Songs in the Key of Life continua enorme para caber só no passado
Stevie Wonder vai apresentar o clássico de 1976 na íntegra em uma turnê de 18 datas pela Europa e pelos Estados Unidos. Mas, antes de virar patrimônio da música, o disco foi o resultado de uma obsessão…
Por THIAGO CARDIM
Em algum momento da vida, um músico profissional precisa deixar a síndrome do impostor de lado e enfim chega a hora em que ele vai admitir que fez um disco bom. Stevie Wonder aparentemente chegou a essa conclusão há algum tempo. Agora, resolveu fazer algo ainda mais radical: vai tocar o disco inteiro ao vivo.
O cantor anunciou a “Songs in the Key of Life Performances – 50th Anniversary Tour”, turnê que celebra os 50 anos do álbum lançado originalmente em setembro de 1976. Serão 18 apresentações entre Europa e Estados Unidos, começando no dia 13 de outubro, em Birmingham, na Inglaterra, e terminando em 19 de dezembro, em Inglewood, na Califórnia. O roteiro passa ainda por cidades como Paris, Copenhague, Estocolmo, Amsterdã, Dublin, Londres, Nova York, Chicago e Detroit. Em todas as noites, sim, “Songs in the Key of Life” será apresentado na íntegra.
Até o momento, infelizmente, não há datas anunciadas no Brasil.

A notícia, sozinha, já seria motivo suficiente para comemoração. Afinal, não é todo dia que um dos maiores artistas da história decide revisitar ao vivo um de seus trabalhos mais importantes. Mas o aniversário de “Songs in the Key of Life” é uma boa desculpa para voltar um pouco mais longe.
Porque o disco não surgiu simplesmente da vontade de Stevie Wonder de gravar mais um álbum: ele surgiu quando o artista já era enorme, estava cansado da própria indústria e chegou a cogitar abandonar tudo. O resultado foi um dos trabalhos mais ambiciosos da música popular do século XX. E, 50 anos depois, ele ainda parece estar acontecendo.
Stevie Wonder já era Stevie Wonder
É importante começar por aqui porque “Songs in the Key of Life” não representa a descoberta de um grande artista. Quando o disco foi lançado, Stevie Wonder já tinha uma carreira que qualquer músico poderia considerar suficiente para passar o resto da vida contando vantagem.
Só entre 1972 e 1976, ele havia lançado “Music of My Mind”, “Talking Book”, “Innervisions” e “Fulfillingness’ First Finale”. É uma sequência que, vamos lá, beira o desaforo.
Talking Book trouxe “Superstition” e “You Are the Sunshine of My Life”. Innervisions apresentou “Higher Ground” e “Living for the City”. Fulfillingness’ First Finale levou Stevie novamente ao Grammy de Álbum do Ano. E não estamos falando apenas de sucesso comercial.
Aquele período transformou a maneira como Stevie Wonder trabalhava. Ele ganhou cada vez mais controle sobre a produção de seus discos, passou a experimentar de maneira mais radical com sintetizadores e outros instrumentos eletrônicos e ajudou a empurrar o R&B para uma lógica de álbum — não apenas de coleção de singles.
Só que, em 1975, Wonder estava pensando em parar. Ele chegou a considerar seriamente deixar os Estados Unidos e se mudar para Gana para trabalhar com crianças com deficiência. Um show de despedida chegou a ser cogitado… mas não, não aconteceu.
Em agosto daquele ano, Wonder assinou um novo contrato com a lendária Motown, com sete anos de duração, sete álbuns previstos e controle artístico bastante amplo. O acordo de US$ 37 milhões foi considerado, na época, o maior contrato já firmado pela indústria fonográfica com um artista. Em vez de uma despedida, portanto, Stevie ganhou carta branca.
E aparentemente, o músico decidiu usá-la sem nenhuma moderação.
A ideia era fazer um disco. Stevie fez praticamente um universo
“Songs in the Key of Life” começou a tomar forma ainda antes de 1976 e levou cerca de dois anos para ser concluído. O lançamento veio em 28 de setembro de 1976, como um álbum duplo acompanhado por um EP de quatro faixas. Ao todo, eram 21 músicas.
Ali, não faltava ambição mas tampouco faltava trabalho.
As sessões passaram por diferentes estúdios, e Wonder tinha fama de extremamente exigente com os arranjos e as gravações. O processo envolveu dezenas de músicos e colaboradores, entre eles profissionais renomados como Herbie Hancock, George Benson e Minnie Riperton. A própria Motown descreve o álbum como o projeto mais ambicioso da carreira de Wonder até então.
Algumas sessões se estendiam por períodos absurdos. O engenheiro Gary Olazabal e integrantes da Wonderlove (nome da banda de apoio que o acompanhou até a década de 1980) lembraram posteriormente de um processo marcado por longas jornadas de trabalho e uma quantidade quase obsessiva de gravações e ajustes. E existe uma particularidade importante: embora haja uma multidão de músicos envolvidos, “Songs in the Key of Life” é essencialmente o projeto de Stevie Wonder.
Ele escreveu, produziu, arranjou as músicas e tocou diversos instrumentos ao longo do disco. Era como se o artista tivesse recebido a oportunidade de fazer exatamente o álbum que queria.
Então ele, SIM, resolveu fazer exatamente o álbum que queria, ora bolas. Mas o que Stevie queria dizer com ele? Essa é talvez a parte mais interessante.
Porque “Songs in the Key of Life” é um daqueles discos que parecem ter problemas com a ideia de escolher um único assunto.
Ele fala de infância, amor, paternidade, espiritualidade, racismo, desigualdade, política, De memória, sexo, religião, música, futuro. E, em algum momento, também consegue encaixar uma homenagem a Duke Ellington.
A gente explica em detalhes, pra quem não sacou.

“Sir Duke” não é apenas uma das músicas mais conhecidas do álbum como também uma declaração sobre a própria história da música negra americana. Já “I Wish” olha para a infância e para a memória com uma mistura de humor e nostalgia.
“Isn’t She Lovely” transforma o nascimento da filha de Wonder, Aisha, em uma das mais conhecidas canções sobre paternidade da música popular. “Village Ghetto Land” e “Pastime Paradise” entram em territórios mais sombrios, observando desigualdade, alienação e as contradições da sociedade americana.
“Love’s in Need of Love Today” abre o álbum como um chamado à responsabilidade coletiva. E “As” transforma uma declaração de amor em algo quase cósmico.
O curioso é que nada disso parece incompatível, porque Wonder não está tentando provar que consegue fazer vários tipos diferentes de música: ele simplesmente não parece aceitar que precise escolher. É soul, funk, jazz, gospel, pop, música eletrônica e música de protesto.
Só que sem a necessidade de colocar uma etiqueta em cada faixa.
O futuro estava nos sintetizadores
Pra quem tá acostumado com a música dos dias de hoje, ouvir os sintetizadores de “Songs in the Key of Life” pode não parecer tão revolucionário. Mas é fácil esquecer que, em 1976, muita daquela tecnologia ainda estava longe de ser banal.
Wonder estava entre os artistas que perceberam que sintetizadores não precisavam ser apenas efeitos futuristas. Eles poderiam ocupar o centro de uma composição, substituir instrumentos tradicionais, criar texturas e, principalmente, mudar a maneira como um músico pensava arranjo. Essa liberdade tecnológica aparece ao lado de uma compreensão profundamente orgânica de ritmo.
“I Wish” é funk. Mas é um funk que funciona como uma máquina perfeitamente ajustada.
“Sir Duke” é pop. Mas tem arranjos de sopros, mudanças de dinâmica e uma quantidade de informação musical que faria muita música pop contemporânea pedir ajuda.
“Contusion” praticamente interrompe a festa para lembrar que Stevie Wonder também podia ser um músico instrumental extraordinariamente sofisticado.
E “Pastime Paradise” constrói uma atmosfera que parece vir de outro lugar.
Tanto que quase 20 anos depois, Coolio pegaria elementos fundamentais da música para transformá-los em “Gangsta’s Paradise”. É um dos exemplos mais evidentes de como “Songs in the Key of Life” não ficou restrito à sua própria geração.
Porque a influência do álbum não é apenas uma questão de críticos como eu dizendo que o álbum é importante. Os próprios músicos continuaram falando dele. Elton John já declarou que carregava uma cópia do disco consigo e o considerava o melhor álbum já feito. George Michael também o considerava seu álbum favorito e levou músicas do trabalho para seus próprios shows e gravações. E Kanye West (blergh!), em entrevista de 2005, citou “Songs in the Key of Life” e “Innervisions” como referências do nível musical que queria alcançar.
Mas talvez seja ainda mais interessante olhar para quem absorveu o disco sem necessariamente reproduzi-lo. Porque um cara como Prince entendeu a ideia de Stevie de tratar estúdio, composição e performance como partes de uma mesma linguagem. Michael Jackson levou adiante aquela mistura de precisão pop, ritmo, soul e obsessão por produção.
Artistas do R&B e do neo-soul encontraram em Wonder uma espécie de ancestral direto. E o hip-hop transformou trechos de sua obra em matéria-prima. Seu modo de pensar ritmo, melodia, arranjo e produção atravessou gerações. É por isso que a influência de “Songs in the Key of Life” é difícil de medir.
Ela não aparece apenas nos artistas que dizem “Stevie Wonder me influenciou”, mas no que artistas posteriores entenderam que era possível fazer.
O sucesso veio imediatamente
Também não é necessariamente como se o mundo tivesse precisado esperar 50 anos para descobrir a importância do disco. “Songs in the Key of Life” estreou em primeiro lugar na Billboard e permaneceu no topo por 14 semanas – o maior período de permanência no número 1 entre os álbuns da Motown até então.
“I Wish” e “Sir Duke” chegaram ao primeiro lugar da Billboard Hot 100 e o álbum rendeu a Stevie Wonder cinco Grammys, incluindo Álbum do Ano. Foi seu terceiro Álbum do Ano em quatro anos. Ou seja: o sujeito conseguiu produzir uma sequência de três álbuns vencedores do Grammy de Álbum do Ano em um intervalo de quatro anos.
Não era exatamente uma fase ruim. E, com o tempo, o reconhecimento só aumentou.
“Songs in the Key of Life” entrou no Grammy Hall of Fame e, em 2005, foi incluído no National Recording Registry da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos por sua importância cultural, histórica ou estética. Em outras palavras: já faz algum tempo que ninguém precisa convencer a história de que esse disco é importante.
Mas a questão aqui é outra, minha gente.
Por que ele ainda funciona? Justamente porque não parece um disco de 1976
Talvez essa seja a melhor resposta. Existem álbuns históricos que a gente admira mais do que escuta. São importantes, influenciaram alguém, apareceram na lista de alguma publicação famosa, ganharam prêmios. E seguimos a vida.
“Songs in the Key of Life” é diferente.
Porque você pode colocar o disco inteiro para tocar e descobrir que ele não depende da nostalgia para funcionar. Essa é uma qualidade rara. “Songs in the Key of Life” não parece um monumento, ali, uma estátua para ser perpetuamente apreciada. Parece música. E música em movimento constante.
Mas existe uma pequena armadilha quando falamos de caras como Stevie Wonder: a palavra “gênio” aparece tanto que começa a perder significado. Ele é chamado de gênio porque canta bem, toca vários instrumentos, compõe, produz, arranja, experimenta com tecnologia e construiu alguns dos álbuns mais importantes da música popular.
Tudo isso é verdade.
Mas talvez o mais interessante seja outra coisa. Wonder entendeu que virtuosismo não precisava significar distância. Ele podia fazer uma música artisticamente sofisticada e ainda assim extremamente popular. Podia falar de questões sociais sem transformar uma canção em panfleto, escrever sobre espiritualidade sem abandonar o groove, fazer música pop sem tratar o público como burro.
E podia colocar dezenas de ideias dentro de um álbum sem transformá-lo em uma prova de vestibular. É aí que “Songs in the Key of Life” continua sendo especialmente impressionante.
A ambição não matou a diversão.É por isso que a nova turnê é mais interessante do que parece à primeira vista.
Stevie Wonder poderia escolher qualquer repertório para celebrar sua carreira.
Poderia tocar “Superstition”, “Higher Ground”, “Signed, Sealed, Delivered I’m Yours”, “Isn’t She Lovely”, “Sir Duke” e sair do palco com a tranquilidade de quem tem uma coleção inteira de clássicos. Fechou. Em vez disso, escolheu um álbum. E não qualquer álbum. Um disco duplo de 1976, acompanhado de um EP, com 21 músicas e mais de uma hora e meia de duração.
Uma obra que exige que o público aceite uma experiência mais longa, mais variada e menos preocupada em entregar apenas os grandes sucessos.
A turnê começa em outubro, lá em Detroit, cidade fundamental para a história da Motown e da carreira de Wonder, e estão previstas duas apresentações especiais no Fox Theatre, em 8 e 9 de dezembro. Talvez exista algo de simbólico nisso. Porque “Songs in the Key of Life” nasceu quando Stevie Wonder estava pensando em deixar a música. Cinco décadas depois, ele está voltando ao palco para tocá-lo inteiro.
Não parece exatamente uma despedida – AINDA BEM.
Parece mais uma lembrança de que certos discos não envelhecem porque continuam encontrando gente nova para ouvi-los. “Songs in the Key of Life” nasceu em 1976, com as tecnologias, conflitos e esperanças daquele momento. Mas não ficou preso nele.
Gerações inteiras de músicos ouviram. E agora Stevie Wonder vai tocar tudo outra vez. Talvez essa seja a melhor definição para um clássico de verdade.
Não é o disco que ficou para trás e sobrevive como algo a ser admirado de longe, num Olimpo musica. É o disco que continua chegando. Cinquenta anos depois, “Songs in the Key of Life” ainda está sendo descoberto. E Stevie Wonder parece disposto a nos lembrar disso — uma música de cada vez.