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Kamen Rider MY-TH: rato e gato viram super-heróis

Nova série comemora os 55 anos de Kamen Rider com um herói inspirado em um rato, uma organização baseada nos 12 animais do zodíaco chinês e uma improvável guerra entre gatos e ratos

Por THIAGO CARDIM


Se Kamen Rider ZEZTZ passou boa parte de sua existência mergulhado em sonhos, pesadelos e conspirações, a nova temporada de Kamen Rider resolveu olhar para um território aparentemente muito mais simples: animais, mitologia e uma eterna guerra entre gatos e ratos.

É daí que nasce Kamen Rider MY-TH — ou Kamen Rider Mais, na leitura japonesa de 仮面ライダーマイス —, a nova série da franquia que estreia no Japão em 6 de setembro de 2026, justamente no ano em que Kamen Rider completa 55 anos. A produção será exibida aos domingos, às 9h, pela TV Asahi e suas afiliadas.

E se o nome parece estranho, não é acidente. A própria Toei explica que o título em inglês brinca com a palavra “MYTH”, “mito” em inglês, inserindo um hífen para chegar à grafia MY-TH. A ideia de “uma nova mitologia” está, portanto, literalmente no título.

Mas a coisa fica consideravelmente mais esquisita (e isso no melhor sentido possível) quando descobrimos que o protagonista é um Rider-rato, enquanto seus principais adversários pertencem a uma organização formada por guerreiros associados aos 12 animais do zodíaco chinês.

Sim, si, alguém na reunião de criação olhou para a eterna guerra entre gato e rato e pensou: isso daria uma ótima série de Kamen Rider. Meio que um Tom & Jerry tokusatsu? Ainda não sabemos.

Só consigo dizer que, honestamente, pelo menos aqui do meu lado, tô comprando a ideia.

De ZEZTZ para MY-TH: uma passagem de bastão bastante diferente

A transição entre ZEZTZ e MY-TH não é exatamente uma continuidade narrativa tradicional. Kamen Rider ZEZTZ encerrou sua exibição no fim de agosto, depois de 50 episódios, e a nova produção assume imediatamente o espaço dominical da franquia.

Mas existe uma conexão interessante: MY-TH já havia sido apresentado antes mesmo de sua série começar, aparecendo no filme Kamen Rider ZEZTZ: Sayonara no Mission, lançado nos cinemas japoneses em julho. O personagem surgiu, portanto, como uma espécie de aperitivo daquilo que viria a seguir. Além disso, o novo protagonista deu as caras, de maneira pouco sutil mas divertida, no último episódio de ZEZTZ, interagindo com o Rider anterior no mundo dos sonhos.

Mais do que isso, a nova série representa uma mudança de escala. A própria equipe descreve MY-TH como uma história construída a partir de “duas facções que não se cruzam”, com vários Riders influenciando, confrontando e tentando conter uns aos outros. A promessa é de uma narrativa mais serializada e com um elenco maior de heróis transformados.

Ou seja: se ZEZTZ era o agente solitário mergulhado no mundo dos sonhos (pelo menos inicialmente, já que ao final ele meio que forma um time disfuncional com Sieg e Nox), MY-TH parece querer transformar o próprio conflito entre diferentes grupos de Riders no motor da narrativa.

Mas uma coisa os dois Kamen Riders têm em comum: aparentemente, o cinto de transformação é mais uma vez no peito e não na cintura (pelo menos, no caso do Rato). Seria essa uma tendência…?

Afinal, do que trata Kamen Rider MY-TH?

A história começa muito tempo atrás, quando uma organização conhecida como Aliança dos Doze Signos – ou Jūnishi Dōmei – protegia a humanidade de misteriosas criaturas chamadas Fukashigi. Diante da ameaça, a organização entrou em um sono de cem anos para se preparar para a batalha maior que inevitavelmente viria.

Só que o presente chegou.

E enquanto a Aliança finalmente desperta, Sora Otosumi, um mordomo – ou, mais precisamente, um meister – que trabalha para a família Mizuki, já está secretamente combatendo os Fukashigi para proteger sua jovem patroa, Yuna Mizuki. Sora consegue se transformar em Kamen Rider MY-TH, um herói inspirado em um rato, usando seus poderes para enfrentar as criaturas que ameaçam as pessoas.

O problema é que a Aliança dos Doze Signos também deveria ser responsável por combater os Fukashigi. Quando seus integrantes descobrem que alguém está derrotando criaturas que, teoricamente, apenas os Riders do zodíaco deveriam conseguir derrotar, eles começam a investigar.

E aí entra o gato.

A organização é comandada por Kamuri Minetaka, que se transforma em Kamen Rider MAOU, um Rider associado aos nossos conhecidos felinos domésticos. Quando percebe que o “rato” está roubando suas presas, começa oficialmente uma nova versão daquela guerra zoológica que provavelmente já existe desde antes de alguém inventar a expressão “gato e rato”.

Sora, Yuna e companhia

O centro da história é Sora Otosumi, interpretado por Ikuho Akiya, ator de 22 anos que assume seu primeiro papel de protagonista em uma série de televisão. Sora é apresentado como um sujeito cínico e habilidoso que trabalha como meister da família Mizuki — e cuja rotina envolve tanto cuidar da casa quanto sair por aí enfrentando monstros.

A escolha de colocá-lo como um funcionário de uma família rica também ajuda a criar uma dinâmica bastante diferente para o protagonista. Ele não é simplesmente “o jovem comum que ganha poderes”: existe uma relação de serviço, responsabilidade e proteção envolvendo Sora e Yuna.

Riko Horikawa interpreta Yuna Mizuki, a adolescente e herdeira da família para quem Sora trabalha. Já Hayate Ataka vive Tatsuomi Asao, personagem que acaba envolvido no primeiro caso apresentado pela série.

Do outro lado está Keisuke Higashi, ator e conhecido nome dos musicais e do teatro japonês, como Kamuri Minetaka/Kamen Rider MAOU. Higashi tem uma carreira especialmente forte nos palcos, incluindo produções de Touken Ranbu, Jersey Boys e Kinky Boots, além de participações no cinema e na televisão. E ele não estará sozinho.

A Aliança dos Doze Signos reúne uma verdadeira pequena fauna de Riders: Tigre, interpretado por Shunya Kaneko; Datt, por Nanako Ando; Jyao, por Kosei Tsubokura; Mutn, por Kasumi Hasegawa; Kei, por Rento Nishiyama; e Vanken, por Joey Iwanaga. O personagem Ryuzu será interpretado apenas em voz por Hiroshi Shirokuma.

É uma quantidade considerável de personagens transformáveis e a série ainda guarda outros integrantes do zodíaco para apresentar.

O rato contra o gato… e todo o resto

Aqui está provavelmente o conceito mais divertido de MY-TH: a série não está apenas utilizando animais como inspiração visual para os trajes. A própria estrutura narrativa parte da relação predatória entre rato e gato.

MY-TH é um rato. MAOU é um gato. E a Aliança dos Doze Signos possui representantes associados aos animais do zodíaco chinês.

É uma escolha que permite que a produção trafegue entre diferentes tons. Existe uma mitologia antiga envolvendo a Aliança, existe uma ameaça sobrenatural representada pelos Fukashigi e existe uma guerra centenária — mas também existe uma situação potencialmente cômica na qual um grupo de gatos descobre que um rato está chegando antes deles para comer… bem, suas presas.

A própria sinopse oficial utiliza essa ideia de maneira bastante direta: a Aliança percebe que sua “caça” está sendo roubada, dando início à batalha entre rato e gato. Isso não significa necessariamente que MY-TH será uma comédia. Pelo contrário: a equipe fala em uma história contínua, com personagens que influenciam e confrontam uns aos outros. Mas existe aí uma oportunidade para um tipo de humor visual e de personalidade que a franquia ainda não explorou dessa maneira.

E, convenhamos, um Rider-rato sendo perseguido por um Rider-gato é um conceito que praticamente se escreve sozinho, hahahahahaha.

Kamen Rider já brincou com animais antes

É claro que animais estão longe de ser novidade em Kamen Rider. A franquia já teve Riders associados a insetos, criaturas mitológicas e praticamente qualquer coisa que pudesse ser transformada em um traje.

O próprio conceito original de Kamen Rider nasceu ligado ao gafanhoto, enquanto diferentes temporadas posteriores incorporaram dragões, lobos, morcegos, cavalos, raposas, cervos, pandas e uma zoologia inteira.

O diferencial de MY-TH está menos em “usar animais” e mais em transformar uma estrutura zoológica em parte central da mitologia da temporada. São 12 signos, 12 possíveis identidades, diferentes personagens e diferentes maneiras de encarar o mesmo conflito.

E isso nos leva diretamente ao que parece ser uma das grandes apostas da produção: não teremos simplesmente vários Riders; teremos um grupo com sua própria identidade, hierarquia e objetivos.

Quem está por trás da nova série?

O time de Kamen Rider MY-TH reúne alguns nomes bastante familiares para quem acompanha tokusatsu. O principal diretor é Shōjirō Nakazawa, veterano da franquia que já trabalhou em produções como Kamen Rider Wizard, Kamen Rider Ex-Aid e diversos outros projetos de Kamen Rider. Ele divide a direção com nomes como Ryuta Tazaki, Koichiro Hayama, Teruaki Sugihara e Takayuki Shibasaki.

O roteiro principal é de Naruhisa Arakawa, um dos grandes veteranos da franquia. Seu currículo inclui nada menos que Kamen Rider Kuuga, série fundamental para a reformulação da marca no início dos anos 2000 — além de trabalhos em diversas outras produções de tokusatsu.

Nas cenas de ação está Satoshi Fujita, da Japan Action Enterprise, que já comandou as sequências de ação de Kamen Rider Geats, Kamen Rider Gavv e diversos filmes e especiais da franquia.

A direção de efeitos especiais é de Hiroshi Butta, da Tokusatsu Institute, enquanto a música é de Hiroshi Takaki, responsável recentemente, entre outros trabalhos, pela trilha de Kamen Rider ZEZTZ e de diferentes produções da franquia.

Na produção, outro nome importante é Naomi Takebe, que ocupa a posição de produtora-chefe pela Toei. É, portanto, uma equipe que combina veteranos de várias fases da franquia com um elenco consideravelmente mais jovem.

E a abertura?

Aqui não tem mistério: já sabemos. A música-tema de Kamen Rider MY-TH será “One Shot”, interpretada pelo THE RAMPAGE, grupo de 16 integrantes ligado à LDH. A composição reúne T.Kura e JUNE, com letra de Shoko Fujibayashi, nome que já possui uma longa história trabalhando com músicas da franquia Kamen Rider.

O single físico de “One Shot” está previsto para 4 de novembro de 2026, enquanto a versão televisiva da música será disponibilizada digitalmente na estreia da série.

E como vamos assistir no Brasil?

Aqui está talvez a melhor notícia para quem acompanha tokusatsu por estas bandas. Porque, mais uma vez, Kamen Rider MY-TH terá transmissão oficial simultânea no Brasil e em outros países da América Latina pelo canal TokuSato, no YouTube.

O anúncio foi feito pela Sato Company durante a transmissão de encerramento de Kamen Rider ZEZTZ. A série estreia no Japão em 6 de setembro, enquanto a transmissão latino-americana começa no Brasil em 5 de setembro, acompanhando o esquema regional divulgado pela distribuidora.

A estratégia segue o modelo que a Sato já havia utilizado com ZEZTZ, permitindo que o público brasileiro acompanhe a franquia praticamente junto com o público japonês. Inicialmente, os episódios serão disponibilizados com legendas; a dublagem em português será acrescentada posteriormente.

Há ainda uma mudança importante no modelo de acesso: segundo as informações divulgadas pela Sato, os cinco primeiros episódios serão gratuitos, enquanto, a partir do sexto, o acesso ficará restrito aos membros do canal após o período inicial de exibição.

É uma diferença enorme em relação à época em que o fã brasileiro dependia de gravações de televisão, fitas VHS, fansubs e sabe-se lá quantos caminhos tortuosos para descobrir o que estava acontecendo no Japão. Agora o rato chega praticamente ao mesmo tempo por aqui.

Uma nova mitologia para Kamen Rider

Kamen Rider MY-TH chega, portanto, com uma responsabilidade dupla. De um lado, precisa suceder ZEZTZ e manter a franquia funcionando semanalmente em um mercado cada vez mais competitivo. Do outro, carrega o selo de produção comemorativa dos 55 anos de Kamen Rider.

A solução encontrada pela Toei parece ser olhar simultaneamente para trás e para frente.

Para trás, porque MY-TH aposta em uma mitologia bastante tradicional: uma organização ancestral, monstros misteriosos, guerreiros mascarados e uma batalha que atravessa gerações. Para frente, porque transforma isso em uma estrutura de múltiplos protagonistas, com diferentes facções e uma narrativa que promete dar bastante espaço para as relações entre eles.

E existe uma coisa especialmente interessante nessa escolha.

Depois de décadas transformando praticamente qualquer objeto, animal ou conceito em combustível para uma nova temporada, Kamen Rider decidiu voltar para uma das coisas mais básicas possíveis: uma história de gato e rato.

Só que, porque estamos falando de Kamen Rider, o gato e o rato usam armaduras, têm cintos de transformação, enfrentam monstros sobrenaturais e estão cercados por outros dez animais do zodíaco.

Mais uma vez, não dá para dizer que a franquia perdeu a capacidade de se reinventar.