Jaspion: versão brasileira | 8 fatos sobre um fenômeno no Brasil
A morte de Hikaru Kurosaki encerra um capítulo importante da história do tokusatsu, mas também convida a revisitar um caso raro: o de um herói japonês que encontrou, do outro lado do mundo, um segundo lar — e uma paixão que atravessa quatro décadas.
Por THIAGO CARDIM
Quando a notícia da morte de Hikaru Kurosaki começou a circular, muita gente no Brasil teve exatamente a mesma sensação: a de perder alguém que fazia parte da infância. Pode parecer curioso dizer isso sobre um ator japonês que gravou apenas uma temporada de uma série produzida em 1985. Mas “O Fantástico Jaspion” nunca foi apenas mais um tokusatsu por aqui. Foi um fenômeno cultural.
Enquanto no Japão a série teve uma boa recepção, mas acabou encerrada naturalmente depois de seus 46 episódios, no Brasil ela virou um daqueles raros casos de apropriação cultural às avessas: um personagem estrangeiro que acabou sendo incorporado ao imaginário brasileiro como poucos.
Vieram reprises, discos, shows, histórias em quadrinhos inéditas, brinquedos, memes, convenções, homenagens e até crianças registradas oficialmente com o nome do herói espacial. Por isso, talvez a melhor maneira de homenagear Hikaru Kurosaki seja justamente lembrar como o Brasil transformou Jaspion em algo único. Estas são oito histórias que ajudam a explicar esse fenômeno.
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1. A voz brasileira de Jaspion virou um rosto conhecido da televisão
Para milhões de brasileiros, Jaspion nunca falou japonês. A voz do herói pertenceu a Carlos Takeshi, dublador que conseguiu equilibrar entusiasmo juvenil e heroísmo na medida certa. Sua interpretação ajudou a definir a personalidade do personagem para toda uma geração que conheceu a série pela extinta Rede Manchete.
O curioso é que muita gente conhece Carlos Takeshi sem sequer associá-lo ao Jaspion. Antes e depois da dublagem, ele construiu uma carreira como ator em novelas globais (como “A Viagem” e “Rei do Gado”) e programas de televisão, além de se tornar um dos apresentadores mais conhecidos do Shoptime durante muitos anos.
É um daqueles casos em que uma voz marcou uma geração enquanto seu dono seguia aparecendo diariamente na televisão brasileira, mas em outro contexto completamente diferente.
“Até hoje eu sou reconhecido pela minha voz na rua”, disse ele, em entrevista ao canal TokuDoc. “Fico até surpreso, porque já faz décadas. Depois que eu fiz Jaspion, comecei a aparecer mais na TV como ator, então as pessoas começaram a fazer mais a ligação”, explica ele.
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2. A abertura brasileira ganhou vida própria
Poucos países adaptavam músicas de abertura de tokusatsu com tanto entusiasmo quanto o Brasil dos anos 1980. Enquanto no Japão “Ore ga Seigi da! Jaspion” (aquela da clássica expressão “Come On Boy”) era interpretada por Ai Takano, aqui a música recebeu uma versão em português cantada por Fred Maciel (também conhecido como Freddy, com dois Ds e um Y), que também era baterista e integrante da banda Herva Doce, aquela mesma do hit “Amante Profissional”.
A adaptação foi lançada comercialmente no bem-sucedido disco “O Fantástico Jaspion”, em 1989, pela gravadora Top Tape, e ajudou a consolidar aquela identidade sonora que ainda hoje faz qualquer fã cantar imediatamente o refrão (“Pela liberdade sou Jaspion, pela igualdade sou Jaspion, eu juro eu juro eu juro, não vou falhar!”).
Mais do que uma tradução, era praticamente uma recriação, seguindo uma prática bastante comum da época, quando séries japonesas ganhavam músicas nacionais especialmente produzidas para o mercado brasileiro.
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3. Até o Trem da Alegria entrou na onda
Quando um personagem virava música do Trem da Alegria, era sinal de que havia ultrapassado o universo nerd. Foi assim com “He-Man”, foi assim com “Thundercats”, e foi exatamente isso que aconteceu quando o grupo infantil gravou, também em 1989, “Jaspion e Changeman”, uma faixa que misturava referências aos dois maiores sucessos japoneses exibidos pela Manchete.
A composição – obviamente da dupla dinâmica Michael Sullivan e Paulo Massadas – brincava com monstros, robôs gigantes, batalhas espaciais e toda a estética dos seriados japoneses (“Correndo a Via Láctea em seu gigante Daileon / É Jaspion outra vez contra o temível Satan Goss”), transformando esse universo em algo acessível para crianças que talvez nem acompanhassem regularmente os episódios.
Era a confirmação definitiva de que o tokusatsu havia entrado na cultura pop brasileira.
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4. O Brasil criou histórias inéditas em quadrinhos
Enquanto muitos países apenas republicavam adaptações japonesas, o Brasil resolveu criar suas próprias aventuras. A partir de 1989, a EBAL publicou no Brasil histórias em quadrinhos que adaptavam episódios de Kyoujuu Tokusou Juspion e outras séries de tokusatsu maaaaaaaas, no final de 1990, o personagem ganhou uma publicação própria pela Editora Abril – e com HQs inéditas produzidas integralmente por artistas brasileiros.
“O Fantástico Jaspion” da Abril teve doze edições, sendo publicado de novembro de 1990 a outubro de 1991 – e a produção das histórias ficava a cargo da turma do Studio Velpa, com roteiros de Rodrigo de Góes e arte de Aluir Amâncio, que mais tarde seria substituído por Marcello Arantes.
As histórias expandiam o universo da série, apresentavam novos monstros e mantinham a linguagem dos episódios televisivos, continuando a história a partir do final da série original, com a derrota de Satan Goss. O império do vilão que tinha o poder de enfurecer os seres e transformá-los em monstros incontroláveis estava em colapso e acabou disputado por Amsor Goss, filho mais novo de Satan Goss, que inclusive assume a antiga armadura de seu irmão MacGaren. Ou seja, a paz de Jaspion, Anri e do pequeno Edin no Planeta Edin acabou durando pouco…
Hoje, estes gibis acabaram tornando-se verdadeiras peças de colecionador.
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5. Jaspion também percorreu o Brasil de circo em circo
Muito antes das convenções de cultura pop dominarem o calendário nacional, o contato dos fãs com seus heróis acontecia de outro jeito. Durante o fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, espetáculos itinerantes levaram Jaspion para circos e ginásios espalhados pelo país.
Os shows – nos quais Jaspion era vivido pelo ator e dublê Adriel de Almeida, que também encarnou o Change Dragon de Changeman e Red Flash de Flashman em outras apresentações – misturavam lutas coreografadas, explosões, fumaça, monstros, efeitos especiais improvisados e muita interação com as crianças.
Hoje essas apresentações podem parecer ingênuas. Na época, eram praticamente a única oportunidade que muitos fãs tinham de ver seu herói “ao vivo”.

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6. Existem brasileiros oficialmente chamados Jaspion
Poucos personagens podem dizer que viraram nome próprio. Segundo dados do Censo Demográfico de 2022, o Brasil possui atualmente 53 pessoas registradas oficialmente como Jaspion.
É um dado que talvez parecesse piada se não viesse do próprio IBGE.
O número ajuda a medir o tamanho do impacto da série por aqui. Afinal, não estamos falando apenas de fãs que compraram brinquedos ou assistiram aos episódios: estamos falando de famílias que decidiram batizar seus filhos com o nome do herói espacial. Não há demonstração de carinho muito maior do que essa.
“Hoje eu trabalho justamente com proteção, na área de segurança. Protejo tanto a empresa quanto os colaboradores”, conta o especialista em ciência da computação Jaspion Lopes, de 38 anos, morador da cidade de Sorocaba. “Quando eu trabalhava no suporte, o pessoal falava: ‘Lá vem o super-herói salvar a gente’. Eu ia lá, resolvia o problema e todo mundo dava risada”, disse, em entrevista ao G1.
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7. Jaspion voltou em um gibi totalmente brasileiro
Décadas depois do fim da série, foi novamente o Brasil quem decidiu continuar sua história. Em 2020, a JBC publicou “O Regresso de Jaspion”, graphic novel escrita por Fábio Yabu (o criador dos Combo Rangers, que contou inclusive com a participação deste que vos escreve, rs) e desenhada pelo artista dos jovens heróis uniformizados, Michel Borges.
A obra nasceu de uma parceria inédita entre a Toei Company e a editora brasileira, permitindo que autores nacionais produzissem uma continuação oficial do personagem. A história atualiza Jaspion para um universo mais maduro, preservando o espírito aventureiro da série original enquanto amplia sua mitologia para novas gerações de leitores.
Depois de derrotar Satan Goss e MacGaren em uma batalha mortal, Jaspion deixou o Planeta Terra para lutar contra as forças do mal por todo o universo. Mas surge uma nova ameaça, a concentração de energia negativa trouxe a terrível bruxa galáctica Kilmaza de volta à vida. Tomada pelo desejo de vingança contra Jaspion, agora ela planeja ressuscitar não apenas MacGaren, mas Satan Goss e outros aliados.
É hora de Jaspion voltar à Terra, depois de muito tempo, e lutar mais uma vez contra as forças do mal comandadas por Satan Goss. Para isso, o Campeão da Justiça contará com a ajuda de velhos amigos como Boomerman, Anri, Miya, John Tiger e OBVIAMENTE o Gigante Guerreiro Daileon.

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8. O sonho de um filme brasileiro continua vivo
Talvez nenhum outro país tenha tentado levar Jaspion novamente às telas com tanta insistência quanto o Brasil. Há anos a Sato Company trabalha em um projeto de longa-metragem nacional baseado no personagem, anunciado lá em 2018 e resultado de um acordo histórico com a Toei.
Com orçamento estimado em US$ 50 milhões, o filme foi este ano apresentado no European Film Market (EFM), evento paralelo à Berlinale 2026, em busca de parceiros internacionais de distribuição, investimento e licenciamento. A Sato revelou que o longa-metragem atualmente está em fase de tratamento de roteiro, que é conduzido por Janaina Tokitaka. A profissional, descrita em entrevista à CNN Brasil como “apaixonada pela obra”, possui experiências em trabalhos da Disney e da Amazon.
A documentação comercial cita ainda filmagens planejadas em territórios brasileiros, com menção a São Paulo, Rio de Janeiro e a Amazônia. No Japão, a lista inclui Tóquio e Okinawa.
Embora o projeto tenha enfrentado mudanças de cronograma e ainda não tenha iniciado suas filmagens, ele continua oficialmente em desenvolvimento e a expectativa é que as gravações do filme iniciem em 2027.
Pode demorar. Pode mudar bastante até acontecer. Mas, até o momento, a sinopse divulgada descreve Jonas, um nipo-brasileiro de 22 anos de São Paulo, que encontra a lendária armadura de Jaspion. A partir daí, ele é puxado para um conflito associado ao colapso ambiental da humanidade. Guiado por Anri, uma androide que atua como companheira de combate, Jonas precisa redefinir o que significa heroísmo para proteger o planeta como o novo Fantástico Jaspion.
Mas talvez exista algo simbólico nisso tudo: quarenta anos depois da estreia de “O Fantástico Jaspion”, continua sendo justamente o Brasil o país que mais sonha em contar uma nova aventura desse herói.
E isso talvez seja a maior homenagem que Hikaru Kurosaki poderia receber.