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A realidade mais densa dos Lanternas

Dando uma roupagem “dura” a um dos panteões mais cósmicos e coloridos de heróis da DC Comics, a série do HBO Max acerta em cheio na construção deste John Stewart versão live-action   


Por THIAGO CARDIM


Olha só, eu juro que entendo a questão de alguns fãs de gibis com o conceito da série dos Lanternas – aquela coisa de ter “medo” de se assumir uma história de hominho, de deixar as cores de lado em prol de uma abordagem mais “séria”, “real”, “sombria”. Uma coisa meio, digamos, Christopher Nolan, meio Zack Snyder.

Isso também me incomodava um tantinho…, mas, ao mesmo tempo, a ideia de fazer algo meio True Detective (ou, neste caso, mais até Dia de Treinamento, conforme a história vai deixando cada vez mais claro) com a dupla Hal Jordan e John Stewart me soava tão interessante, criativa, fora da casinha… Dei o benefício da dúvida, portanto.

Pois três episódios depois, bingo, a trinca Chris Mundy, Tom King e Damon Lindelof me pegou EM CHEIO e mostrou que o seu plano estava acertadíssimo (ainda mais com o roteiro certeiro de Vanessa Baden Kelly).

A Tropa dos Lanternas Verdes é, antes de tudo, uma organização POLICIAL espacial, coordenada pelos imortais Guardiões de Oa. Sim, eles têm anéis energéticos que manifestam construtos feitos de energia verde a partir de sua imaginação/força de vontade. Mas são, antes de tudo, policiais em escala interplanetária. E esta metáfora faz um sentido danado hoje em dia.

Então, numa trama em que pouco (ou quase nada) se vê de roupas coloridas coladas e raios esmeralda feitos de efeitos especiais de ponta; numa história em que os aliens existem, mas aparecem apenas sob formas reconhecidamente humanas; o que sobra é justamente o que mais importa: a relação entre um veterano que cedeu ao cinismo e à desesperança depois de décadas de combate ao crime e um novato que treinou e se preparou a vida inteira para este cargo.

Sim, tem um anel, tem a bateria, tem o juramento, tem até o uniforme. Tudo isso está lá. Mas nada disso é mais importante do que este odiável Hal Jordan vivido com maestria por Kyle Chandler (duas palavras pra quem não o conhecia: Early Edition) e do que o John Stewart interpretado de maneira igualmente brilhante por Aaron Pierre – e que ganha, ao final deste SENSACIONAL episódio 3, exibido no último domingo (30), contornos ainda mais profundos e preciosos.

(Antes de aprofundar um pouco mais a discussão, gostaria APENAS de reforçar que Aaron Pierre talvez seja um dos homens mais bonitos a passear pelos tapetes vermelhos de Hollywood, sem qualquer exagero. Talvez isso não tenha nada a ver com o papo mas EU NÃO ME IMPORTO e vou falar assim mesmo)

“Ah, então essa não é uma adaptação fiel e…”

Olha só, eu poderia tranquilamente apelar para a nossa carta do “filme é filme, série é série, gibi é gibi”, frequentemente repetida por aqui e no nosso podcast, e o papo estaria definitivamente encerrado. Mas acho que, no caso de Lanternas, cabe ir um tantinho além aqui.

Porque, no começo dos anos 1970, a dupla Dennis O’Neil (roteiro) e Neal Adams (arte) foi responsável por uma hoje icônica fase do Lanterna Verde ao lado do Arqueiro Verde nos quadrinhos. E, mais do que histórias sobre super-heróis, eram tramas que exploravam a conflituosa relação entre os dois (um militar conservador e um esquerdista esquentadinho) e também a realidade dura do interior dos EUA, cheio de vulnerabilidades, carências e preconceitos.

Lanternas tem MUITO disso, tanto na relação entre os protagonistas quanto na exposição das cicatrizes de uma pequena cidade americana, que é quase um personagem por si só, onde a lei pode ser subvertida e domada por alguém que tenha mais dinheiro e poder, quilômetros e quilômetros distantes das torres de marfim das grandes metrópoles.

Além disso, queridíssimo idiota que acha que o terceiro episódio de Lanternas é “pura lacração” por ter abordado DIRETAMENTE a questão racial envolvendo a família de John e a sua relação com o processo de seleção dos Lanternas Verdes, pois saiba que a cor de pele do personagem (criado TAMBÉM por O’Neil e Adams, em 1972) é um elemento definidor de sua personalidade desde o início – e lembremos que, antes dele ter a sua origem modificada para ser um Marine, John Stewart tinha inclusive fortes contornos antiautoritários que o tornavam praticamente um integrante do Partido dos Panteras Negras.

Toda a história envolvendo a infância e a adolescência de John, treinado desde a mais tenra idade para tornar-se um soldado sem medo (e, portanto, uma escolha ideal para usar o anel), é ao mesmo tempo assustadora e tocante. E, até aqui, talvez a principal razão não apenas para se acreditar que ele é a melhor opção para substituir Hal Jordan – e sua relação paterna bastante problemática com Sinestro – mas também para assistir Lanternas todas as semanas, no HBO Max.

Uma série que, tá bom, a gente já sabe que envolve de alguma forma os Caçadores Cósmicos e que terá, em algum momento, a aparição do mesmo Guy Gardner que esteve no filme do Superman. Mas, de verdade, que seja apenas e tão somente isso. Sem necessidade de mais e mais easter eggs ou coadjuvantes de luxo, usem eles os anéis de quaisquer que sejam as cores. Já tá bom assim.

Sem dar muitos spoilers e sem entrar no sempre nebuloso das teorias e especulações, digamos que ainda tem muito o que acontecer e ainda ser descortinado até que cheguemos ao oitavo episódio, que encerra esta primeira temporada. Mas já dá pra dizer, quase que gritando aos quatro ventos, que Aaron Pierre foi uma escolha praticamente irretocável para incorporar John Stewart – e que queremos ver cada vez mais deste novo Lanterna Verde dentro do recém-reconstruído Universo DC dos cinemas.

“Muitos garotinhos vão se inspirar em você no futuro”, diz a mãe dele para o jovem John, ainda inseguro, quase pensando em desistir.

Pois este futuro enfim oficialmente chegou…dentro e fora da história das telinhas e, em breve, telonas.


Comments
  • Legal, mas você está errado.

    Se eu quisesse ver True Detective e Dia de Treinamento, ia ver as obras originais.

    A série é uma boa série de ficção científica com suspensa, mas uma série ruim dos Lanternas VERDES.

    2 de setembro de 2026
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