Angoleiro – A Caminho das Nuvens: quando a ginga vira narrativa gráfica
Novo lançamento da Kaiju é um lembrete, em forma de HQ, de que cultura popular nunca pediu permissão pra existir – e nunca precisou
Por THIAGO CARDIM
“A capoeira, assim como outras manifestações das culturas africanas e afro-brasileiras, sempre foi de alguma maneira cerceada, invisibilizada e perseguida”, disse Valdenor dos Santos, jornalista e mestre de capoeira há 50 anos, em entrevista ao Jornal da USP. Ele inclusive lembra que, apesar de ser uma expressão cultural 100% brasileira (criada no Brasil colonial ainda no século XVI, como forma de resistir e se proteger da violência), a capoeira chegou a ser oficialmente proibida por aqui. Até a abolição da escravatura, a lei punia quem fosse encontrado praticando capoeira com 200 açoites e calabouço.
Mesmo depois da abolição, aliás, o Código Penal Brasileiro AINDA considerava a capoeira ato criminoso, punindo com prisão de até seis meses seus praticantes e um ano o cidadão que fosse visto como liderança de grupos capoeiristas. A capoeira, portanto, era coisa de “vagabundo”, associada à vadiagem, à desordem e à ameaça à “civilização” – sendo enfim legalizada somente em 1937, por Getúlio Vargas.
Da mesma forma, durante décadas (e, bom, um tanto ainda agora também), os quadrinhos foram considerados uma arte “menor”, feita por quem não queria arrumar um “emprego de verdade”, que não virou adulto de fato. “O quadrinho ficou relegado a uma baixa cultura, era entendido como um produto que não tinha relevância intelectual”, explica Bruno Alves, quadrinista, produtor e professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, numa reportagem da revista O Grito!. Como já falamos algumas vezes por aqui, gibis foram acusados de emburrecer, corromper, infantilizar. Arte menor. Subproduto. Lixo cultural.
Nada mais justo (e nada mais poderoso, portanto) do que ver essas duas histórias de resistência se encontrando em Angoleiro – A Caminho das Nuvens, nova HQ nacional publicada pelos nossos amigos da Kaiju Editora. Porque Angoleiro não é apenas uma história em quadrinhos. É também um gesto duplamente político. Um lembrete de que cultura popular nunca pediu permissão pra existir… e, na real, NUNCA precisou.

A HQ conta a história de Marcos, que depois de muitos anos retorna para o lugar onde cresceu, o Quilombo das Nuvens, para rever sua gente e se despedir de seu mestre, mas o futuro do quilombo pode estar em risco e para não botar tudo a perder será preciso muita ginga e sabedoria. No Quilombo, ele revê velhos amigos e se depara com Galego, um antigo morador da comunidade que alicia os moradores para que vendam suas casas para uma construtora. Na linha de resistência está Nina, a atual líder comunitária do Quilombo e filha do Mestre Angoleiro Nego Vento.
Estamos falando da trajetória de um capoeirista que precisa lidar com heranças, perdas e escolhas enquanto atravessa não só espaços físicos, mas também simbólicos. A capoeira não aparece como pano de fundo exótico ou folclórico, mas como estrutura narrativa, linguagem corporal e ferramenta de leitura do mundo.
Mas afinal: o que é um Angoleiro?
“Angoleiro” é quem pratica a chamada Capoeira Angola, vertente mais tradicional da capoeira, profundamente ligada à ancestralidade africana, ao jogo baixo, à malícia, à musicalidade e à filosofia do corpo como memória.
No trabalho “EU SOU ANGOLEIRO”, desenvolvido para a Universidade Federal de Uberlândia, o pesquisador Lucas Machado Goulart explica que a capoeira surge no Brasil a partir da interação entre diversos grupos étnicos, sobretudo os de origem africana. A Capoeira Angola, sua vertente mais tradicional e ritualística, dispõe de um universo simbólico bastante peculiar que a caracteriza e diferencia. Os angoleiros, durante o jogo da capoeira, deixam transparecer não apenas suas habilidades, mas também suas identidades, num diálogo de corpos onde os movimentos podem dizer mais que qualquer palavra.
“A necessidade de diferenciação se dá a partir do momento em que a capoeira regional é criada e difundida, e apresenta-se como uma forma de afirmação e resistência daqueles que se identificavam com a capoeira tradicional, aquela praticada antes da criação da capoeira regional, denominando seu estilo, angola”, explica o autor. “Seja pelo uniforme, pela forma de se movimentar durante o jogo, pela ideologia, ou mesmo pela disposição da bateria, capoeiristas de determinados grupos ou linhagens possuem características em comum, existindo entre eles uma identidade coletiva que os aproxima, bem como, se comparados com outros, algumas diferenças serão notadas. É no corpo do angoleiro que a identidade e a diferença imprimem suas marcas mais significativas, evidenciando-se a partir de um diálogo corporal onde os movimentos podem dizer mais que qualquer palavra”.
Ele reforça ainda que, ao se observar uma roda de capoeira angola, não raro, podemos identificar alguns símbolos que fazem parte desse universo, tais como dreadlocks, turbantes, pulseiras e boinas. E isso importa muito quando falamos de representação cultural – porque uma obra como Angoleiro não transforma a capoeira em coreografia bonita pra gringo ver. Ela aparece como prática viva, cheia de contradições, conflitos e história.
Quem está por trás da roda: Rodrigo Piovezan e Amilton Santos
O roteiro é de Rodrigo Piovezan, que participou das coletâneas Just One Page (UK) e Inkshot (USA), esta última publicada pela editora Monkeybrain. Entre 2013 e 2023, participou da curadoria e organização da Santos Comic Expo, evento santista de cultura pop com espaço bem interessante voltado para as histórias em quadrinhos. Em 2021, foi um dos criadores da SCE Edições e da Revista Guerreiro, onde atuou como coeditor e escritor.
Já a arte é do também santista Amilton Santos, com um traço que dialoga com movimento, ritmo e peso. Nesses 21 anos de estrada, já trabalhou com títulos para as grandes editoras gringas, como Homem-Aranha, Vingadores e Aves de Rapina, além de colaborar com revistas independentes nos EUA e no Brasil.
Em resumo, Angoleiro não é uma HQ “limpa” no sentido pasteurizado do termo. O desenho respira. Sua composição entende que a capoeira acontece entre golpes, nos vazios, nos olhares e nas esquivas. É uma HQ que se lê quase como se assiste a uma roda.
Capoeira e quadrinhos: uma tradição que vem de longe

Essa HQ não surge do nada. Ela dialoga com uma linhagem importante de obras brasileiras que já entenderam a força da capoeira como narrativa gráfica – a começar pelo mais do que clássico Meia-Lua, o Rei da Capoeira, criação do mestre Julio Shimamoto. Lançado na antológica revista Kiai (números 2, 3 e 4), editada pela curitibana Grafipar, no começo da década de 1980, o personagem tenta surfar na onda das HQs de artes marciais. Na história, Murilo “Meia-Lua” vive em uma favela no Rio de Janeiro, tendo ficado órfão junto com seus três irmãos. Sobrevivendo de pequenos bicos e uma ou outra jogada, procura conduzir sua própria vida e de seus irmãos sem se envolver com o banditismo.
Já por volta do começo da década de 1990, Flávio Luiz criou o seu Aú, o Capoeirista, com foco no público infantojuvenil. A origem do personagem remonta a um concurso, promovido na capital baiana de Salvador pela escola Aliança Francesa, chamado Bandes Dessinée – quadrinhos franco-belgas, com trabalhos de grandes nomes do quadrinho europeu e convidando brasileiros (como Flávio Luiz), para participar. Ele começaria a ser publicado apenas em 2008, com histórias soteropolitanas repletas de aventura, humor e consciência ecológica mostrando o cotidiano do capoeirista adolescente Aú e seu inseparável amigo, o macaquinho Licurí.
O número 2, Aú, o capoeirista e o Fantasma do Farol, foi lançado em 2014, com uma pegada um pouco mais na linha de mistério – e chegou a ser homenageado com o prêmio HQMix de 2015 como “melhor publicação infanto juvenil”.
Dez anos depois, em 2024, a Veneta lançaria o primeiro volume da coleção Patrimônio Gráfico — que integra o programa Brasil em Quadrinhos, da Bienal de Quadrinhos de Curitiba e Instituto Guimarães Rosa —, batizado de Campo de Mandinga. A obra do ilustrador, quadrinista e capoeirista mineiro Felipe Maldonado utiliza de elementos estruturais da capoeira para tecer uma ligação entre Brasil e Guiné-Bissau, na vila de músicos Tabató, onde vive o povo mandinga.
Na trama, o jovem Bakar é um habitante da Tabanka de Tabató, região habitada pelo povo mandinga. Ao entrar em contato com uma cultura muito distante da sua por meio da prática de capoeira, Bakar e seu mestre João levam o leitor a uma viagem de autoconhecimento.
Para completar, vale ressaltar também um casamento pouco usual entre capoeira e mangás, carregando consigo a tradição de HQs japonesas com foco em esportes. Estamos falando de Ginga, de Paulo Marcello, publicado pelo Estúdio Armon (primeiro em formato digital, depois numa versão impressa financiada coletivamente).
Na história, Madson é um jovem rapaz que sempre teve dificuldade em controlar sua raiva, causando assim, diversos problemas para sua família. Certo dia, andando pela orla de Salvador, ele conhece Dunga, um mestre de capoeira que poderá guiá-lo no caminho da disciplina e paz interior… Isso é, se a consciência de Madson permitir que o garoto fuja das tentações financeiras clandestinas.
Além disso, o tema já foi amplamente discutido em espaços acadêmicos, como nas Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos (2015), e em pesquisas do Instituto Federal da Paraíba e da Universidade Estadual do Piauí, que analisam a capoeira nos quadrinhos como ferramenta cultural, educativa e política.
Ou seja: não é moda, mas sim continuidade.
Por que você deveria ler Angoleiro – A Caminho das Nuvens
Porque é uma HQ brasileira que entende o Brasil.
Porque respeita a capoeira sem engessá-la.
Porque trata cultura popular com seriedade, não com exotismo.
Angoleiro – A Caminho das Nuvens não é só uma HQ sobre capoeira. É uma resposta direta a um país que sempre tentou higienizar sua própria história, criminalizando corpos negros, saberes populares e qualquer forma de conhecimento que não passasse pelo crivo da elite branca letrada. A capoeira foi perseguida porque ensinava autonomia. Os quadrinhos foram desprezados porque ensinavam imaginação fora do controle. Hoje, quando ambas se encontram, o recado é claro: cultura não pede licença: ela sobrevive, se adapta e ataca de volta.
Ler Angoleiro é um gesto político num Brasil que ainda trata tradição popular como folclore decorativo e insiste em chamar elitismo de rigor intelectual (acabamos de passar pelo Carnaval, portanto, creio que isso ficou ainda mais claro). É reconhecer que educação, memória e pensamento crítico também nascem na roda, no traço, na ginga e na narrativa gráfica. Quem desqualifica isso não está defendendo qualidade cultural, mas sim apenas privilégio.
E privilégio, a gente sabe, sempre teve medo de quem aprende a se mover fora das regras impostas.
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Angoleiro – a Caminho das Nuvens integra o projeto contemplado no edital Fomento CULTSP PROAC n°01/20224 – Realização e Publicação de Obra Inédita de HQ no Estado de São Paulo, em parceria com o Movimento Cultural Penha.
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Patrícia Freire
Parabéns pelo texto. Contextualização e conexões muito boas!