Dragonbane: RPG escandinavo chega ao Brasil
Crie personagens em minutos, explore o Vale Enevoado e enfrente dragões, demônios e cultos sombrios. Saiba por que este clássico de 40 anos ainda redefine a fantasia nas mesas
Por THIAGO CARDIM
O mundo dos RPGs de mesa ganhou, nas últimas semanas, um novo foco de atenção no Brasil: Dragonbane. Originalmente lançado na Escandinávia em 1982 como Drakar och Demoner, este RPG clássico de fantasia está agora disponível para jogadores brasileiros por meio de uma campanha de financiamento coletivo organizada pela Tria Editora, trazendo regras modernas, aventuras épicas e um sistema que mistura brutalidade e agilidade.
Dragonbane se passa no Vale Enevoado, um território escondido entre montanhas, cheio de mistérios, antigas ruínas e criaturas lendárias. Humanos, anões, elfos, dragões e demônios coexistem nesse mundo, e os jogadores são convidados a explorar suas histórias, enfrentar monstros, desvendar cultos sombrios e viver aventuras que podem variar de sessões rápidas a campanhas longas.
A proposta do jogo é clara: oferecer uma experiência de fantasia intensa e mortal, mas sem complicações desnecessárias. Cada sessão é construída para ser dinâmica, desafiadora e ao mesmo tempo divertida, permitindo que momentos de tensão alternem-se com pitadas de improviso e humor, sem travar o fluxo da narrativa. Em resumo? Vai ter pancadaria SIM. Mas também vai ter espaço pra se divertir com o bom e velho roleplay.
Diferente de um Dungeons & Dragons
É, eu sabia que você, que não conhece o jogo, com certeza estaria se perguntando isso. Porque, apesar de Dragonbane se enquadrar na tradição de RPGs de fantasia vindos da clássica tradição tolkieniana, ele se distingue de títulos como o clássico Dungeons & Dragons por algumas características centrais:
– Sistema modular: cada grupo usa apenas as regras que deseja, incluindo ou descartando opções opcionais.
– Evolução orgânica de personagens: não há níveis fixos; habilidades e perícias evoluem conforme são usadas.
– Foco na narrativa e exploração: o combate é apenas uma parte da experiência, que privilegia viagens, sobrevivência e resolução de problemas.
– Criação rápida e intuitiva: personagens podem ser criados em poucos minutos, sem a necessidade de cálculos complexos ou maximização de atributos.

O sistema de testes é simples: um d20 define o sucesso ou falha em perícias, enquanto outros dados determinam dano e efeitos. Momentos críticos são marcados por “Rolar um Dragão” (sucesso excepcional) ou “Rolar um Demônio” (falha crítica), trazendo tensão e imprevisibilidade a cada jogada.
Importante reforçar aqui, no entanto, que Dragonbane oferece recursos que equilibram simplicidade e profundidade. Pontos de Determinação permitem que personagens utilizem habilidades inatas ou magias de forma estratégica; a magia é dinâmica e flexível; armaduras apenas reduzem dano em vez de oferecer defesas abstratas de acordo com o nível; esquivas e aparos podem alterar completamente o curso de um combate; e lesões graves podem gerar consequências duradouras, tornando cada ação significativa. A iniciativa muda a cada rodada, mantendo o combate imprevisível e empolgante.
O sistema também permite que jogadores iniciantes mergulhem nas aventuras sem receio. Com regras claras e livres de complexidade desnecessária, o jogo garante experiência completa desde a primeira sessão, com material de apoio em PDF para agilizar a adaptação de novos jogadores. A ideia é que Dragonbane seja altamente acessível. Jogadores que nunca tiveram contato com RPGs de mesa podem começar sem dificuldades, graças à clareza das regras, à modularidade do sistema e ao material de apoio em PDF, que permite sessões rápidas e diversão imediata. O jogo também recompensa a criatividade e a improvisação (o que deveria meio regra básica de TODO E QUALQUER RPG DE MESA, mas enfim, a gente luta uma batalha de cada vez), tornando cada campanha única.
“Mecanicamente, Drakar och Demoner tem suas origens nos conjuntos de regras dos primeiros RuneQuest, e ainda existem alguns resquícios disso neste jogo, 40 anos depois”, diz o autor original, Tomas Härenstam . “É um sistema baseado em rolagem de dados para determinar o valor de um dado, mas usando um D20 em vez de um D100”.
Um pouco de história (como de costume, né)
Dragonbane nasceu como Drakar och Demoner em 1982, consolidando-se como o maior RPG da Escandinávia e influenciando a criação de sistemas modernos como o Year Zero Engine, desenvolvido pelo mesmo autor. “Drakar och Demoner era como o D&D da Suécia, mas baseado nos primeiros designs da Chaosium – a primeira edição era uma tradução do jogo deles, Fantasy World”, explica o próprio Tomas, em entrevista pro Geek Post. “Drakar och Demoner passou por muitas edições desde então, e esta nova edição é tanto uma homenagem ao passado quanto um design moderno, influenciada por nossas próprias filosofias de design de jogos da última década de criação de RPGs”.
Ele explica que o seu maior desafio no desenvolvimento do jogo foi manter o foco e ser fiel à sua visão para o jogo. “E não tentar incluir todas as coisas legais que você consegue imaginar – isso só levará a um jogo inchado e sem foco”.
Mais de 40 anos depois, a Free League Publishing revisitou e atualizou o jogo, trazendo-o a públicos internacionais – a empresa, sediada em Estocolmo, Suécia, é responsável pela versão internacional do RPG, reconhecida com o Ennie Awards por excelência em design de jogos de mesa. “Nós, da Free League Publishing, acreditamos firmemente que os jogos devem ser para todos; de todas as classes sociais, de todos os cantos do mundo e de qualquer origem. Os jogos, e os RPGs em particular, são uma ferramenta poderosa para criar e visitar mundos maravilhosos na imaginação. Queremos que todos tenham essa oportunidade, sem exceção”, afirmam eles, em sua declaração de intenções oficial. “Nossos jogos são concebidos para serem usados em um espírito de inclusão e igualdade. O conteúdo dos nossos jogos pode, por vezes, ser sombrio e explorar temas adultos, mas à mesa devemos sempre tratar uns aos outros com respeito e sensibilidade”.
Um detalhe importante sobre a editora, aliás: “A Free League Publishing é construída pela criatividade e habilidade humanas, e pretendemos mantê-la assim. As ferramentas de IA, e especialmente a arte gerada por IA, apresentam questões éticas que ameaçam o sustento de profissionais em nosso pequeno setor. Portanto, a arte gerada por IA não é e não será usada nos produtos da Free League, e atualizaremos nossos contratos com artistas para refletir essa posição daqui para frente. Nossos criadores são importantes para nós, para nossos jogos e para a comunidade. Nossos livros e jogos continuarão a refletir isso, sem o uso de IA”.
Já gostamos. <3

A versão de Dragonbane que chega agora ao Brasil traz todo o material traduzido e adaptado. A Tria Editora (do trio Bruno Mares, Calvin Semião e Rafael Tschope) conduz o financiamento coletivo brasileiro, trazendo experiência consolidada em publicações de RPG, proximidade com a comunidade e atenção ao cuidado editorial, garantindo que livros, mapas e acessórios cheguem em alta qualidade aos apoiadores.
Mas e sobre os patos?
Ah, sim, Dragonbane tem este detalhe fundamental, que o criador Tomas faz questão de reforçar: “E você pode interpretar um pato! Nunca se esqueça dos patos – eles fazem parte da história de Drakar och Demoner desde o início dos anos 80”. Pois é, uma das raças que existem no jogo são os mallards, patos antropomorfizados cheios de atitude na mesma pegada da Família Pato da Disney. E, como você deve imaginar, uma das raças favoritas dos fãs de Dragonbane. Ou quase isso. “Por vezes, eles foram um elemento controverso, sujeito a intensos debates. No fim, acreditamos firmemente que os patos são parte do que faz com que Drakar och Demoner/Dragonbane se destaque entre outros RPGs de fantasia”, explica o autor em entrevista pra EN World.
Como diz o próprio livro a respeito deles…
“A origem dos mallards está envolta em mistério. Alguns estudiosos afirmam que eles vieram de um poderoso reino insular que foi engolido pelo mar há milhares de anos; outros acreditam que sejam o resultado de uma experiência mágica fracassada. Seja qual for a verdade, esses humanoides emplumados são uma visão comum no mundo. Eles têm um talento especial para o comércio, e seu grasnar agitado muitas vezes faz parte da paisagem sonora ao redor de mercados e caravanas comerciais. No entanto, alguns mallards buscam fortuna como bandidos, piratas ou mercenários. Apesar de seu tamanho diminuto, são ferozes em batalha e temidos por muitos por sua fúria assassina”.
Por que Dragonbane importa
Dragonbane não é apenas mais um RPG de fantasia: ele representa uma tradição escandinava, refinada e premiada, que combina história, estratégia e narrativa. Sua chegada ao Brasil expande ainda mais nosso panorama de jogos de mesa, oferecendo experiências profundas tanto para veteranos quanto para iniciantes e permitindo uma compreensão de que, vejam vocês, RPG não é apenas Dungeons & Dragons.
A campanha de financiamento coletivo é uma oportunidade de garantir livros, aventuras e acessórios exclusivos, e de participar de um projeto que valoriza o jogador como parte da comunidade. Se você busca aventuras épicas, mecânicas ágeis e um sistema que mistura brutalidade, magia e improviso, Dragonbane é uma ótima escolha para revitalizar suas mesas de RPG.