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Jogo de tabuleiro Root vira RPG e expande guerra do Arvoredo

Sucesso da Leder Games, Root chega ao Brasil em versão RPG pela Mosaico Jogos, trocando a disputa entre facções por aventuras protagonizadas por andarilhos em um dos cenários mais ricos dos jogos de mesa contemporâneos.

Por THIAGO CARDIM

Há poucos jogos de tabuleiro lançados na última década que tenham provocado tanto impacto quanto Root. Criado por Cole Wehrle e ilustrado por Kyle Ferrin, o jogo rapidamente deixou de ser apenas mais um sucesso entre fãs de estratégia para se tornar uma das propriedades intelectuais mais respeitadas do mercado de jogos de mesa. Agora, esse universo ganha uma nova forma de ser explorado pelos brasileiros com Root – O RPG, cuja edição nacional acaba de entrar em financiamento coletivo pela Mosaico Jogos.

A proposta, porém, não é simplesmente adaptar as regras do tabuleiro para outro formato. O RPG parte da mesma ambientação — uma floresta tomada por disputas políticas, guerras e alianças frágeis — para contar histórias completamente diferentes. Em vez de controlar exércitos e facções inteiras, os jogadores assumem o papel de personagens comuns tentando sobreviver em um mundo onde nenhuma potência consegue manter o equilíbrio por muito tempo.

É uma mudança de escala que transforma completamente a experiência.

Antes do RPG, um dos grandes fenômenos dos jogos de tabuleiro modernos

Lançado originalmente em 2018 pela Leder Games, Root chamou atenção por um motivo curioso: parecia um jogo infantil. Os pequenos animais desenhados por Kyle Ferrin remetiam imediatamente a livros ilustrados ou animações familiares. Bastava abrir a caixa, entretanto, para perceber que aquela aparência escondia um jogo de estratégia bastante sofisticado.

Inspirado por jogos de guerra e controle de território, Root coloca diferentes facções disputando o domínio do Arvoredo. A Marquesa de Cat explora os recursos naturais e expande sua infraestrutura industrial; a Dinastia das Rapinas tenta restaurar um império decadente; a Aliança do Arvoredo organiza revoltas populares contra os ocupantes; enquanto o misterioso Andarilho atravessa esse conflito negociando, espionando ou simplesmente lucrando com o caos.

O grande diferencial está justamente na assimetria. Cada facção possui regras próprias, objetivos diferentes e até formas distintas de pontuar. Não é exagero dizer que jogar com cada exército equivale quase a aprender um jogo completamente novo.

Essa combinação de profundidade estratégica, identidade visual marcante e excelente rejogabilidade fez de Root um dos títulos mais premiados da história recente dos board games, acumulando expansões, adaptações digitais e uma comunidade extremamente ativa. Mas havia uma pergunta inevitável: e se fosse possível viver naquele mundo?

O RPG responde justamente essa pergunta

Publicado originalmente pela Magpie Games, em parceria com a Leder Games, Root RPG não tenta reproduzir uma partida do jogo de tabuleiro: ele faz algo mais interessante. O conflito entre as facções continua existindo, mas agora serve como pano de fundo para aventuras protagonizadas pelos chamados Andarilhos.

Esses personagens não comandam exércitos e também não ocupam posições de poder. São mercenários, ladrões, aventureiros, mensageiros, exploradores e sobreviventes tentando encontrar seu lugar em uma floresta permanentemente em guerra.

Enquanto as grandes facções disputam o destino do Arvoredo, os Andarilhos atravessam clareiras, vilarejos e estradas aceitando trabalhos, estabelecendo alianças improváveis e, muitas vezes, mudando o rumo dos acontecimentos sem sequer perceber.

É uma abordagem que lembra muito mais histórias de fantasia picaresca (focado em trapaceiros espertos, humor e crítica social) do que campanhas militares tradicionais.

Um cenário político vivo

O Arvoredo talvez seja o maior personagem de Root. Afinal, muito antes de qualquer aventura começar, a floresta já vive um momento delicado. Após décadas de domínio da Dinastia das Rapinas, uma guerra civil enfraqueceu o antigo império. Aproveitando esse vazio de poder, o expansionista Marquesado invadiu a região, estabelecendo um governo baseado na exploração dos recursos naturais.

Ao mesmo tempo, comunidades inteiras passaram a organizar movimentos de resistência conhecidos como Aliança do Arvoredo, enquanto diversas outras facções observam cuidadosamente a disputa em busca de vantagens próprias. Nenhum lugar é completamente seguro, nenhuma cidade permanece neutra por muito tempo e nenhuma decisão tomada pelos personagens deixa de produzir consequências.

Mais do que um cenário de fantasia, o Arvoredo funciona como um organismo político em constante transformação.

Powered by the Apocalypse muda completamente a forma de jogar

Talvez a maior diferença entre o RPG e o jogo de tabuleiro esteja justamente nas regras. Em vez de reproduzir a lógica estratégica do original, a Magpie optou por utilizar o sistema Powered by the Apocalypse (PbtA), um dos conjuntos de regras narrativas mais influentes do RPG moderno.

Criado inicialmente por Apocalypse World, o sistema privilegia histórias improvisadas, personagens complexos e consequências narrativas muito mais do que cálculos ou simulações. Em Root RPG, praticamente todas as ações importantes são resolvidas utilizando apenas dois dados de seis lados. E mais importante do que obter sucesso absoluto é descobrir o que acontece quando algo dá parcialmente certo.

Essa filosofia transforma cada sessão em uma construção coletiva da narrativa, incentivando criatividade muito mais do que planejamento rígido.

Um par de dados é suficiente, mas se cada jogador tiver o seu par, tudo fica melhor ainda. E não se preocupe com o Mestre/Narrador, esse não precisa de dados. Além disso, é preciso também ter os manuais impressos de seus personagens, que correspondem aos conjuntos de opções de como enxergam o Arvoredo e interagem com ele. Por último, é importante criar um mapa do Arvoredo: pode ser impresso, extraído do jogo de tabuleiro ou mesmo rabiscado em uma folha de papel junto do Mestre.

Além, é claro, de lápis, borracha, papel para anotar tudo nos manuais e não esquecer de nada durante as aventuras. 😉

Quem vem de sistemas mais tradicionais, como Dungeons & Dragons, encontrará uma experiência bastante diferente, focada menos em gerenciamento de fichas e mais em interpretação.

Artimanhas, reputação e improviso

Embora compartilhe a base do PbtA, Root RPG possui mecânicas próprias bastante interessantes. Uma das principais é o sistema de Artimanhas, que incentiva soluções inesperadas para praticamente qualquer situação. Em vez de recorrer imediatamente ao combate, os jogadores são constantemente estimulados a improvisar, enganar adversários, explorar o ambiente, negociar ou utilizar equipamentos de maneiras pouco convencionais.

Outro elemento importante é a reputação. As ações dos personagens influenciam diretamente sua relação com cada facção, abrindo ou fechando portas conforme a campanha evolui. Isso faz com que cada grupo construa uma versão única do Arvoredo.

Não é preciso conhecer o jogo de tabuleiro

Quem nunca jogou Root pode ficar tranquilo. Embora compartilhem o mesmo universo, o RPG funciona completamente de maneira independente. Toda a ambientação é apresentada ao longo do livro, permitindo que qualquer grupo descubra aquele mundo pela primeira vez durante a própria campanha.

Quem já conhece o board game, por outro lado, encontrará diversas referências, locais, personagens e facções familiares, agora apresentados com muito mais profundidade. É uma expansão daquele universo, e não uma adaptação literal.

A edição brasileira

A publicação nacional chega pelas mãos da Mosaico Jogos, editora que, ao longo dos últimos anos, consolidou um catálogo bastante respeitado tanto na publicação de jogos de tabuleiro modernos quanto na localização de títulos internacionais. O trabalho dos caras costuma priorizar produções reconhecidas mundialmente, acompanhadas de materiais gráficos de alta qualidade e traduções cuidadosas.

No caso de Root RPG, essa preocupação ganha um reforço importante. Toda a tradução ficou sob responsabilidade da New Order Editora, um dos nomes mais experientes do RPG brasileiro. Com dezenas de sistemas publicados – entre eles Chamado de Cthulhu, Alien RPG, Ars Magica, Shadowrun e Pugmire, entre outros -, a New Order construiu uma reputação baseada justamente na qualidade de suas localizações.

Mais do que traduzir termos, a editora costuma adaptar conceitos, manter consistência terminológica entre linhas editoriais e preservar o tom narrativo das obras originais. Num jogo tão dependente de ambientação quanto Root RPG, isso faz diferença.

A própria campanha explica que alguns termos foram alterados em relação ao jogo de tabuleiro justamente para que a construção de mundo funcionasse melhor dentro de uma experiência de RPG, decisão tomada em conjunto entre Mosaico e New Order. Essa parceria acaba funcionando quase como um selo de qualidade para quem acompanha o mercado brasileiro de RPG.

Um universo que finalmente pode ser habitado

Existe algo bastante simbólico em Root RPG. O jogo de tabuleiro sempre contou histórias grandiosas sobre impérios, revoluções e guerras; o RPG escolhe olhar para quem atravessa esses conflitos tentando apenas sobreviver.

É uma mudança de perspectiva que torna o Arvoredo ainda mais interessante. Em vez de mover exércitos sobre um mapa, agora são os próprios jogadores que caminham pelas clareiras, negociam com facções rivais, acumulam dívidas, conquistam aliados improváveis e descobrem que, em um mundo permanentemente em guerra, até a menor das decisões pode alterar o destino da floresta.

Para quem já admirava Root como um dos grandes jogos de tabuleiro da atualidade, a versão em RPG representa a oportunidade de finalmente viver dentro desse universo. Para quem nunca teve contato com ele, talvez seja justamente a porta de entrada mais envolvente para descobrir por que um grupo de gatos, pássaros, raposas e guaxinins conseguiu criar um dos cenários mais ricos dos jogos modernos.

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