Quem é esse tal de Guy Gardner?
Com a estreia de Superman, dirigido por James Gunn, o universo cinematográfico da DC ganha um novo integrante: o explosivo e arrombado lanterna verde interpretado por Nathan Fillion
Por THIAGO CARDIM
Anos atrás, quando as séries DC do canal CW estavam bombando, Arrowverse no seu auge de popularidade e audiência, eu costumava ser chamado, representando o JUDÃO.com.br, a participar com frequência do Domingo Heroico, um quadro sobre hominhos que rolava nos intervalos do Warner Channel (um canal de TV por assinatura, não sei se você ainda se lembra do que é isso).
Um dos programas nos quais fui dar meus pitacos nerdísticos, ao lado do Rino Félix (do canal Nerd All Stars) e do Mike Sant’Anna (atualmente, o nosso maior influencer de WWE), foi justamente uma discussão sobre quem é o melhor Lanterna Verde. E, para surpresa geral da nação, lá estava eu dizendo que o meu favorito é… o Guy Gardner.
É verdade – clica aqui pra assistir (o YouTube, por alguma razão, não deixa a gente incorporar este vídeo diretamente aqui).
Calma que eu explico: os meus personagens favoritos sempre foram, de alguma forma, aqueles mais problemáticos. Os bonzinhos, ilibados, perfeitos exemplos de pureza, nunca me atraíram de verdade. Sempre curti aqueles cheios de defeitos, capazes de cagadas homéricas, aqueles que fosse possível amar e odiar… ou, quem sabe, amar odiar. O Guy é um exemplo claríssimo disso.
Há quem diga que ele é conhecido principalmente por “sua personalidade explosiva e atitude irreverente”. Mas eu diria que ele é conhecido muito mais por ser um grande dum arrombado. Um sujeito quase sempre com bom coração – mas enterrado no fundo do peito de alguém capaz de ser BEM escroto.

Mas o Lanterna Verde não era outro cara?
Pois então. Pra você que não manja muito do mundinho dos gibis de herói, vale um resuminho: na verdade, no universo DC, “lanterna verde” não é uma pessoa só, mas um título, um “cargo” que carregam os seres de diferentes cantos do espaço que são escolhidos para fazer parte desta tropa espacial de protetores da galáxia, quase como se fossem um esquadrão policial.
Os lanternas verdes carregam como arma este anel especial, que cria construtos de cor esmeralda (claro…) graças a uma mistura de força de vontade e imaginação. O lanterna verde terrestre mais conhecido é Hal Jordan – mas o que não falta é representante terráqueo dentro da tropa. Alan Scott, John Stewart (aquele que ficou famoso nos desenhos da Liga da Justiça), Kyle Rayner, Jessica Cruz, Simon Baz e até o recente Sojourner Mullein.
Guy Gardner foi criado por John Broome e Gil Kane, fazendo sua primeira aparição em Green Lantern #59, em março de 1968. Criado em Baltimore por seus pais, Roland e Peggy Gardner, o jovem Guy tinha que encarar os abusos físicos e psicológicos do pai, um alcoólatra que sempre preferiu o irmão mais velho, Mace, mesmo com todo o esforço que o menino fazia pra se destacar na escola. Embora tenha buscado consolo nos gibis que lia, conforme foi ficando mais velho, Guy acabou se tornando um delinquente juvenil, se metendo em todo tipo de confusão. Mas Mace, que virou policial, ajuda a trazer o moleque de volta aos trilhos.
Guy vai pra faculdade, se forma em educação e psicologia, além de tentar uma carreira jogando futebol americano – mas uma inesperada lesão acaba com suas aspirações atléticas. Uma vez formado, ele chega a trabalhar como assistente social, focando na reabilitação de detentos, preferindo depois se focar no ensino de educação física para crianças com deficiência.
Na época dos Novos 52, com a mudança na continuidade dos heróis DC, sua história acabou sendo significantemente alterada – tornando-se um policial, filho do meio de uma família com longa tradição trabalhando na manutenção da lei. Ele então ganha o anel de lanterna verde depois de resgatar seu irmão mais velho, Gerard, durante um tiroteio. Mas quando veio o Renascimento (Rebirth), foi retomada a história clássica do pai abusivo, Roland.
E a relação com a Tropa?
Guy Gardner foi um dos dois escolhidos como substitutos potenciais de Abin Sur, o alienígena moribundo que atuava originalmente como protetor do setor espacial 2814 (que inclui a Terra) – mas acabou sendo preterido pelo próprio anel, já que Hal Jordan estava fisicamente mais perto do local da queda da nave de Sur.
Assim, Guy assumiu o papel de “reserva” de Hal — algo que moldaria sua relação com a Tropa desde o início. Mesmo nesse posto secundário, Guy se aproximou de Hal e passou a ajudá-lo em missões, após ser treinado por Kilowog. Sua trajetória, porém, tomou um rumo trágico quando ele sofreu um acidente ao salvar um aluno durante um terremoto. Incapacitado, foi substituído por John Stewart como novo backup de Jordan.
Durante um dos raros momentos em que assumia a função de lanterna, Guy foi gravemente ferido por uma explosão da bateria de poder de Hal, sendo lançado na Zona Fantasma. Dado como morto, ele ainda viu sua então namorada, Kari Limbo, quase se casar com Hal — até que conseguiu interromper a cerimônia por telepatia. Resgatado com danos cerebrais, Guy ficou em coma por anos e, ao acordar, exibia uma nova personalidade: mais instável, arrogante e impulsiva.

Esse trauma moldaria a versão mais conhecida (e polêmica) do personagem nos anos seguintes, especialmente após os eventos de Crise nas Infinitas Terras, quando ele retomou seu posto — agora com bem menos filtro e muito mais atitude.
A mudança significativa para o Guy cabeça quente que conhecemos se deu na década de 1980, graças à dupla Steve Englehart e Joe Staton, que o transformou em uma paródia chauvinista de um “americano de sangue quente” ultramachista. Na época, Englehart decidiu que poderíamos ter mais de um lanterna ativo ao mesmo tempo: assim, ele trouxe Hal Jordan de volta (já que, na época, John Stewart era o protagonista da HQ) e reformulou o Guy.
Embora Gil Kane tenha criado seu visual para se parecer originalmente com o ator Martin Milner, seu novo look oitentista foi diretamente inspirado no personagem Major Ronald Merrick da série de TV britânica The Jewel in the Crown, sobre os últimos dias do Raj britânico na Índia durante e após a Segunda Guerra Mundial.
Ao longo dos anos, Guy Gardner passou por diversas transformações. De um professor de educação física a um lanterna verde de destaque, ele também assumiu outras identidades: em certo ponto de sua trajetória, por exemplo, após ser expulso da tropa, Guy lutou por justiça usando o antigo anel de poder amarelo do vilão Sinestro. Guy também é uma das poucas pessoas que conseguiu usar um anel de poder dos Lanternas Vermelhos e sair da experiência com sua vida (e sanidade) intactas.
Ah, sim, não dá pra esquecer o seu momento “Warrior”, quando ele tinha a capacidade de transformar partes de seu corpo em armas mortais (malditos anos 1990). Aí, nós descobrimos que Guy é parte alienígena, um híbrido devido ao acasalamento de um vuldariano com um humano de sua linhagem, muitas gerações atrás. E é a partir daí que ele descobre estas novas habilidades, que o fazem combater o mal sob o nome de Guerreiro. Mas estes poderes acabaram sendo “removidos” depois de uma luta com a criatura superpoderosa de nome Parallax.
Putz, eu já falei sobre o papo de um vilão demoníaco de nome Dementor ter revelado que manipulou a mente de Gardner durante o coma para fazê-lo acordar como um idiota?
Melhor deixar pra lá.
Mais legal a gente lembrar mesmo é de sua icônica participação na fase cômica da Liga da Justiça Internacional, escrita por J.M. DeMatteis e Keith Giffen e com o traço de Kevin Maguire, Gardner ganhou destaque por seu temperamento explosivo e momentos hilários, como o famoso soco de Batman que o deixou inconsciente. Essa versão mais leve e caricata do personagem conquistou muitos fãs e solidificou seu lugar na cultura pop.

Um sujeito de… personalidade única, eu diria
O fato é que Gardner é conhecido por sua atitude desafiadora, sarcasmo afiado e uma confiança inabalável que beira a arrogância. Essas características o colocam frequentemente em conflito com outros heróis, mas também destacam sua determinação e coragem inquestionáveis.
A relação de Guy com seus colegas lanternas verdes é complexa. Com Hal Jordan, há uma rivalidade constante; com John Stewart, uma relação de respeito mútuo; e com Kyle Rayner, uma dinâmica que oscila entre camaradagem e competição. Essas interações enriquecem as narrativas da Tropa dos Lanternas Verdes e mostram diferentes facetas de Gardner.
Antes de sua estreia nos cinemas, Guy Gardner apareceu em diversas animações, como Batman: The Brave and the Bold (voz de James Arnold Taylor), Justiça Jovem (voz de Troy Baker) e Green Lantern: The Animated Series (voz de Diedrich Bader). Mas o primeiríssimo ator a viver Guy em versão live-action foi Matthew Settle, no filme da Jiga da Justiça da América que deveria servir de piloto para uma série de TV, lá em 1997… mas que obviamente nunca aconteceu.
Ainda bem.
Guy Gardner no novo filme do Superman
Em Superman (2025), Gardner é apresentado como membro da “Gangue da Justiça”, uma equipe financiada pelo bilionário Maxwell Lord (Sean Gunn) e na qual atua ao lado de personagens como a Mulher-Gavião e o Senhor Incrível. Sua introdução estabelece uma dinâmica interessante com o Superman de David Corenswet, contrastando a esperança e idealismo do Homem de Aço com a abordagem mais direta e sarcástica de Gardner. O próprio James Gunn destacou que a inclusão de Gardner traz um equilíbrio necessário ao tom do filme.
“Espero que vocês apreciem que, quando vocês estão nesse mundo de super-heróis, nesse mundo de histórias em quadrinhos, existem tantos heróis. São muitos. Eu aprecio muito que vocês saibam que um deles vai ser um babaca”, explica Fillion – que, aliás, já tinha dado voz ao lanterna Hal Jordan em algumas animações da DC – em entrevista ao Indie Wire. “Nem todos podem ser heroicos e nobres. Todas estas coisas que personificamos quando pensamos em um herói. Alguns deles têm que ser uns babacas de primeira. E esse é o Guy Gardner. Você não precisa ser bom para ser um Lanterna Verde. Você só precisa ser destemido”.
A inspiração do ator, no entanto, foi outra: Sophia Petrillo, personagem da série cômica “The Golden Girls”. Ele explica: “Sophia teve um derrame e isso afetou a parte do cérebro que filtrava o que ela dizia. Então, ela dizia o que quer que lhe passasse pela cabeça e era um pesadelo para todos ao seu redor. Então pensei: esse é o meu Guy Gardner. (…) Ele é egoísta. Ele é narcisista. Ele tem todas essas qualidades terríveis. E lhe falta um filtro”.

O futuro de Guy no DCU
Já sabemos que Nathan Fillion retornará como Guy Gardner não apenas na segunda temporada da série do Pacificador, mas também na série Lanterns, da HBO, que também contará com John Stewart (Aaron Pierre) e Hal Jordan (Kyle Chandler). A série promete explorar uma investigação estilo True Detective, mergulhando em mistérios cósmicos e aprofundando as complexas relações entre os lanternas verdes.
E considerando que temos Maxwell Lord e outros elementos da Liga cômica no circuito, já que Gunn é declaradamente fã desta fase… quem sabe, em algum momento, não veremos Guy levar um belíssimo soco na cara, cortesia do Batman, só que agora em versão live-action?
Cinco gibis pra conhecer Guy Gardner
1. Green Lantern (Vol. 2) #59 (1968)
Por John Broome e Gil Kane
Primeira aparição de Guy Gardner
Aqui é onde tudo começou. Guy é apresentado como o “outro” possível escolhido do anel de Abin Sur — um plano B com cara de confusão pela frente. A história é mais curiosa do que essencial para o desenvolvimento dele, mas vale como ponto de partida canônico para qualquer leitor.
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2. Justice League International (1987) #1–6
Por Keith Giffen, J.M. DeMatteis e Kevin Maguire
A fase cômica que imortalizou Guy Gardner
Essa é a versão do Guy que os fãs mais lembram: cabeça quente, arrogante e hilário sem querer. É aqui que rola o lendário soco do Batman, a dinâmica com G’Nort, e o personagem se torna, oficialmente, um ícone da zoeira heroica. Essencial pra entender o carisma (e a insuportabilidade) do cara.
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3. Guy Gardner: Reborn (1992)
Por Gerard Jones e Joe Staton
O início da fase solo — e do Guy sem anel
Depois de perder seu anel dos Lanternas Verdes, Guy parte em uma jornada violenta e sem filtro pra encontrar uma nova fonte de poder. Essa minissérie dá início à fase “anti-herói trash”, quando ele vira o Warrior e abraça ainda mais o papel de brutamontes com senso de justiça duvidoso.
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4. Guy Gardner: Warrior (1994–1996)
Por Beau Smith
O ápice (?) do Guy fora da Tropa
Com poderes alienígenas vuldarianos (sim, é esquisito — e é estranhamente divertido), Guy ganha sua própria revista por 44 edições. É a encarnação mais exagerada e maximalista do personagem: tiroteio, pancadaria, cabelos estranhos e frases de efeito. Um retrato perfeito da testosterona noventista dos quadrinhos.
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5. Green Lantern Corps: Recharge (2005)
Por Geoff Johns e Dave Gibbons
O renascimento da Tropa — e do Guy como líder
Essa minissérie é fundamental pra quem quer ver o Guy amadurecendo. Aqui, ele assume um papel de liderança dentro da Tropa dos Lanternas Verdes e mostra que, por trás da pose de durão, existe um combatente competente e um herói de verdade. A partir daqui, ele deixa de ser piada interna e vira um nome de respeito no setor 2814.
Quer saber mais?
Nossos chapas do podcast Mansão Wayne gravaram um episódio inteirinho dedicado ao Guy Gardner. Vai que vai.
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Lucas
adorei saber mais sobre o personagem! agora quero ler todas essas edições sugeridas hehe