Lestat e aquela série que você DEVERIA estar assistindo
Agora disponíveis integralmente no Netflix, as atuais três temporadas da obra baseada nos livros de Anne Rice são uma prova de que tem muita coisa boa FORA do mundinho do hype
Por THIAGO CARDIM
É de fato curioso ver que SÓ AGORA, depois que as suas três temporadas enfim chegaram ao catálogo do Netflix, Entrevista com o Vampiro esteja entrando no radar de muita gente aqui no Brasil que, vejam só, é consumidora assídua do universo das séries. E isso considerando que a primeira temporada foi lançada em 2022. E isso considerando PRINCIPALMENTE que estamos falando de uma produção incrível, com um roteiro certeiro e interpretações majestosas, é bom que se diga (mas já voltamos a isso).
Cheguei a falar com pessoas fanáticas por cultura pop, que acessam costumeiramente notícias dos principais portais e criadores de conteúdo, que consomem vídeos no YouTube e passam o dia no Instagram/TikTok de creators especializados, e sequer sabiam que existia, inclusive, esta nova adaptação da obra de Anne Rice e estavam na cabeça ainda apenas e tão somente com o filme de 1994, estrelado por Brad Pitt e Tom Cruise.
Alguns especialistas, claro, vão dizer que conforme a série, que é exibida lá fora pelo AMC, foi sendo disponibilizada em plataformas mais populares, tipo o Prime Video (num primeiro momento) e principalmente o Netflix – sinônimo de streaming pra uma galera – é que a produção passou a de fato ganhar mais espaço… Isso ajuda, é claro. Mas também não sei MESMO se é apenas e tão somente isso.
Porque, quando a gente olha pro atual cenário de séries nos EUA, por exemplo, quando a gente vê quem está na mira das grandes premiações, a gente vê um hype pulsante para algumas produções e outras correndo absolutamente por fora, sem qualquer tipo de reconhecimento… sendo que mereciam DEMAIS um espaço pela qualidade da entrega. Entrevista com o Vampiro, desde o início, é assim. Enquanto tem atores absolutamente questionáveis disputando premiação atrás de premiação, ano após ano, a gente sempre se perguntou aqui por qual razão Sam Reid (Lestat) ou Jacob Anderson (Louis) permaneciam sumariamente ignorados?

Mesmo sem assinar HBO ou ter acesso ao Max, por exemplo, é inevitável que as pessoas buscassem – da forma que vocês bem sabem como é, não preciso ensinar ninguém a usar internet – o episódio da semana de Game of Thrones, o grande assunto da semana, aquele que TODO MUNDO precisava comentar no escritório, no restaurante, no bar, no grupo do WhatsApp. Ou por Lost, em seus tempos áureos pré-redes sociais. O mesmo acontecia com The Walking Dead, Breaking Bad, Grey’s Anatomy, House, Stranger Things e por aí vai, cada qual a seu tempo. E segue de alguma forma, vamos lá, com Hacks, com The Pitt, Ruptura, The Bear, com Pluribus… As séries da vez.
Tá todo mundo vendo, então eu também preciso ver, não dá pra ficar de fora, FOMO, aquela coisa que sabemos bem.
Então, por que a indústria de alguma forma ignorou Entrevista com o Vampiro? A série não estava sendo vista pelas pessoas e, portanto, não era enxergada pelas temporadas de premiação? Ou o contrário: como não era enxergada pelas premiações e não entrava no hype da semana, não tinha ninguém alimentando o frisson e, portanto, não tinha ninguém querendo falar a respeito nos principais canais/veículos de comunicação e, portanto, as pessoas não eram estimuladas a assistir? O velho dilema de Tostines?
Esquisito demais. Simplesmente, não dá pra entender.
Enfim, tudo bem. E que bom que este momento finalmente chegou, né?
A maravilhosa DR das vampironas cacuras
Se você estava acostumado ao glamour dos vampiros vitorianos do Entrevista com o Vampiro versão filme, dos anos 1990, obviamente vai se surpreender com as duas temporadas iniciais. Trazendo a trama para Nova Orleans e colocando Louis como um homem negro, a série opta por mudanças que não só atualizam de maneira necessária a obra original como dão à estrutura de Rice ainda mais corpo, forma e sentimento, de maneira que, em grande parte das decisões, eles optam por um caminho que é ainda MELHOR do que nos livros.
Sim, vejam vocês, é isso que uma adaptação deveria fazer sempre. Se basear no original, usá-lo como ponto de partida, mas buscar contar a história do seu jeito, levando em consideração que o audiovisual funciona de uma forma inteiramente diferente de uma mídia impressa. E tudo, é bom que se diga, com a anuência da própria Anne Rice e de seu filho, produtores/consultores da série, que acompanharam o processo desde o começo.
Entrevista com o Vampiro é, antes de tudo, uma história sobre seres humanos – e como uma passagem sobrenatural pode acordar algo monstruoso dentro de cada um de nós. E como a fome que ruge no peito dos vampiros não é apenas por sangue, mas em muitos casos por poder. Por ser uma criatura acima das outras na cadeia alimentar. Por dinheiro, status, luxúria. Por controle. E como isso pode destruir a humanidade… ou, quem sabe, apenas transformá-la. As duas temporadas da série – incluindo a segunda, que nos leva para Paris e faz um retrato absolutamente inesquecível em sua sutileza e ao mesmo tempo brutalidade do Teatro dos Vampiros – se tornam a prova inconteste de que, sim, o RPG Vampiro: A Máscara jamais existiria sem as linhas de Anne Rice.

Mas esta versão é ainda mais inteligente porque cria, de fato, um relacionamento de tamanha intensidade entre Lestat e Louis. Aqui, os dois atores fazem uma entrega tão incrível que, em determinados momentos, você até ri do amor e do ódio que ambos destilam um pelo outro praticamente ao mesmo tempo, em verdadeiras DRs que soam propositalmente até ridículas entre seres imortais. Mas, minutos depois, você está com lágrimas nos olhos ao vê-los rasgando o coração, desnudando suas almas em manifestações de desejo, angústia ou fúria… e por vezes, os três ao mesmo tempo.
Destaque também para a assustadora manipulação do Armand vivido por Assad Zaman, cujo olhar e a expressão corporal muitas vezes dizem mais do que mil palavras, e principalmente para o jornalista Daniel Molloy – ao qual o ator Eric Bogosian dá tantas camadas extra que, além de se tornar um personagem infinitamente mais interessante do que apenas e tão somente o sujeito que entrevista o vampiro no livro, acabou se tornando também o MEU personagem favorito da série.
Mas vamos falar d’O Vampiro Lestat?
Então, vamos sim. Porque a terceira temporada da série, que acabou de ser exibida nos EUA há cerca de duas semanas, caminha na bibliografia de Anne Rice e, ao invés de adaptar Entrevista com o Vampiro, de 1976, começa a se basear no livro seguinte, O Vampiro Lestat, de 1985. Por isso mesmo, nada mais justo que esta temporada tivesse também um título diferente. 😉
Aqui, vale fazer um belo parêntese: parte da trama já tinha sido vista pelo público em A Rainha dos Condenados, filme de 2002 que traz a saudosa cantora Aaliyah no papel principal. Afinal, os acontecimentos do livro O Vampiro Lestat vão desencadear os acontecimentos vistos no livro da Rainha, lançado em 1988. Muito que bem. Explicado isso… ESQUEÇA ESTA PORRA DE FILME.
Sério, gente. Sei que a nostalgia tanto da Aaliyah quanto da trilha sonora com o mais puro creme do nu metal/industrial (Deftones, Papa Roach, Static-X, Linkin Park, Disturbed e por aí vai) podem fazer com que vocês se lembrem dele como algo memorável… mas não é. É uma BOSTA. Já tentei dar diversas chances pro dito cujo, de coração aberto e alma leve, e ele fica ainda pior cada vez que eu resolvo assistir de novo. O filme é definitivamente horroroso e o Stuart Townsend como Lestat chega a beirar o vergonhoso. O Vampiro Lestat, a série, vai por um caminho MUITÍSSIMO diferente e eu não poderia escrever suficientes vezes “AINDA BEM” pra fazer com que vocês entendessem isso de uma vez por todas.
Em O Vampiro Lestat, as posições se invertem e o vampirão loiro que dá título à esta temporada se torna o protagonista. Agora vivendo no ano de 2025, Lestat se torna um rock star, uma mistura andrógina e selvagem de David Bowie, Iggy Pop e Robert Plant. Através de sua música, ele encontra uma nova forma de expressão (com canções, aliás, compostas exclusivamente para a série – e muito boas, diga-se de passagem). Ao longo de sua turnê de shows mais intimistas (que acompanhamos como uma lembrança a partir de um evento de tons um tanto apocalípticos, visto no episódio inaugural), vamos rememorando um pouco da história do personagem.

Ao mesmo tempo em que quem acompanhou as duas temporadas de Entrevista com o Vampiro é apresentado a certos fatos contados sob o ponto de vista do próprio Lestat e não de Louis (ou, no caso, da interpretação de Daniel pro que Louis contou), O Vampiro Lestat nos mostra a infância do jovem de Lioncourt, repleta de pequenos e grandes abusos; sua relação bastante estranha com a mãe, Gabriella (Jennifer Ehle); um de seus primeiros grandes amores, Nicolas de Lenfent; sua traumática transformação nas garras de Magnus; e o momento em que ele se torna guardião de Akasha (aqui, com uma prévia visceral interpretada por Sheila Atim). Tudo isso ajuda a compor a trágica figura de um Lestat que passamos a enxergar de maneira diferente das outras temporadas.
A arrogância onipresente do master vampirão roqueiro é desmontada e descontruída – e, no fim, descobrimos que os quatro personagens principais (ele, Louis, Armand e Daniel) são todos um bando de problemáticos e longe de poderem ser compreendidos como algo sequer próximo da palavra “herói”.
Os dois últimos episódios da temporada são uma porrada, daquelas muito bem dadas. Ambos deveriam, sozinhos, ser considerados como faróis para potenciais indicações nos tapetes vermelhos no ano que vem – o penúltimo, com uma espécie de prestação de contas de Louis, Lestat e um outro personagem (que, se eu mencionar, obviamente estrago toda a surpresa), é absolutamente brilhante, sem outro adjetivo possível.
Vejam O Vampiro Lestat. SÉRIO. E quem ainda não viu os dois Entrevista, sugerimos fortemente engatar esta maratona. Simbora criar este hype nós mesmos, por conta própria. Porque a série merece DEMAIS.