Netflix vai adaptar Ravenloft — e Strahd espera nas brumas
Se você conhece “Dungeons & Dragons” apenas como aquele jogo em que um bando de aventureiros entra numa masmorra, mata monstros e sai carregando 37 espadas mágicas que ninguém sabe onde vai guardar, prepare-se para uma mudança de clima
Por THIAGO CARDIM
A Netflix está desenvolvendo “Ravenloft”, uma série live-action baseada em uma das ambientações mais conhecidas — e mais sombrias — de “Dungeons & Dragons”. O projeto terá John August como roteirista e produtor executivo e o maravilhoso Alfonso Cuarón entre os produtores executivos, ao lado de nomes ligados à Hasbro Entertainment e à Esperanto Filmoj.
E há uma escolha bastante significativa no centro da história: Strahd von Zarovich. Calma que a gente já explica tudo.
Por enquanto, sabemos que o projeto está em desenvolvimento e, até o momento, não tem elenco ou data de estreia anunciados. A descrição divulgada apresenta a série como uma fantasia de prestígio que mistura horror gótico e romance trágico para contar a transformação de Strahd, de um herói trágico em um dos vilões mais conhecidos de D&D.
Ou seja: esqueça por enquanto a ideia de uma série sobre um grupo de aventureiros fazendo turismo em “Forgotten Realms”. Aqui a coisa é mais castelo, névoa, maldição, vampiro e decisões sentimentais absolutamente desastrosas.

O novo projeto de D&D da Netflix
A escolha de John August chama atenção. O roteirista tem entre seus créditos trabalhos ligados ao cinema de fantasia de Tim Burton, incluindo “Peixe Grande”, “A Noiva-Cadáver” e “Frankenweenie”. Já Alfonso Cuarón entra como produtor executivo por meio da Esperanto Filmoj.
Também estão envolvidos na produção Gabriel Marano, pela Hasbro Entertainment, e Richard Schwartz e Gaby Rodriguez, pela Esperanto Filmoj.
Ainda há, porém, muito mais perguntas do que respostas.
Não há elenco anunciado, previsão de estreia ou informações sobre número de episódios. E isso é importante porque “Netflix está desenvolvendo” não significa exatamente “reserve o sofá para a estreia no mês que vem”. Estamos falando de uma produção que deve levar algum tempo pra se tornar realidade.
Mas o projeto já revela uma coisa bastante interessante: a Netflix decidiu olhar para D&D por um caminho bem diferente daquele que parecia estar sendo preparado anteriormente.
Porque, os fãs mais atentos devem se lembrar a Netflix tinha outro projeto de “Dungeons & Dragons” em desenvolvimento: uma série ambientada em justamente em “Forgotten Realms”, um dos cenários mais tradicionais e populares do jogo.
O projeto havia sido anunciado em 2025 e tinha o diretor Shawn Levy, de “Stranger Things” e que será o responsável pelo filme do Motoqueiro Fantasma do MCU, envolvido na produção. Agora, segundo as informações divulgadas por veículos de prestígio como Deadline e Variety, aquela série deixou de estar em desenvolvimento. Ravenloft surge, portanto, como um novo projeto dentro da parceria envolvendo Netflix, Hasbro e a franquia D&D.
E a troca é curiosa.
“Forgotten Realms” é, em muitos sentidos, a fantasia de D&D que o público imagina quando pensa em cidades medievais, magos, elfos, dragões, reinos, tavernas e grupos de aventureiros, a clássica fantasia tolkieniana. Mas “Ravenloft” pega praticamente esse mesmo vocabulário e joga uma camada de horror por cima.
Só que não é simplesmente “D&D, mas com vampiros”. Tamos falando de outra lógica de contar histórias.
Afinal, o que é Ravenloft?
Ravenloft surgiu em 1983, quando a aventura “Ravenloft”, criada por Tracy e Laura Hickman, apresentou aos jogadores um certo Conde Strahd von Zarovich.
A ideia cresceu até se transformar em uma ambientação própria: os chamados Domínios do Medo (Domains of Dread), territórios envoltos pelas misteriosas Brumas de Ravenloft e governados por figuras conhecidas como Darklords, ou Lordes Sombrios. E aqui está uma das grandes diferenças em relação à fantasia tradicional de D&D.
Em Forgotten Realms, por exemplo, uma aventura pode acontecer porque existe um reino ameaçado, um artefato perdido ou um dragão que precisa ser derrotado. Em Ravenloft, o próprio lugar costuma ser parte do problema.

Os Domínios do Medo funcionam como prisões sobrenaturais moldadas em torno de seus respectivos Darklords. Cada um está preso ao próprio domínio e, ao mesmo tempo, é a principal fonte dos horrores que existem ali. A própria editora descreve esses territórios como uma espécie de punição personalizada: o domínio reflete os crimes, fracassos, desejos e obsessões daquele que o governa.
É uma diferença fundamental, anota aí: em Ravenloft, o vilão não mora no cenário. O vilão praticamente é o cenário. E talvez seja justamente aí que esteja o potencial da série.
Um D&D que não precisa terminar numa masmorra
Ravenloft trabalha com diferentes tradições do horror. A versão mais recente da ambientação, “Ravenloft: The Horrors Within”, lançada em 2026, apresenta Domínios associados a horror gótico, folk horror, horror cósmico, body horror, dark fantasy, histórias de fantasmas, investigação sobrenatural e até slasher. O livro reúne 16 Domínios do Medo e 17 Darklords.
É por isso que Ravenloft pode comportar histórias muito diferentes entre si. Há lugares em que a ameaça é um vampiro. Outros lidam com monstros, maldições, experiências científicas grotescas, sociedades opressivas, entidades cósmicas ou fantasmas.
O denominador comum não é exatamente “ter monstros”. É ter medo.
Uma aventura convencional de D&D costuma perguntar: “Como os heróis vão derrotar esse inimigo?”. Ravenloft frequentemente pergunta algo mais desagradável: e se não houver uma maneira limpa de sair daqui?
E aí entra Strahd
Se Ravenloft é a casa, Strahd é o proprietário que definitivamente não vai devolver o depósito.
Strahd von Zarovich é o Darklord de Barovia, o mais famoso dos Domínios do Medo — e, provavelmente, o personagem que mais imediatamente vem à cabeça quando alguém fala em Ravenloft.
Sua história é construída em torno de poder, inveja, amor, obsessão e morte. Strahd foi um conquistador que tomou a região que viria a ser Barovia. Já envelhecido, passou a desejar a juventude que havia perdido e também a mulher que seu irmão, Sergei, iria desposar: Tatyana.
A combinação de inveja, obsessão e desejo de poder levou Strahd a assassinar o próprio irmão. Depois, um pacto com forças sombrias o transformou no primeiro vampiro e condenou Barovia a se tornar o seu domínio. O detalhe particularmente cruel é que a maldição não termina quando ele consegue aquilo que deseja: muito pelo contrário.
Strahd permanece preso em Barovia, eternamente perseguindo as reencarnações de Tatyana. Ele pode ter poder praticamente ilimitado dentro de seu domínio, mas continua incapaz de obter aquilo que realmente quer.
Um vampiro que não é só um vampiro

É aí que Strahd fica mais interessante para uma adaptação televisiva.
Porque você não precisa começar com um grupo de aventureiros chegando ao castelo para enfrentá-lo. Pode começar antes. Muito antes. A própria premissa divulgada pela Netflix aponta justamente nessa direção: acompanhar a trajetória de Strahd desde sua existência como figura trágica até sua transformação em Darklord.
Isso abre espaço para uma história sobre como alguém se torna um monstro.
Não no sentido de tentar justificar suas ações, mas de explorar a cadeia de escolhas que transforma ambição em obsessão, obsessão em violência e violência em condenação. É uma estrutura bem diferente de simplesmente colocar um vampiro no final do episódio 1 e mandar os protagonistas encontrarem uma estaca.
E também ajuda a explicar por que o personagem sobreviveu por tantas décadas dentro da cultura de D&D. Porque Strahd não é apenas um chefe final. Ele é uma história de horror gótico com pernas.
Ravenloft ainda existe em D&D?
Existe… e bastante. Aliás, a Netflix chega em um momento particularmente conveniente para a ambientação.
Em 2026, a Wizards of the Coast lançou “Ravenloft: The Horrors Within”, um novo livro dedicado aos Domínios do Medo. A publicação reúne opções para personagens, monstros, aventuras, Darklords e ferramentas para criar histórias de horror dentro do universo de D&D.
O livro também deixa claro que Ravenloft não está sendo tratado apenas como “o cenário do Strahd”. Barovia continua lá, evidentemente. Strahd continua sendo o Darklord mais conhecido. Mas a ambientação atual reúne uma coleção muito maior de pesadelos.
Há Domínios como Borca, Darkon, Dementlieu, Falkovnia, Har’Akir, Hazlan, Kartakass, Lamordia, Mordent, Sithicus e Valachan, além de novos territórios e possibilidades para os Mestres criarem seus próprios Domínios do Medo. Strahd pode ser a porta de entrada, mas Ravenloft é a casa inteira.
E como se já não bastasse a Netflix colocar as Brumas no streaming, a Dark Horse Comics também está publicando uma nova minissérie de “Dungeons & Dragons: Ravenloft”.
Escrita por Amy Chu, com arte de Ariela Kristantina, a série acompanha a caçadora de monstros Ez D’Avenir, que investiga uma criatura morta-viva nas terras congeladas de Lamordia. O problema é que Viktra Mordenheim, uma das Darklords de Ravenloft, descobre a investigação — e a caçadora passa a ser a própria presa.
A minissérie terá quatro edições e amplia o foco para diferentes personagens e Domínios do Medo, incluindo protegidos de Rudolph van Richten. A primeira edição chegou agora, em setembro de 2026. Ou seja: Ravenloft não está simplesmente voltando porque a Netflix resolveu olhar para o catálogo de D&D.
A ambientação já está sendo trabalhada em diferentes frentes pela própria franquia.
O estranho caso de D&D e o horror

Durante muito tempo, quando Hollywood pensava em adaptar Dungeons & Dragons, a associação mais óbvia era com fantasia medieval.
Espadas. Dragões. Magos. Uma taverna. Alguém inevitavelmente dizendo “vamos dividir o grupo” (dica: JAMAIS façam isso).
Ravenloft permite outra coisa. Ele pega elementos conhecidos da fantasia e os coloca dentro de histórias sobre medo, culpa, obsessão, morte, isolamento e monstros que não necessariamente podem ser derrotados com uma boa rolagem de d20.
E isso pode fazer diferença na televisão.
Porque uma série não precisa reproduzir uma campanha de D&D para ser uma boa adaptação de D&D. Ela pode entender o que existe de interessante naquela linguagem e construir uma história a partir disso.
Foi exatamente esse tipo de liberdade que o delicioso filme “Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes”demonstrou no cinema: a produção não precisava parecer uma sessão de RPG filmada para carregar o espírito do jogo.
Agora a Netflix tem diante de si uma oportunidade diferente.
Em vez de tentar transformar D&D em mais uma fantasia medieval de streaming, pode transformar Ravenloft em uma história de horror gótico que, por acaso, nasceu dentro de Dungeons & Dragons. E convenhamos: depois de décadas entrando em masmorras, talvez estivesse na hora de alguém perguntar por que o castelo abandonado no alto da montanha parecia uma ideia tão ruim desde o começo.
As Brumas estão subindo. E, desta vez, a Netflix sabe exatamente onde fica o castelo.