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Perigos & Princesas mostra que contos de fadas também podem ser excelentes RPGs

Lançamento da Tria Editora transforma princesas em protagonistas de aventuras cheias de dragões, masmorras e magia, provando que fantasia medieval pode ir muito além dos velhos clichês do gênero

Por THIAGO CARDIM

Durante muito tempo, o RPG de fantasia viveu preso a um conjunto de imagens de origem tolkieniana bastante específico. Um guerreiro de espada enorme. Um anão barbudo. Um mago de túnica. Um ladrão de capuz. Todos entrando em uma masmorra para derrotar monstros e sair carregando um baú de ouro.

É uma fórmula que continua funcionando, sabemos bem disso — basta olhar para a popularidade de Dungeons & Dragons até os dias de hoje. Mas também é uma fórmula que, aos poucos, vem sendo reinventada por uma nova geração de autores independentes.

Nos últimos anos, jogos como Wanderhome, Ryuutama, Mausritter, Beyond the Wall e tantos outros mostraram que fantasia não precisa ser apenas sobre combate. Ela também pode falar de amizade, descoberta, crescimento, comunidade e esperança.

É justamente nesse movimento que se encaixa Perigos & Princesas, RPG criado originalmente por Ryan Lynch, da Outrider Creative, que acaba de ganhar edição brasileira pela Tria Editora após uma campanha de financiamento coletivo bem-sucedida no Catarse, superando rapidamente sua meta inicial.

Mas não se engane pelo nome. Este não é um RPG sobre esperar um príncipe chegar. É justamente o contrário.

E se as princesas fossem as protagonistas da aventura? Não as pessoas a serem resgatadas, mas quem pega a espada, reúne o grupo e resolve o problema?

Quando as princesas resolvem salvar o reino

A ideia central de Perigos & Princesas parte de um arquétipo conhecido por praticamente qualquer pessoa. Você conhece essas princesas: as que foram trancadas em torres, conversam com animais, fugiram para a floresta, enfrentaram madrastas perversas, receberam presentes mágicos de fadas, etc, etc. e mais etc. Só que, em vez de terminar a história no tradicional “felizes para sempre”, o jogo pergunta: e depois?

Quando surgem novos monstros, novas florestas amaldiçoadas e novas ameaças, quem disse que as princesas não podem ser justamente aquelas que empunham espadas, exploram ruínas antigas e enfrentam dragões? O jogo transforma personagens tradicionalmente colocadas como objeto da narrativa em protagonistas absolutos da aventura.

E faz isso sem abandonar a estética dos contos de fadas. Há castelos, bosques encantados, bruxas, feiticeiros, criaturas mágicas, objetos encantados e demais itens usuais dos contos de fadas. Mas tudo é visto por outro ponto de vista.

Muito Miyazaki, um pouco Zelda e bastante OSR

Embora seja fácil associar o jogo ao universo Disney, suas inspirações parecem muito mais amplas. Existe muito de Hayao Miyazaki em seu olhar para a fantasia: há ecos evidentes de A Princesa Mononoke, O Castelo Animado e A Viagem de Chihiro. Também aparecem influências de The Legend of Zelda, especialmente na combinação entre exploração, mistério e fantasia luminosa.

Ao mesmo tempo, o jogo conversa bastante com a filosofia OSR (Old School Revival). Ou seja: regras leves, criatividade acima de fichas complexas e foco nas soluções imaginativas dos jogadores. Em vez de construir personagens extremamente otimizados, Perigos & Princesas aposta em personagens marcantes.

Cada princesa possui, além de atributos ligados à Determinação, Graça e Astúcia – três pilares que definem tanto sua personalidade quanto suas capacidades diante dos desafios – os dons concedidos por sua Fada Madrinha, que se manifestam de formas poéticas e poderosas. Dá para invocar a ajuda de animais da floresta, conjurar melodias encantadoras que acalmam feras ou dobrar os elementos da natureza a seu favor.

Além disso, aquele clássico gerenciamento de inventário é vital: carregar poções curiosos, cogumelos místicos e relíquias arcanas encontradas pelo caminho pode ditar a linha tênue entre a salvação e o esquecimento.

Um sistema que privilegia a narrativa (GRAÇAS ÀS DEUSAS!)

As regras acompanham essa proposta, porque o sistema é bastante enxuto, evitando longas listas de perícias ou cálculos complicados. As personagens são definidas por poucos atributos, presentes mágicos, equipamentos e habilidades especiais.

Feito para 1 a 5 jogadores (além do mestre), ele utiliza uma mecânica minimalista e elegante baseada em dados de 20 faces (d20). O núcleo do jogo gira em torno de testes onde você deve rolar abaixo do valor do seu atributo (Roll-Under) para ter sucesso. O sistema utiliza apenas 3 Atributos básicos, o que torna a criação de fichas extremamente rápida e a jogabilidade muito fluida, ideal para manter o foco na história e nas escolhas criativas dos jogadores.

A ideia é permitir que a história avance rapidamente, deixando espaço para que o grupo improvise soluções criativas em vez de consultar tabelas a cada cinco minutos. É um RPG pensado para ser acessível a iniciantes, mas sem parecer simplificado para veteranos.

Na prática, ele lembra uma tendência que vem crescendo no RPG independente: regras suficientes para sustentar a aventura, mas nunca tantas a ponto de sufocar a imaginação. Mais do que rolar dados, o mestre incentiva que as princesas negociem com criaturas, usem disfarces ou criem planos mirabolantes.

Mas… fica aqui um alerta. Quem já teve a chance de ler os contos de fadas originais dos Irmãos Grimm, por exemplo, sabe o quanto eles podem ser BRUTAIS. Na prática, portanto, embora o visual e a temática tragam todo o encanto dos livros de histórias, os monstros não perdoam. Fracassar em um confronto sério ou em uma armadilha cruel não tira apenas pontos de vida: pode deixar sequelas profundas, como ferimentos persistentes, traumas duradouros ou maldições terríveis que deixam sua Princesa atordoada e exausta.

Um sucesso entre os RPGs independentes

Lançado originalmente pela Outrider Creative, Perils & Princesses rapidamente conquistou espaço entre os RPGs independentes.

O jogo mantém avaliação máxima entre seus compradores na plataforma itch.io, recebeu dezenas de análises extremamente positivas e formou uma comunidade ativa que produz aventuras, personagens e material complementar sob uma licença aberta criada pelos próprios autores.

Boa parte desse entusiasmo vem justamente de sua proposta, porque ele não tenta competir com Dungeons & Dragons, preferindo ocupar um espaço próprio.

Como será a edição brasileira?

A Tria Editora apostou numa edição bastante completa: além do livro básico, a campanha trouxe aventuras inéditas em português, fichas impressas, escudo do mestre, mapas, dados personalizados e diversos acessórios para quem pretende mergulhar no cenário.

Como vem acontecendo em outros projetos da editora, a localização também preserva o tom leve e bem-humorado do original, tornando o material especialmente convidativo para grupos familiares, novos jogadores e mesas interessadas em uma fantasia menos sombria e mais aventureira.

Importante reforçar que, nos últimos anos, a Tria Editora vem se consolidando como uma das editoras mais interessantes do RPG brasileiro.

Depois de publicar títulos como Dragonbane, Shadow of the Demon Lord, Mazes, e Distopia, a editora parece cada vez menos interessada em oferecer apenas “mais um RPG de fantasia medieval”. Seu catálogo aposta em experiências bastante diferentes entre si, com a tal da fantasia clássica, mas também com horror, ficção científica, sobrevivência e por aí vai.

E agora também contos de fadas. <3

Mais do que um RPG de princesas

Existe uma tentação de resumir Perigos & Princesas como “o RPG das princesas”, o que seria injusto. Porque a ideia é mais sobre pegar uma mochila, reunir boas companheiras de aventura e descobrir o que existe além da floresta. No fim das contas, talvez essa seja justamente a maior qualidade de Perigos & Princesas.

Ele lembra algo que os próprios contos de fadas já sabiam há séculos, mas que boa parte da fantasia moderna acabou esquecendo: às vezes, quem salva o reino nunca precisou ser um cavaleiro. 😉

Comments
  • Para de me fazer querer gastar dinheiro, por favor.

    10 de julho de 2026

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