasil, viveu por aqui entre os anos de 2020 e 2022 e tem um coração batendo no peito, digamos que o impacto de uma obra como Dormindo Entre Cadáveres pode, verdadeiramente, ser comparado ao do relato sobre o holocausto na Segunda Guerra Mundial.

Porque, sim, durante a pandemia de COVID-19, nosso país viveu um genocídio. Ponto. E a não ser que você seja da turma que acredita piamente na realidade paralela de determinado mito, é impossível negar a tragédia que se abateu sobre nós.

Aqui, não temos uma construção antropomórfica que coloca ratos para representar judeus e ratos para serem a figura dos nazistas. O que temos é gente, gente de verdade, gente de carne e osso obrigada a encarar a tragédia da falta de profissionais e equipamentos na linha de frente do combate à devastadora emergência sanitária que se abateu sobre nós. Gente que, mesmo representada no traço por vezes cartunesco de Felipe Parucci (de obras como “Já Era” e “Apocalipse, Por Favor”), nós claramente conseguimos reconhecer.

E nas quais conseguimos NOS reconhecer.

Em tons quase brutais de cinza, o desenho do quadrinista por muitas vezes recorre a uma crueza de linhas quase rascunhadas, com preenchimentos irregulares, dando um tom ainda mais urgente de lembrança dolorosa à narrativa do médico português Luís Moreira Gonçalves. Um homem que atendeu a um verdadeiro pedido de socorro e largou a confortável vida acadêmica em São Paulo para atuar num hospital de campanha em Rondônia. O lugar onde ele olhou nos olhos da morte e, por muitas vezes, pensou em desistir. Da missão e até de si mesmo. Mas seguiu em frente.

As lágrimas por trás das máscaras

Embora impulsionado pela ética do juramento de Hipócrates, Luís tinha experiência quase nula nos corredores de um hospital. Mesmo assim, achou que era sua obrigação tentar ajudar o seu próximo – ainda que ele estivesse a 2.500 km de distância. Teve que aprender muita coisa na marra, desde o dia 1, fazendo na prática, em meio à pressão de uma equipe reduzida, centenas de pessoas assustadas com o que poderia acontecer e à falta da mais básica estrutura, entre medicamentos e equipamentos.

Imerso em plantões que chegam a ultrapassar as 30h ininterruptas de trabalho, Luís treinava nos muitos cadáveres que ali se acumulavam para se aprimorar na intubação – coisa que jamais tinha feito na vida. Ao se ver suando diante de uma pessoa pedindo para não morrer, ele decidiu que precisava buscar uma versão melhor de si mesmo, ainda que também fosse um ser humano e tivesse medo de ser infectado e morrer.

“Dormindo Entre Cadáveres” é uma história tão impactante não apenas por ser o retrato de algo que, se não aconteceu conosco, com toda a certeza aconteceu bem perto de nós (eu mesmo que vos escrevo perdi nada menos do que cinco pessoas próximas para esta doença infernal), mas também por mostrar os bastidores muitas vezes invisíveis de quem estava ali, lutando para evitar entrar no mesmo colapso no qual o sistema de saúde – em especial na região Norte do país – vivia às beiras.

Ele mostra como os médicos são diferentes entre si – incluindo negacionistas, terraplanistas e que, pasme, viviam eles mesmos à base de ivermectina e cloroquina; os incômodos de se encontrar um lugar para cochilar no hospital em meio às rotinas exaustivas; as poucas oportunidades de sorrir em meio ao sofrimento, criando um pequeno oásis regado a bolo e refrigerante.

E sim, ele também mostra os pesadelos. Causados principalmente pela obrigação de ter que dar notícias terríveis aos familiares de cada uma daquelas pessoas. Pesadelos envolvendo centenas de covas abertas – e com os seus próprios rostos clamando por ajuda naquelas macas.

Por tudo isso, sim, fica claro que “Dormindo Entre Cadáveres” está longe de ser uma leitura fácil. É uma HQ dura, indigesta, intensa. Te faz arrepiar, te faz chorar, te traz lembranças de um período que nenhum de nós imaginou possível de ser vivido.

“Ah, mas ninguém aguenta mais falar sobre a pandemia”, perguntou-se o próprio médico, quando teve a ideia de colocar em palavras tudo que aconteceu naquele período. Pois deveria. Pois os principais responsáveis por tudo que aconteceu ainda estão aí, à solta, alguns deles sendo julgados por questões bem diferentes, enquanto outros seguem absolutamente impunes, engravatados em seus carros importados e imensas coberturas.  

“Pandemia é um negócio muito louco, parece que aconteceu há tanto tempo que eu nem lembro”, diz uma das personagens em certo momento no início da trama (e repetindo algo que muitos de nós devemos ter ouvido algumas vezes). Mas o ponto é que não foi apenas um período em que nos lembramos das ruas desertas, das lives, de gente fazendo receitas de pão em casa, devorando séries obscuras no streaming ou tentando encontrar formas de treinar no meio da sala. E tampouco foi um “teste” ou “aprendizado” para que a humanidade se “unisse” e “encontrasse o seu melhor”.

Não. A pandemia foi dor. Foi sofrimento. Foi trevas. Foi uma cicatriz enorme que permanece até hoje aberta. E que pode voltar a sangrar a qualquer momento.

“Dormindo Entre Cadáveres” é um destes documentos que ajuda a lembrar. Para nunca esquecer. E para tentar evitar que se repita mais uma vez.



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